Affonso Celso Pastore: “A recessão no mundo é inevitável”

Affonso Celso Pastore: “A recessão no mundo é inevitável”

Sonia Racy

20 de março de 2020 | 00h40

Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central – Foto: Felipe Rau/Estadão

O pacote de medidas anunciadas essa semana começa a endereçar o problema econômico gerado pelo coronavírus. “O governo não precisa estourar teto de gastos, não é isso. É pegar o dinheiro que ele tiver para comprar o teste do vírus, abrir mais espaços nas UTIs e ajudar quem tiver morrendo de fome”. Segundo o respeitado economista Affonso Celso Pastore, também estão no caminho certo as ações que os bancos centrais no mundo estão tomando para evitar um ‘crunch’ de crédito.

“Quando empresas param de vender, param de funcionar, continuam a ter que pagar dívidas. Tem que se implementar um modo de rolar esse tipo de inadimplência”.

Crédito 2

Mesmo renegociando dívidas, facilitando crédito, a recessão virá forte no mundo inteiro, segundo o ex-presidente do BC. “Não há o que fazer contra isso: você só pode minimizar esse efeito, mas não tem como impedi-lo”.

“O gap de crédito não me parece tão grande, existe sim falta de capital de giro”. Mais para frente, vê uma crise de oferta? “A oferta já parou. Isso começou com um choque de oferta, porque você tinha o mundo integrado em cadeias de suprimento e cadeia é como uma corrente, quando você quebra um elo, ela para de funcionar”, explica Pastore.

Oferta

A indústria no mundo estava integrada em cadeias globais de suprimento e quando a China parou, ela parou toda a indústria. “Esse foi o choque inicial de oferta. O fato, somado às reações das pessoas de quarentena, gera propagação do choque de oferta. A consequência é a queda de demanda”.

Oferta 2

Por outro lado, “não adianta hoje baixar os juros para aquecer a demanda. As pessoas não vão sair consumindo mais por causa disso” Para o economista, o somatório de fatos acaba paralisando oferta e demanda. “Em situações assim, ações típicas de banco central como a de reduzir juros, etc… têm eficácia muito limitada.

“A melhor forma de fazer com que as pessoas se defendam de uma crise inédita é passar toda informação possível sobre a gravidade do problema”.

Aula no sofá

O telefone de Francisco Campera, diretor da Fundação Roquette Pinto, não para. Motivo? A TV Escola está abrindo toda sua estrutura para tentar atender estados e municípios cujas escolas estão fechadas. Ontem, ele enviou ofício ao ministro Abraham Weintraub, com quem pode ter uma conversa nos próximos dias.

O carro chefe é o programa Hora do Enem, com videoaulas de todas as matérias. A TV tem mais de 200 horas de conteúdo inédito e a equipe já começou a pedir que prefeituras enviem vídeos para a triagem e posterior reprodução. Um facilitador é que a TV Escola, além do canal aberto, pode ser acessada também pelo Facebook e Youtube. Dois dos maiores entusiastas do canal público são Regina Duarte e Carlos Vereza.

Haja paciência

Novo golpe de WhatsApp circula em SP e no Rio, usando o coronavírus como mote. Bandidos enviam mensagem aos usuários do app e oferecem atendimento em domicílio de alguns hospitais para fazer teste da doença. Depois, marcam hora para assaltar a casa dos “pacientes”.

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