“Além do físico, é preciso cuidar do psicológico”, afirma médico José Ruguê

“Além do físico, é preciso cuidar do psicológico”, afirma médico José Ruguê

Sonia Racy

20 de abril de 2020 | 00h30

JOSÉ RUGUÊ – FOTO: BIOPSICOLOGIA/DIVULGAÇÃO

Foi a frustração com os índices de mortalidade pré-hospitalar, na época em que era chefe da UTI do Hospital Santa Genoveva, em Uberlândia (MG), que convenceu o médico José Ruguê, especialista em Terapia Intensiva, a incorporar as técnicas do ayurveda ao seu cotidiano. “Há questões que se iniciam no aspecto emocional das pessoas”, explica o médico ocidental formado, em 1974, pela Suddha Dharma Mandalam – a mais antiga escola de yoga da Índia.

“A medicina moderna e o ayurveda não se anulam. Pelo contrário, são complementares”, conta dr. Ruguê. Nestes tempos de covid-19, ele compartilha receita ayurveda que aumenta as chances de evitar o contágio e os sintomas mais graves da doença. Entre as medidas, ‘uma gota de óleo de gergelim morno em cada narina, pela manhã e à noite; e, claro, dedicação maior à meditação. ‘. A quarentena, segundo ele, leva a um isolamento também psicológico, que pode gerar depressão e ansiedade. “ O desequilíbrio interno pode ser o princípio de todo o mal”, diz.

A medicina ayurvédica, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, tem hoje ministério próprio no governo indiano. Aqui no Brasil, ela se tornou prática integrativa do SUS em 2018, no governo Temer, pelas mãos do então ministro da Saúde, Ricardo Barros, também entusiasta da filosofia milenar.

Em conversa com a coluna, na sua escola de yoga e medicina ayurveda – perto da cidadezinha mineira em Araguari –, onde já formou mais de quatro mil alunos nas técnicas indianas que harmonizam corpo, mente e alma, Ruguê mostra a que veio.

Existe muita discussão, no Ocidente, sobre a medicina ayurvédica. Como o senhor tomou a decisão de trilhar esse caminho?
Antes mesmo de começar a cursar medicina, na Universidade Federal de Uberlândia, já estudava a filosofia indiana, a filosofia védica. Praticava meditação e yoga hinduísta, do Sanatana Dharma. Quando fiz medicina, percebi que as pessoas precisavam muito desse tipo de conhecimento também. Porque uma coisa não exclui a outra. Ambas têm seu lugar muito claramente estabelecido. O ayurveda contribui em duas linhas de trabalho que são muito importantes: a primeira é a prevenção, porque ele é muito focado em mudança do estilo de vida, foco na alimentação, exercícios, tudo aquilo que, na medicina moderna, a gente se frustra um pouco, pois nós, médicos, fomos treinados para cuidar de doenças, mas não para fazer a prevenção de forma apropriada.

Tratar as causas antes que se transformem em doenças.
E lidar com as pessoas em estado de desequilíbrio, que ainda não evoluiu para uma doença de caráter médico. É como funciona na Índia. A segunda linha de trabalho no ayurveda e muito importante é no tratamento coadjuvante, auxiliar da medicina moderna em doenças crônicas degenerativas difíceis de tratar. Por exemplo, no tratamento da esclerose múltipla, da Esclerose Lateral Amiotrófica, das doenças degenerativas do sistema nervoso e do sistema osteoarticular, além das doenças autoimunes. O ayurveda pode ser um tratamento exclusivo ou complementar à medicina moderna. Na Índia, o ayurveda funciona como um sistema de saúde amplo, tem até ministério próprio, o Ayush, e, nos últimos anos, vem adquirindo papel muito importante na saúde pública do país, tanto por parte do governo quanto das instituições privadas.

Qual a grande dificuldade de a medicina tradicional aceitar o ayurveda?
Ainda existe muito desconhecimento no Ocidente do que é, de fato, o ayurveda. Porque ele chegou por aqui como uma prática associada ao yoga no sentido espiritual, como técnica religiosa para alguns e tratamento de beleza para outros.

Algo mais cosmético.
Acabou meio restrito a spas. Depois, pouco a pouco, foi se estabelecendo como um sistema completo de saúde. A maior dificuldade talvez esteja na linguagem e no reconhecimento dos mecanismos de ação. Porque a visão filosófica e científica que o ayurveda tem sobre a saúde, sobre a vida, é bioenergética, não somente bioquímica. Para o ayurveda, a vida não é só um conjunto de reações químicas; todos os seres vivos têm uma inteligência vital, que mantém toda a perfeição e organização da vida. Eu, por exemplo, tenho o título de Especialista em Terapia Intensiva. Quer dizer, trabalhei com alta tecnologia durante muitos anos dentro de uma UTI – que é um atendimento fantástico. E o que eu vejo é que o ayurveda tem um papel a desempenhar no tratamento de todos os problemas de saúde, de modo geral: para prevenção de doenças, promoção da saúde e tratamento de doenças crônicas.

Essa migração da medicina ocidental para o ayurveda, como se deu?
Lidei muito com infartados – porque, na UTI, a gente recebia os pacientes coronarianos também –, e as estatísticas me deixavam muito frustrado em relação à prevenção. Digo isso porque, quando comecei a clinicar em 1981, a gente não tinha praticamente nada para fazer nesses casos, a não ser sedação. Cerca de 30% das pessoas morriam antes mesmo de chegar ao hospital e 30% morriam no hospital. Uma década depois, a medicina desenvolveu a estreptoquinase, substância injetada quando a pessoa chega infartada ao hospital, e a mortalidade caiu para 15%. Mas a pré-hospitalar continuava sendo 30%. Mais uma década se passou e desenvolveram a angioplastia primária, que derrubou o índice de mortalidade para 7,5%. Mas o que aconteceu com a mortalidade pré-hospitalar? Continuou em 30%. Só que, agora, temos muito mais casos de infarto. Atualmente, morrem em torno de 8 pessoas por minuto de infarto no mundo, e a previsão da OMS é que, em uma década, serão 60 por minuto. É um número alarmante, principalmente se levarmos em consideração a tecnologia desenvolvida. Foi isso que me chamou a atenção, essa frustração prévia, que se transformou na maior epidemia que nós já tivemos.

Maior que a covid-19?
Maior. No caso da covid-19, os especialistas indianos também perceberam que a prevenção pode ser muito importante para evitar o contágio e os sintomas mais graves. Porque a imunidade é o principal fator para determinar o processo infeccioso pelo vírus.

O que a pessoa pode fazer para aumentar essa imunidade?
Gargarejo com água morna e sal todos os dias, de manhã e à noite; uma gota de óleo de gergelim morno em cada narina, pela manhã e à noite; e chá de alfavaca com gengibre, alho, pimenta-do-reino e alcaçuz. Também é essencial tomar sol, fazer exercícios e se alimentar de forma saudável, com alimentos nutritivos e de fácil digestão. O estilo de vida é fundamental para enfrentar qualquer vírus.

E os cuidados com o aspecto psicológico, na quarentena?
Precisa dar uma atenção especial a isso, porque este momento de quarentena leva a um isolamento da mente, à depressão e à ansiedade. O ideal é fazer meditação todos os dias, praticar o pranayama do yoga e técnicas de relaxamento. Para que se possa ter mais equilíbrio. Isso tudo também faz com que a pessoa passe a buscar valores mais permanentes, mais espirituais. Não tem a ver com religião, mas com procurar algo que está dentro de nós e vai além do viver por viver, da fama, da riqueza ou coisas desse tipo.

A saída é para dentro?
Silenciar a mente, acalmar. A incidência de uma série de doenças tem aumentado, e é óbvio que existem fatores genéticos muito poderosos para isso, mas também por causa da toxicidade do mundo em que vivemos. Há uma toxicidade mental causada pelo excesso de informações, muitas delas simplesmente inúteis, sem valor. Mas estamos condicionados a ficar vendo, ouvindo e participando de tudo o tempo todo. Sem falar na toxicidade do ar, da poluição, metais pesados na água, nos alimentos, agrotóxicos, radiações.

Vivemos num universo tóxico, então…
Sim. E, obviamente, o número de células que entram em processo de mutação, podendo gerar um câncer, é muito maior do que no passado. Se a pessoa mantém uma boa imunidade geral, uma boa resistência, consegue superar a tendência genética que a levaria a ter câncer ou a um problema cardíaco. Hoje, temos um grande grupo de doenças que advêm do nosso estilo de vida. O ayurveda acredita que esses agentes habitam, há séculos, o nosso organismo. E não provocam doenças desde que tenhamos uma resistência apropriada. O problema não é o fator agressor, mas a capacidade de o organismo resistir ao fator agressor. Isso serve para qualquer aspecto da vida.

Por isso algumas pessoas adoecem e outras não?
Assim como temos imunidade física, que nos impede de pegar infecção por vírus, bactérias e fungos, por exemplo, também temos uma imunidade psicológica, hoje chamada de resiliência. Uma força mental capaz de resistir aos fatores estressantes sem adoecer. Trata-se de um fator interno que o ayurveda estudou ao longo dos séculos e que, em sânscrito, se chama “ojas”, que é a resistência a qualquer fator agressor, seja ele psicológico, físico, espiritual, ambiental ou o que for.

Independentemente de qualquer tratamento ayurvédico, as pessoas devem continuar tomando seus remédios, não?
Sem dúvida. O ayurveda convive muito bem com os tratamentos modernos, é bastante eficiente e pode ser um auxiliar importante para os médicos.

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