Acordo com Kim abre espaço para Trump ‘cuidar’ de China e Rússia, diz analista

Acordo com Kim abre espaço para Trump ‘cuidar’ de China e Rússia, diz analista

Sonia Racy

12 Junho 2018 | 14h23


PROFESSOR LUIZ FERNANDO VITAGLIANO. ARQUIVO PESSOAL

Um acerto com a Coreia do Norte distensiona um campo da política externa americana e abre espaço para Trump se dedicar a outro – o trio Rússia-Síria-Israel. E abre espaço, também, para uma política comercial mais ativa com a China – que vem se expandindo e tirando o emprego de muitos americanos que foram seus eleitores. Os dois pontos são destacados, numa análise a longo prazo, pelo professor e cientista político Luiz Fernando Vitagliano, da FMU. Estudioso do desenvolvimento econômico, Vitagliano argumenta que o crescimento do poder da Rússia, que hoje tem meios de atingir o território americano, e as promessas de ampliar os empregos em seu país são temas prioritários — e estão por trás de seus movimentos para desanuviar a situação com os norte-coreanos.

O que significam, na prática, o encontro e o tratado assinado por Trump com Kim Jong-Un?
Comecemos lembrando que o mundo tem hoje duas grandes zonas de tensão, a Coreia e o Oriente Médio. O que esse encontro e o tratado sinalizam é que os EUA estão saindo de um campo, EUA-Coreia-China, para ver com mais espaço e prioridade sua área comercial. Embora o tratado mencione troca de prisioneiros por alguma renúncia de Kim no terreno nuclear, e nada mencione de temas comerciais, na prática ele abre campo para esse novo cenário. Trump, ao que tudo indica, distensiona uma área para se aprofundar em outra.

Pode explicar melhor?
Feito o acerto com a Coreia do Norte,  os EUA podem se dedicar com maior ênfase ao outro foco, o Oriente Médio – leia-se, o trio Israel-Síria-Rússia. Isso é importante porque, desde que Putin reativou sua capacidade bélica, a Rússia assumiu um papel mais ativo em vários conflitos.  Hoje os EUA podem ser atingidos dentro de seu país. Washington precisa pensar no longo prazo o impacto disso.

E qual o impacto desse encontro para a Europa?
Ela será afetada, sem dúvida. A nova situação que se cria na Ásia reafirma e intensifica a mudança de rota do Atlântico para o Pacífico. Nessa linha, Trump já havia detonado o TTP, ao abandonar essa aliança no início de seu governo. Na prática, acende-se uma luz amarela na Europa. Ela claramente deixa de ser uma prioridade para os EUA.

E que peso ele pode ter na política interna americana?
Podemos dizer que, de 2008 até o início do governo Trump tivemos uma etapa de avanço da globalização financeira. Trump mexeu nesse cenário. Ele se elegeu, em grande parte, com uma política protecionista e com o voto dos desempregados vitimados pelo crescimento comercial da China. O que se desenha é, daqui para a frente, uma ação externa de Trump que vise recuperar esses empregos americanos. Isso passa por acertos com a China, inevitavelmente.