“ADORO QUANDO DIZEM QUE EU NÃO SOU CAPAZ”

“ADORO QUANDO DIZEM QUE EU NÃO SOU CAPAZ”

Sonia Racy

23 de julho de 2012 | 10h43

TASSO MARCELO/AGENCIA ESTADO/AE

Cauã Reymond fala sobre carreira, paternidade, preconceito, análise e o Jorginho de Avenida Brasil.

Não há dúvida de que a primeira coisa que chama atenção em Cauã Reymond é sua aparência física. A segunda? É que, tendo consciência deste impacto, o ator se coloca na defesa. Como acontece com boa parte das mulheres de beleza chamativa, ele se recusa a ser mais um rosto bonito na televisão. E não é. Determinado, disciplinado, Cauã tem noção de onde está, em termos de carreira, e de onde pretende chegar. Dono de forte autocrítica, não se inibe em dizer que foi, sim, o preconceito contra o modelo que busca se transformar em ator um dos motores que o levou a estudar e desenvolver sua atuação. “Adoro que alguém me diga que não sou capaz”, avisa.

Em conversa na livraria Argumento, no bairro do Leblon (Rio de Janeiro), o ator contou um pouco de sua história. Filho de jovens pais separados, classe média baixa (“na verdade, a família do meu pai vem da classe média e a família da minha mãe, de uma classe bem baixa, escorrendo para baixo”), Cauã soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe deu desde o início. “Eu estudava em colégios mais caros, colégios particulares, mas, quando voltava para a casa da minha mãe, não tinha a estrutura da maioria das crianças que estudavam naquela escola. Eu frequentava um ambiente do qual não fazia parte. Isso me deu vontade de conquistar coisas”.

Sobre política, fala pouco. “Num momento mais naïf, mais ingênuo, fui petista. Agora não tenho partido.” Ele perdeu o interesse em participar. “O ator é o personagem que está fazendo naquele momento. O público não tem de associá-lo a partido político ou outros ideais”.

A seguir, os principais trechos da conversa.

Como define o atual estágio de sua carreira?

Prestes a mudar. Não sei necessariamente o quê, mas prestes a mudar. Acho que cheguei num lugar interessante, mas tenho de mudar, não consigo me identificar com a mesmice. Estou querendo produzir meus projetos. Compramos os direitos do Rodrigo de Souza Leão.

“Compramos”?

Eu e o Mario Canivello, meu sócio. Estamos abrindo uma produtora e também já estamos com outro projeto de coprodução de filmes do qual eu vou participar.

Está com vontade de contar histórias agora?

De certa forma. E me vejo também, daqui a pouco, produzindo projetos em que não necessariamente estarei envolvido como ator. Eu me vejo tendo a percepção de que um colega fará melhor um personagem. Acho que tenho essa percepção.

Você escreve?

Poemas, desde novo.

E pretende publicar?

Já pensei nisso, mas acho que publicaria com outro nome, porque as pessoas iam ler com muito preconceito e não necessariamente encontrariam o personagem Cauã nos meus poemas – o que quer que elas achem que eu sou.

Sofreu preconceito na carreira por ser bonito e ter sido modelo?

Sofri, sim. Mas acho que o preconceito me deu uma gana, me dá uma gana. Às vezes, uso isso como um combustível. Adoro que alguém me diga que não sou capaz. É aí que vou atrás.

Sempre foi assim com você?

Desde a adolescência, quando me envolvi com esporte. Na infância, não acreditava que pudesse fazer certas coisas; mas, quando comecei a lutar, o esporte me trouxe muita autoestima, comecei a me achar capaz.

Como está sendo fazer o Jorginho, sucesso da novela?

Muito bom. Acho que é o personagem de maior destaque que fiz na TV até hoje. Dei muita sorte, nos últimos anos, com os meus personagens. Tive uma virada na carreira que foi superimportante em 2007 e 2008, com A Favorita, do João (Emanuel Carneiro), a primeira novela das oito dele. Depois, em Passione, do Silvio (de Abreu), fiz um dependente químico, um personagem que foi bem interessante para mim, que me trouxe coisas positivas. Aí, fiz Cordel Encantado, da Thelma Guedes e da Duca Rachid, que, a princípio, reinaugurou uma forma de se fazer novela, trazendo o lúdico, uma coisa de príncipe e princesa. Foi um risco e deu muito certo.

Se você fosse o João Emanuel, como terminaria Avenida Brasil? Que destino daria a Carminha?

Não torço pela Carminha, acho que me confundo um pouco na raiva do Jorginho. Ela é muito má, mas consigo compreender seu carisma. Eu não sou o João Emanuel.

Não consegue fazer esse exercício com os personagens? O que faria com o Cadinho?

Ele poderia ficar com as três – todas aceitando. Bateria cartão na segunda e na terça para uma, quarta e quinta para outra, sexta e sábado para a terceira. E teria o domingo para descansar.

E para o Tufão?

Ah, ele tem de descobrir quem é a Carminha, tem de descobrir as falcatruas dela.

Quem fica com a Nina?

Aí eu vou entrar numa questão que… não sei.

Você não pode se colocar no papel do autor?

Tenho dificuldade, chego num lugar sempre em aberto. Não gosto de me apaixonar muito pelo que está acontecendo, porque, na semana seguinte, muda. Eu já passei por isso, é muito ruim quando você se apaixona por uma ideia, começa a construí-la na cabeça e, de repente, o autor dá uma guinada e você fica no meio do caminho. O que você faz? Tem uns dias para se desfazer disso. Então, parei de me apegar. A história é do João, eu estou ali para me conduzir aonde ele me coloca.

Para encarnar o personagem Jorginho, você foi para campo de futebol. O que fez?

Acho que foi o personagem para o qual eu mais me preparei. Primeiro, fisicamente, para poder jogar bola. Depois da minha operação (no quadril) – eu estou superbem hoje em dia, graças a Deus, tudo certinho com fisioterapia e exercício –, precisei de preparação física especial para poder começar a jogar bola, já que nunca fui jogador, sempre fui um prego, jogava mal no colégio. Aí, comecei a escutar muito a rádio dos jogadores, a rádio O Dia, aqui do Rio.

O que você descobriu? Notou alguma característica em comum entre os jogadores?

Meu personagem não é um jogador certinho. É filho de craque, mas não é craque, joga num time de segunda divisão. Então, de certa forma, não pesquisei o jogador que a gente está acostumado a ver, o craque ou o cara que joga com o craque.

Você foi procurar alguém que não deu certo?

Fui, conversei com alguns jogadores. Mas também conversei com uma pessoa que deu muito certo e foi essencial. Depois que a Rosinha e o Garotinho processaram dois atores da Globo porque eles disseram que tinham se espelhado neles para criar um personagem, hoje não se pode falar mais nada. É muito chato isso. Mas esse jogador me ajudou muito. O que acho interessante no ator é a calma. Quando você tem uma cena muito difícil, com viradas sutis ao longo da cena e, em algum momento, uma virada grande, eu admiro quem faz isso com calma, quem vai conduzindo com calma, sem ir ameaçando onde vai chegar.

Tem de fazer isso?

É claro que sofro com as críticas e também não tenho grande facilidade em receber elogios – sou muito desconfiado dos elogios, acho que, às vezes, é até uma forma de não ficar parado no mesmo lugar.

Você faz análise?

Fiz terapia durante muito tempo. Análise eu faço há dois anos.

Qual a diferença?

Terapia reichiana tem uma coisa com o corpo e tal, em certos momentos o terapeuta pode tocar você, num lugar onde seus sentimentos estão mais reprimidos e seu corpo está mais tenso. Já análise é palavra, divã.

Está fazendo freudiana?

Não, lacaniana.

Por que escolheu lacaniana? Não é a mais acolhedora.

Porque não queria ser acolhido. Fui muito sedutor e acho que, em muitos momentos, inconscientemente, acabo manipulado. Então, precisava de alguém que fosse frio comigo. Minha analista é fria comigo.

Você se pôs de castigo?

Mas o objetivo era esse mesmo, me colocar de castigo. Porque acho que a gente cresce na adversidade, nos momentos de dificuldade.

Por que não no abraço? Não dá para crescer no abraço?

Dá, acho que se cresce muito também no amor. Minha terapeuta não é má comigo, não é malvada… Mas não deixa que eu me iluda, ela aponta e me faz enxergar.

Você acabou de ser pai. Isso mudou alguma coisa na sua atuação e dentro de você?

Não. Sempre fui responsável, e a paternidade já se encaixava na minha responsabilidade.

Em que você acredita? É uma pessoa religiosa?

Sou, mas acredito em tudo. Acredito em espiritismo. Quando rezo, costumo rezar o Pai Nosso, rezar para o anjo da guarda. Acredito em Deus. Acredito na energia, acredito na força do pensamento, acredito que tudo é um conjunto. Acho que as ações podem gerar energia positiva ou negativa e você é responsável por isso. Acredito também que algumas pessoas têm certa proteção espiritual diferenciada, devido, sei lá, talvez a…

Evolução?

Não sei se a palavra é evolução. Acho que se deve às condições em que elas nasceram. De certa forma, é curioso, acho que pessoas que nasceram numa situação mais difícil ou mais delicada têm tendência, em muitos momentos, a ter um anjo da guarda mais forte. Posso estar viajando, mas, às vezes, acho isso. Também adoro rezar, vou à igreja para rezar. Não vou à missa, vou à igreja quando está vazia, porque gosto daquela sensação de silêncio e saber que tem um monte de gente ali pelo mesmo motivo, de certa forma agradecendo ou pedindo ajuda. Mas não gosto da culpa cristã, isso me incomoda muito, venho de uma família muito cristã e isso me incomodou muito. Acho a culpa ruim, inclusive para a evolução do ser humano. A pessoa precisa ter discernimento do que fez, se é bom ou ruim, pensando em como aquilo vai atingir o outro e ela mesma – não porque Deus disse que não pode.

Gosta de política? Emprestaria seu nome para alguma campanha?

Para campanha política nunca emprestei. E parei de emprestar para qualquer tipo de campanha da qual eu não tenha conhecimento, não tenha desejo de estudar e tempo para participar – mesmo que seja uma questão ambiental. Na do câncer de mama, decidi dar uma parada, porque estava com muitas coisas para fazer e não tinha tempo para me dedicar – acho que tem de ser de coração. No começo da carreira, os atores precisam aparecer para o mundo, precisam que as pessoas os descubram, então acabam fazendo muitas coisas, defendendo muitos pontos de vista.

Mas acompanha política?

Gosto de ler, gosto de saber. Por exemplo, fiquei frustrado com a Rio+20, não saiu nenhum grande acordo. Uma das coisas que achei engraçadas é que a Rio+20 foi no Riocentro, que fica do lado do Projac. Eu já tive muita dificuldade e não consegui levar a coleta seletiva para meu condomínio. Falam que é fácil, que é só ligar para a Comlurb (empresa de limpeza urbana do Rio), mas é dificílimo. Aí, encontrei perto da Rio+20 várias latas de papel, alumínio etc. Só ali, né? A sensação que eu tive foi de que era maquiagem: quem passava por lá via as latas, mas, no resto da cidade, você não encontra isso.

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