‘Algozes’ de Weinstein lançam no Brasil livro que o denunciou

Sonia Racy

28 de novembro de 2019 | 00h36


JODI KANTOR E MEGAN TWOHEY FOTO: MARTIN SCHOELLER

Quando começaram a investigar as acusações contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, as jornalistas do The New York Times Jodi Kantor (acima, à esquerda) e Megan Twohey não imaginavam o impacto que a denúncia teria no mundo. Amanhã sai no Brasil, pela Cia. das Letras, o livro Ela Disse (She Said), em que as duas relatam os bastidores da reportagem que propagou o movimento #MeToo. Leia abaixo a conversa da repórter Marcela Paes, por telefone, com Jodi.

Parece que a parte mais difícil não foi colher informações, mas convencer as pessoas a falarem publicamente. Duvidou de que conseguiria publicar a matéria?
Sim. Nós tínhamos um senso de responsabilidade, a noção de que era obrigatório ter evidência o suficiente para poder publicar. Ter a autorização da Ashley Judd pra publicar o depoimento significou muito. Ela realmente colocou sua carreira em risco ao revelar as suas experiências. E ela falou tentando ajudar outras atrizes de Hollywood.

Foi difícil se aproximar de uma atriz famosa num caso tão sério?
Não por isso. O que a gente tentou fazer com todas as fontes foi mostrar a veracidade das alegações. Como Weinstein se livrou disso por tanto tempo? E saber como as coisas realmente aconteceram. Tentamos trazer as pessoas para esse processo de investigação com a gente. Foram meses e meses de trabalho com a Ashley Judd antes que ela permitisse a publicação.

Harvey Weinstein tem muitos advogados e já tinha silenciado muitas mulheres em acordos judiciais que as impediam de falar. Vocês tiveram medo dele enquanto investigavam essa história?
Ele não sabia de metade das coisas que estavam acontecendo. Também não sabia o que a gente estava tentando fazer, nem das nossas fontes. Não tínhamos medo porque somos repórteres investigativas e isso o impedia de fazer algumas coisas. Tínhamos medo de falhar. Sabíamos que não podíamos contar absolutamente nada do que investigávamos para ninguém. Foi uma honra poder fazer essa revelação.

Depois disso, muitas histórias parecidas apareceram. Como vocês se sentiram?
Comovidas e estupefatas. Antes de a história ser publicada a gente não tinha ideia do impacto que isso causaria. Pensamos que talvez ninguém fosse se importar. Talvez isso fosse visto como “apenas mais um caso que acontece em Hollywood…”.

O comediante Aziz Ansari também foi acusado por uma garota e logo o Louis CK. No caso do Aziz muita gente achou que foi um exagero. Você concorda?
Não, há muitas perguntas que devem ser feitas para podermos analisar, mas é uma situação bem diferente. No caso do Louis CK, eu trabalhei na matéria sobre ele e as mulheres estavam prontas para falar.

Essa investigação a transformou como pessoa?
O livro confirma aquilo em que a gente acredita e mostra que o jornalismo importa. Uma hora a verdade aparece. Estávamos muito felizes em poder revelar o que o jornalismo pode alcançar e por mostrar o que esse tipo de coisa pode vir a desencadear.

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