‘Agenda liberal precisa furar as bolhas e avançar’, diz diretora do Instituto Millenium

‘Agenda liberal precisa furar as bolhas e avançar’, diz diretora do Instituto Millenium

Gabriel Manzano

28 de fevereiro de 2022 | 00h30

Marina Helena. Foto: Josi Girardelo

Pregar para convertidos é fácil, mas não é esse o objetivo da economista Marina Helena Santos, diretora do Instituto Millenium – um think tank que se dedica a defender e divulgar, no País, as ideias liberais “e a dizer quanto custa ter um dos piores índices de liberdade econômica do mundo”. Economista pela UnB, com 15 anos de experiência no mercado financeiro, e tendo comandado a área de Desestatização no Ministério da Economia em 2019, sua palavra de ordem é outra: tornar as ideias simples e compreensíveis, “furar bolhas” para conquistar novas plateias.

Nas palestras e publicações como os Millenium Papers e as Millenium Talks, e economista bate o pé na defesa do teto de gastos (“Se for desrespeitado, a dívida do País entra numa trajetória insustentável”). Avisa que “não há nenhuma contradição entre equilíbrio fiscal e gastos sociais”. E aponta um quadro desolador: “O Brasil é o país que cobra mais imposto e que tem a maior dívida. Entre 177 países, estamos no 133.º lugar – um dos últimos – no Ranking de Liberdade Econômica do planeta”.

Nesta conversa com Gabriel Manzano, a diretora conta os desafios de passar esses princípios a um ambiente invadido por populismos à esquerda e à direita, influencers, redes e fake news de todo tipo. “O que queremos é levar a mensagem a outros públicos e dizer: ‘A gente tem uma solução melhor do que a que aí está. Vamos discutí-la?’” A seguir, trechos da entrevista.

Como é o trabalho de levar princípios e valores liberais à opinião pública num mundo hoje povoado de redes, youtubers, fake news?
É cada vez mais difícil, nosso maior desafio é trazer as pessoas para os temas de fato capazes de mudar o Brasil, verdades que acrescentem algo à vida delas. A linguagem precisa ser acessível. Sabemos que a maioria dos problemas é complexa e que as respostas, quando simples e fáceis, são populistas e nada resolvem. Nosso objetivo é furar essas bolhas.

Como se organizam para pregar a agenda liberal?
A gente faz debates, vídeos, podcasts. Faz com convidados, gente de fora falando de outras maneiras. Prepara os artigos de políticas públicas com os especialistas e depois vai falando com eles, buscando as maneiras de dar o recado de modo mais claro. A gente tem site, YouTube, Instagram, Facebook, está no Spotify, no Soundcloud e acabou de entrar no Tik-Tok. São cerca de 200 pessoas nessa operação toda.

Vocês têm métricas para avaliar o retorno disso?
Há um projeto novo sendo implantado e as métricas apontam que o resultado tem sido melhor – mas longe ainda do que a gente quer. Educar pessoas é um objetivo ambicioso. Ainda há muito a avançar.

Em entrevista recente ao Estadão, o ministro Paulo Guedes, da Economia, disse que tem faltado apoio para a agenda liberal. Por que falta esse apoio?
Essa questão, a meu ver, vai muito além de um presidente ou um ministro ter apoio. O que temos é uma realidade concreta a enfrentar. Somos o país emergente com maiores tributos no planeta, o que cobra mais imposto, o que tem a maior dívida. E temos um dos piores índices de liberdade econômica do mundo. Estamos no 133.º lugar entre 177 países, no Ranking de Liberdade Econômica de 2022 da Heritage Foundation. Uma das últimas posições.

Por que, a seu ver, o Brasil está tão atrás de todos?
Porque o que temos aqui são populismos de direita e de esquerda, muito próximos do autoritarismo, que é o contrário do liberalismo, no qual a sociedade tem de se proteger, tem que ter propriedade privada, direito à vida. Temos um Estado completamente capturado por grupos de interesses, muito distantes da população. E que são azes em criar polêmicas, polarizações, deixando as pessoas perdidas, sem focar no que realmente importa. Isso é o contrário do liberalismo.

Os avanços da tecnologia ajudam o mercado a ver os cidadãos como meros consumidores. A tecnologia é uma inimiga a ser domada?
Discordo de que a tecnologia reduza as pessoas a consumidores. A tecnologia digital democratizou o conhecimento, a informação, a cultura e o entretenimento. Por exemplo, com o valor de um ingresso de cinema se tem acesso a um catálogo inteiro de filmes, séries e documentários, além de livros digitais, músicas. É verdade que há problemas, mas os efeitos positivos sobre as vidas das pessoas são inúmeros.

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