“Admiro as mulheres livres”

“Admiro as mulheres livres”

Sonia Racy

08 de março de 2010 | 08h19

No Dia Internacional da Mulher, Maria Fernanda Cândido fala sobre projeto de interpretar a filósofa Hannah Arendt no teatro

 6036762Encontros

Maria Fernanda Cândido gosta de liberdade. Atriz, sócia da Casa do Saber, avessa a rótulos, defende sem rodeios: “Acho que mulheres e homens têm que ter o mesmo reconhecimento profissional”. Mãe de dois filhos, casada há cinco anos, ela padece do mesmo conflito de qualquer mulher, a conciliação da vida profissional com a família. E, embora sua carreira seja marcada por papéis femininos fortes, – entre eles o da clássica heroína machadiana, Capitu – a atriz faz questão de frisar que é uma mulher comum, uma mãe como muitas, na batalha para educar seus filhos

Envolvida pela primeira vez no projeto de trabalhar também como produtora de uma peça de teatro, Maria Fernanda foi seduzida a encarnar Hannah Arendt, a mulher que revolucionou o pensamento sobre o totalitarismo no século 20. A peça, O Demônio de Hannah, encena o reencontro da filósofa alemã com seu professor e amante, o filósofo Martin Heidegger. A seguir, trechos da entrevista:

Você que é uma mulher bem sucedida na carreira acredita que ainda existe tratamento diferenciado entre mulheres e homens? Hoje as coisas estão certamente melhores do que há algum tempo. Essa evolução é nítida, embora ainda existam questões a se pensar. O que eu percebo é que os homens, entre si, são unidos e reconhecem os feitos um do outro, enquanto, no caso das mulheres esses elogios talvez sejam ainda muito tímidos. Acredito que, mesmo sendo diferentes, homens e mulheres deveriam ter reconhecimento profissional idêntico.

Você é simpática à licença maternidade de seis meses? É, sem dúvida, uma questão importante. Partilho da ideia que, nos seis primeiros meses de vida, o aleitamento materno é primordial pelos componentes específicos e por causa do vínculo da mãe com a criança.

Mas há especialistas que defendem que em seis meses de licença as mulheres podem ficar para trás na carreira. Acho complicado querer igualar homem e mulher porque são dois bichos diferentes. A concentração de uma mulher grávida, por exemplo, muda totalmente. Ela fica suscetível a mudanças hormonais muito radicais. Acho que a mulher tem que ocupar o lugar dela e exercer essa função feminina. E o homem a função masculina de uma forma respeitosa.

O que achou da decisão do Conar de proibir a veiculação da propaganda da cerveja Devassa, com a socialite Paris Hilton? Eu acho bizarro. Assisti ao comercial e não me chamou tanto a atenção. Já vi propaganda com muito mais pele, corpo. Quem sabe não existam razões de outra ordem para acontecer essa proibição…

Você acha que a mulher ganhou com o movimento feminista? Claro. Foi um movimento necessário para a mulher sair de situações estagnadas e posições fixas. Antes do feminismo, ninguém transitava ou saía do padrão. Entretanto, hoje, vivemos a retomada de alguns aspectos e funções que a mulher feminista abandonou.

Que retomada é essa? Acredito que mulher contemporânea quer retomar valores familiares, funções domésticas, junto com a conquista profissional. Ela deseja, além de uma carreira, ser uma super dona de casa, uma super mãe e uma super esposa.

Como você faz para equilibrar a carreira com a família? Procuro me organizar. Tenho duas crianças que dependem de mim e meu marido. Minha casa também é uma frente de trabalho. Afinal de contas, à noite todo mundo vai querer jantar e a comida que está na mesa não brota do nada. Eu tenho que orquestrar isso tudo. Essa é uma atribuição feminina que é pouco mencionada e valorizada.

Que tipo de mãe você é? Sou cuidadosa, protetora. Procuro me equilibrar para não cair em nenhum extremo. Mãe omissa e relaxada demais não é legal, mas super protetora também é horrível. Eu tento encontrar um meio-termo.

Sua formação é em terapia ocupacional. Como você virou atriz? No último semestre da faculdade resolvi estudar com a Fátima Toledo. Comecei a me dedicar tanto que tive que trancar a faculdade. De lá para cá as coisas aconteceram muito rápido. Nunca mais parei.

Por que você escolheu essa peça? Por ser uma história linda e complexa: ela era judia e ele foi considerado o filósofo do nazismo por ter aceitado ser reitor da Universidade de Freiburg durante o regime de Hitler. A peça é sobre o acerto de contas entre os dois, 20 anos depois desse romance que aconteceu quando Hannah era aluna de Heidegger. E também fala sobre a dificuldade de coerência entre o que se diz e o que se faz. Por isso, eu e meu sócio, o advogado Pierre Moreau, compramos os direitos desse texto francês de Antoine Rault, que conta a paixão fulminante entre os dois filósofos.

O que mais te atraiu na peça: o debate filosófico ou a paixão avassaladora? Sem dúvida, a paixão. Mas dando contorno ao sentimento o debate filosófico apresenta nuances interessantes.

E você vai interpretar Hannah Arendt? Vou. E serei dirigida por Marcio Aurelio, diretor da peça Agreste.

O que você admira na personagem? Muitas coisas. Admiro as mulheres livres. Ela escreveu sobre o que queria e falava abertamente o que pensava. Foi uma mulher com muito caráter, coerente. Isso é admirável.

Por que você resolveu produzir o espetáculo? Porque nesse processo você tem mais domínio sobre os rumos da peça. Tudo passa por mim desde a escolha do diretor ao cenógrafo. Quando você é contratada se limita a fazer o seu papel, o seu personagem.

Você é conhecida por gostar de São Paulo. Como é a sua relação com a cidade? Tenho loucura por São Paulo. Amo esse frisson que existe aqui. Eu não gosto nem de viajar no final de semana. É uma cidade cheia de segredos nem um pouco óbvia.

É ano de eleição, já tem um candidato? Vou votar no José Serra. Foram oito anos de PT e sinto a necessidade de mudança. Já votei no Lula e acho que ele fez coisas importantíssimas para o Brasil, principalmente na atuação contra a miséria nos sertões. O Serra me parece um governador metódico, firme. Defendeu sua posição frente à indústria farmacêutica, na questão dos genéricos e hoje todos se beneficiam disso.

Por Paula Bonelli

Tendências: