‘Sempre me inspirei no Brasil: a bossa nova foi uma descoberta’

‘Sempre me inspirei no Brasil: a bossa nova foi uma descoberta’

Sonia Racy

10 Agosto 2015 | 01h00

Foto: Reuters

Fã de Elis e Tom Jobim, e às vésperas de uma turnê pelo País, a cantora e ex-primeira-dama francesa Carla Bruni exalta a música brasileira e admite: subir ao palco lhe dá muito medo

Ícone de beleza e estilo, compositora, mulher de Nicolas Sarkozy e ex-primeira dama da França, Carla Bruni desembarca no Brasil, no fim do mês, para uma série de shows de seu disco Little French Songs. Em São Paulo, a apresentação acontece dia 26, no Teatro Bradesco.

A relação de Bruni com o Brasil não é exatamente distante. Nascida na Itália, criada na França e na Suíça, filha de uma concertista de piano, ela tem como pai biológico o empresário italiano Maurizio Remmert, que vive no Brasil há algum tempo. Vale lembrar que foi em uma entrevista exclusiva ao Estado, em janeiro de 2008, que Remmert revelou ser o pai da cantora – fruto de uma ligação de seis anos com sua mãe.

Modelo por dez anos, em 1998 ela trocou as passarelas pela música – Little French Songs é seu quarto CD. Artisticamente, ela admite sentir-se muito próxima da música brasileira. E cita, a propósito, duas fortes influências: Elis Regina, de quem afirma nunca esquecer o tom de voz, e Tom Jobim. Sobre seus anos de primeira-dama – posto a que pode retornar caso Sarkozy volte ao poder em 2017 – Bruni afirma que a sensação mais forte foi a de ter-se sentido útil. “Foi um período interessante da minha vida”, afirma. Para conversar com a coluna, porém, sua assessoria foi clara: a cantora não responderia sobre assuntos relacionados à política ou ao marido. A seguir, os principais trechos da entrevista, que ela deu por telefone diretamente de Paris.

A senhora afirmou que nunca parou de cantar, apenas deixou de fazer turnês. Como foi a experiência de continuar compondo quando era primeira-dama?

Era mais difícil de fazer uma turnê ou shows públicos naquela época. Mas eu continuei escrevendo e tocando. Nunca parei. Esse é o meu trabalho. O que aconteceu foi que, quando meu marido se tornou presidente, tive a oportunidade de ajudar meu país. Especialmente porque as pessoas me procuravam. Mulheres me pediam ajuda para suas crianças, outros para quando fossem idosos, ou ainda para visitá-los e eu gostei de fazer tudo aquilo. Eu tenho uma vida de muita sorte e muito feliz. Então para mim, ajudar os outros foi bom. Não é como um trabalho, como a música, mas foi uma parte muito interessante da minha vida. Porque me senti útil. Quando estou tocando e cantando, só sou útil para a pessoa que me escuta e gosta. Mas quando meu marido foi presidente pude ser útil de forma mais direta. Foi aí que eu percebi como eu tinha sorte. Então, decidi que mesmo que eu não pudesse fazer turnês, eu poderia ajudar pessoas que pediam pela minha ajuda. Isso me deu… não prazer – porque prazer eu sinto quando estou no palco – mas… alguma coisa. Me fez mais rica por dentro.

Há algo do trabalho de primeira-dama que a senhora continuou a realizar na sua vida, mesmo após sair do Eliseu?

Eu comecei uma fundação quando fui primeira-dama. Fazemos um trabalho com educação e cultura para pessoas em situação de vulnerabilidade. E, por meio desse trabalho, pude realizar diferentes coisas como, por exemplo, um projeto no qual levamos música aos asilos, hospitais e até presídios. E eu amo organizar isso. Lidamos com grandes artistas e olhar o rosto daquelas pessoas ouvindo, por exemplo, um bom concerto de piano… é maravilhoso.

O que o público pode esperar de seu show?

Eu tentarei colocar algumas coisas especiais nesse show porque o Brasil é um país especial para mim. Então, vou cantar minhas músicas de Little French Songs, mas também quero ver se consigo incluir alguma música brasileira e se acho algo mais para oferecer, além do que fiz quando estava em turnê pela França.

Tem familiaridade ou referências sobre música brasileira?

Sempre me inspirei muito na música brasileira porque o começo da bossa nova, para mim, foi uma descoberta. Eu a escutei muito durante minha adolescência. Principalmente Elis Regina e Tom Jobim… O disco deles juntos cheguei a ouvir algo como 20 milhões de vezes. Para mim foi como um choque, como os Beatles, como a (cantora francesa) Barbara. Porque é um disco muito melódico. Então já me sentia muito próxima da música brasileira antes mesmo de ser cantora e compositora. E eu nunca esqueço a impressão da voz dela, as letras muito sofisticadas, a música tão perfeita. Além deles, gosto muito de João Gilberto e de outros trabalhos mais recentes. Considero o Brasil o país da música, como a Índia, como a Inglaterra e até a Itália. Com um adendo: o Brasil levou a música para o mundo inteiro.

Seu pai vive aqui. A senhora tem um contato mais próximo com a cultura brasileira?

Sim, muito contato com meu pai. Ele é italiano, mas muito próximo do Brasil, por isso eu diria que não tenho uma aproximação social, mas um grande contato afetivo com o país.

Está a par dos problemas sociais do Brasil? Tem algum interesse por esse tema?

Sim, sei da situação do Brasil. Mas esses assuntos são mais relacionados à vida do meu marido, provavelmente. Mais relacionados à política. Sabe o eu percebo quando vou ao Brasil? A gentileza do povo, o carinho. Quando você é um estrangeiro e chega ao Brasil, é bem-vindo. Sei, claro, das muitas dificuldades do país, mas ao mesmo tempo as pessoas são tão gentis e acolhedoras…. Me lembra um pouco a Itália.

A senhora afirmou em uma entrevista que conhece algumas praias brasileiras. Pretende visitar algum lugar?

Não vou ter tempo dessa vez. Mas já fui ao Brasil diversas vezes, e espero poder tomar uma caipirinha na praia (risos). Ah, eu vou tomar sim, depois do show.

Sendo um modelo de estilo, que mensagem gostaria de passar às meninas que se inspiram em você?

Eu nunca penso sobre isso. E nunca acreditei de verdade que alguém pudesse ser inspirador. Ser uma pessoa pública, para algumas pessoas, acredito. Para os jovens, acho que trabalhar duro é a coisa mais importante a se fazer. Mais importante do que talento e sorte. Seria o único conselho que eu daria, mas é um conselho comum, nada original (risos).

Gosta de estar no palco?

Sempre acho que vou morrer! Na verdade, nunca acredito que eu não morri (risos). Fico nervosa e feliz ao mesmo tempo. É um sentimento confuso.

Sente falta da sua vida de modelo?

Não sinto falta e, na verdade, não sou mais jovem para desfilar. É claro que tenho ainda algumas oportunidades muito prazerosas, como, por exemplo, minha parceria com as jóias da Bulgari. Então, ainda faço algumas fotos duas ou três vezes por ano. Faço algumas colaborações e me sinto muito próxima do mundo da moda.

Tem planos de disco novo?

Estou gravando para um álbum americano que devo lançar em breve e escrevendo músicas francesas para um disco novo. Adoraria colocar uma brasileira no meio (risos)./MARILIA NEUSTEIN