Alceu Valença se inspira em isolamento da pandemia para compor novo álbum, ‘Saudade’

Sonia Racy

15 de agosto de 2021 | 00h50

Alceu Valença. Foto: Leo Aversa

Alceu Valença se viu parado durante esses tempos de pandemia, preso no seu apartamento do Rio. Para driblar a solidão, pegou o violão, compôs e ainda fez releituras de canções antigas para montar um novo álbum, o Saudade, com 11 faixas. “Ele sintetiza esse ambiente que a gente está vivendo”, disse o artista, em conversa com a coluna, por videoconferência, entoando frase da faixa-título o álbum: “Saudade da estrada, saudade da rua”.

A ansiedade bateu forte em Valença durante a pandemia. “Fiquei numa angústia imensa de estar confinado”. Nos últimos anos, conta que optou por viver a maior parte do tempo em Portugal. Lá, justifica, circula mais livremente, com menos pedidos de selfies como em São Paulo ou no Recife – onde também costuma passar temporadas.

Entretanto, o cantor se prepara para voltar a se apresentar ao vivo. Fará show no Espaço das Américas, em São Paulo, no dia 25 de setembro. Quem se dispuser a assistir ao vivo, deve ouvir outra música inédita, o samba Era Verão. Nesse, versa sobre a mudança do jovem Alceu nascido no Recife para o Rio, no começo da década de 1970. Onde tentou e conseguiu uma carreira solo. A ideia de participar de grupo musical nunca lhe atraiu, nem na época, nem hoje. “Sou livre para fazer o que quero, e faço o que está dentro da minha alma. Não adianta querer me prender”.

Filho de um político que desistiu da carreira e se tornou procurador do Estado de Pernambuco, Valença recebeu múltiplas influências musicais do Nordeste. O músico fez Direito, trabalhou como jornalista e cursou Harvard, depois de ser aceito na universidade por ter respondido a uma pergunta classificatória de um concurso em forma de poesia.

Durante a entrevista, ele ainda rimou versos incentivando a população a se vacinar contra a covid-19: “Sempre disse assim; qualquer vacina que vier eu tomo, pode ser de Oxford, dos Estados Unidos, pode ser da China ou da Cochinchina. Passou na Anvisa, eu tomo”.

E a tristeza nessa pandemia? Como ficou sua saúde mental?
Às vezes eu fico numa ansiedade, numa angústia imensa de estar em casa confinado. Mas também agradeço ao universo. Fiz aquela música da Saudade, mas estou bem. E os mendigos na rua? Você já pensou nas pessoas que estão numa favela? Aí nesse momento saio daquela tristeza pra dizer, ‘Alceu, tu tem que respirar. Você tá muito bem e tudo vai passar’.

Já teve depressão?
Eu já tive uma pequena depressão na época que minha mãe morreu com 104 anos. Foi um luto, grande… Mas não posso tomar medicamento porque é um problema incrível, fico ouvindo apitos. Sofro às vezes de insônia e quando tomo remédio pra poder dormir aí fico louco, dá efeitos colaterais. Então, seguro a deprê, fico batendo nela, e parece que eu sinto mais angústia, ansiedade, vontade de sair, de caminhar, de fazer show, de encontrar pessoas, é essa a minha onda.

Como diz sua música, a solidão é fera? A solidão devora?
Devora. É amiga das horas, prima-irmã do tempo. E a mamãe era filósofa também, quando essa música começou a tocar no rádio, um amigo meu disse que foi torturado na época da ditadura e que quando ouvia a Solidão ele lembrava da tortura dele. Aí eu pedi à gravadora pra tirar a música do ar. Depois, cheguei perto de mamãe e perguntei ‘mamãe, o que a senhora sente quando digo Solidão?’ E ela respondeu: ‘Ai meu filho, eu vivi aqui nessa janela desse apartamento – na beira do mar – fico olhando para o mar, fico olhando para os planetas e vejo que a solidão é nossa e até dos planetas’. Cada qual na sua.

Você é a favor do uso de máscara para enfrentar a pandemia?
Lógico. Máscara o tempo todo. E todo mundo deve tomar a vacina. Sempre disse assim, qualquer vacina que vier eu tomo, pode ser de Oxford, dos Estados Unidos, pode ser da China ou da Cochinchina. Passou na Anvisa eu tomaria. E tomei já minhas duas doses inclusive e já tive o coronavírus.

E foi na crise sanitária que surgiu o novo álbum, Saudade.
Sim, ele reflete muito a pandemia e surgiu aqui dentro da minha casa. Aí, quando chegou a pandemia, comecei a tocar, porque não tem o que fazer dentro de casa. Ele sintetiza todo esse ambiente que a gente está vivendo, a minha tristeza de estar dentro de um apartamento confinado quase sempre, só saio pra andar.

Aos 75 anos, o seu processo de criação de música é sofrido?
Não existe processo sofrido, se fosse eu não faria. Música pra mim é um prazer. E, rapidamente, ela vem na minha cabeça. Quando eu componho é como, minha mulher diz , um surto criativo.

Já dirigiu um filme a Luneta do Tempo, já escreveu livro…
Faço poesia desde menino. Com 17 anos, minhas poesias eram publicadas nos jornais de Pernambuco. Com 21, fui para Harvard. Passei num concurso para universitários da América Latina. Só respondi uma pergunta sobre a relação entre o cristianismo e o marxismo, mas em forma de poesia.

Como foi essa experiência?
E foi lá que decidi ser cantor. Entre as aulas de sociologia e economia, eu cantava nos jardins na universidade e aí os hippies, era na época da guerra do Vietnã, adoravam aquelas coisas que eu estava cantando. Então eles enlouqueceram. Aí um jornalista passou lá, perguntou quem eu era. E falei que a minha música fala contra a ditadura no Brasil. Aí ele botou assim num jornal chamado Fall River, que era de uma cidade junto a Boston: Alceu Valença é o Bob Dylan brasileiro.
/ PAULA BONELLI

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