‘Acho que o artista tem de ser egocêntrico. Gosto de fazer tudo’

‘Acho que o artista tem de ser egocêntrico. Gosto de fazer tudo’

Sonia Racy

13 de abril de 2015 | 01h00

Cheio de planos, o músico-ator, que  estréia série na semana que vem, diz que há 30 anos ‘havia mais arte do que hoje’ e que as leis de incentivo ‘acabaram com a arte’

“Se você gosta do que faz, nunca vai trabalhar.” A frase do sábio chinês Confúcio é um mantra para André Abujamra. Outro? “A vida é sua, estrague-a como quiser” – este, da lavra do pai, Antonio Abujamra. Se é assim, fazer uma “terapia forte” para quê? Medo do cotidiano, defende-se. “Quero aprender a gostar das coisas do dia a dia, como lavar louça, cortar as unhas, pagar as contas…”
Próximo de completar 50 anos, o músico-cantor-ator estreia dia 17, no Canal Brasil, a série Sonhos de Abu ­ por ele definida como “versão 100% falsa de uma vida de verdade”. A dele.

André não para. Sua agenda inclui dois shows engatilhados para o ano e ele ainda acha tempo para apresentações com as bandas Gork, de estilo punk, a Fat Marley, alusão a um personagem do filme Durval Discos, dedicada à música eletrônica; e Desengonçalves, na qual reinterpreta sucessos de Nelson Gonçalves em ritmo de rock. E sem contar as já conhecidas Karnak e Mulheres Negras – com as quais se apresenta regularmente pelo mundo afora. Em setembro, o músico estará no Rock in Rio tocando… heavy metal.

Famoso pela música de Castelo Rá-Tim-Bum, ele criou também a trilha do desenho Show da Luna, sucesso do Discovery Kids. E já está amadurecendo novo projeto inusitado e absolutamente prafrentex: chama-se Ancestech, o show de música “mais moderno do mundo, mas sem uso de energia elétrica”, como ele próprio define. “Não consigo parar”, admite. “Ando com vontade de voltar a fazer salto ornamental e pular de paraquedas”.

No quinto casamento, com dois filhos “e miseravelmente desempregado” desde que a Band acabou com o Agora É Tarde, André recebeu a coluna na bagunça de seu apartamento-estúdio em SP. A seguir, os principais momentos da conversa.

Como surgiu a ideia de fazer Sonhos de Abu?
Começou quando eu estava passando por uma crise existencial, sabe? Porque, além de compor para TV e cinema, fazer show, produzir disco e criar para publicidade, também cozinho, lavo e passo. Tudo com arte! (risos) Aí, entrei em crise. “Afinal, continuar artista ou ganhar dinheiro?” Um dia, falando com o Rafa (Rafael Terpins, que dirige a série com ele) sobre essa fase, ele falou: “Pô, mas isso dá uma história ótima, Abu!”. Assim surgiu a ideia do Sonhos de Abu.

É uma versão 100% falsa da sua vida de verdade?
Isso mesmo. Ou vice-versa… A série é sobre a minha vida, meus sonhos, mas também não é. Quando escrevemos o roteiro, boa parte saiu das minhas experiências. Todas as mulheres da minha vida se concentraram numa só, meus dois filhos em um só. Mas meu pai… é meu pai mesmo.

É o Abuzão.
O próprio. O que é um privilégio imenso para mim. Ele faz um personagem cleptomaníaco cuja frase-símbolo é “esta é uma experiência que você nunca vai entender”. Mas essa é a parte falsa, ok? Ele não rouba nada de ninguém, não! Na vida real, gosta de apostar nos cavalos. Ou seja: quem me conhece vai reconhecer a maioria das histórias. Há uma frase do Groucho Marx que Rafael gosta de dizer e que define o nosso projeto: “Um amador acha que é engraçado você pegar um cara fantasiado de velhinha, botar numa cadeira de rodas e jogar de uma escadaria. Já o profissional sabe que isso tem de ser feito com uma velhinha de verdade”. (risos) Esse foi o princípio do Sonhos de Abu.

Quem mais participa da série?
Juntamos uma equipe incrível. O Maurício Pereira, da Mulheres Negras, vai fazer um feirante. O Clemente, dos Inocentes, faz um ex-punk que agora é cabeleireiro. Arrigo Barnabé trabalha em um estacionamento. Temos o Skowa e também o Edgard Scandurra, que interpreta um personal trainer. E esses caras todos vão tentar me convencer de que viver de arte não dá certo. Ah, o Fernando Meirelles, que já participou do nosso programa Abusando, faz um garçom. E o Theo Werneck aparece no papel dele mesmo, me ajudando a sair de algumas enrascadas. Por fim, uma participação bacana do Marcelo Mansfield.

O projeto inclui também alguma animação gráfica?
Sim. Na animação entram os meus sonhos. E alguns deles eu realmente tive, como uma “viagem” de ayahuasca que é bem verdadeira. (risos)

Como foi o patrocínio?
Na época, eu estava fazendo Saramandaia, na Globo. E o Paulinho Moska, que fazia uns especiais para o Canal Brasil e conhecia o projeto, me chamou para apresentá-lo à emissora. Eu disse para o Rafa: “Cara, não vai dar, essa série é muito cara. Vamos bolar um negócio mais barato…” Deu no programa Abusando.

Que é “falado” em russo?
E com legendas em português!

Não sabia que você sabia russo.
Pois é, não falo… É totalmente absurdo, tem um quê de Monty Python. Costumo dizer que é um “programa oxigênio”: está no ar, mas ninguém vê. É o nosso slogan. A partir do Sonhos de Abu.

Está mais fácil fazer arte hoje?
Acho que há 20, 30 anos, havia mais arte do que agora. Tem muita porcaria sendo produzida. Muita gente por aí faz projeto pensando no dinheiro que vai levantar via Lei Rouanet… e bota uma grana no bolso. Cadê a arte? Cadê o som? Não tem conteúdo. Talvez eu esteja errado, mas as leis de incentivo acabaram com a arte!
O que mais está saindo do seu baú em 2015?
Estou terminando o CD O Homem-Bruxa, que é uma homenagem ao meu pai (menção a Ravengar, personagem célebre de Antonio Abujamra na novela ‘Que Rei Sou Eu?’, da TV Globo) e ao Mulheres Negras.

Mas por que “bruxa”?
Ah, porque eu quero, o disco é meu! (risos) O legal é que eu toco tudo. É solo de verdade. Incluindo instrumentos que eu não sei tocar.
Não parece tão difícil para alguém que fala russo sem saber. Foi o que pensei. A sonoridade do disco está bonita. Vou lançar dia 17 de maio, no Auditório Ibirapuera. É meu quarto trabalho. E estou com o quinto CD todinho escrito e o show inteiro na cabeça…

Antes mesmo de lançar este?
Só tem um problema: é que eu preciso de um zilhão de dólares para produzir! Para se ter ideia, vai ser um show com orquestra de 30 músicos e 11 instrumentistas internacionais sincronizados com ela. . A gente vai gravar e filmar cada um deles em seu próprio país. É um dinheiro danado! Vai se chamar Omi. Eu sou do candomblé, e omi, em iorubá, quer dizer água. Uma homenagem à minha mãe.

Você gosta de fazer arte com a sua vida, não?
Gosto. Acho que o artista tem de ser egocêntrico, sabe? Quero sempre fazer tudo. Do cara que entrega o ingresso na bilheteria às meninas que levam o espectador até à cadeira. Vou fazer isso lá no Auditório Ibirapuera com O Homem-Bruxa. Todo mundo vai usar uma máscara com o meu rosto! Tipo Quero ser John Malkovich. E eu vou levitar no show.

De verdade?
De verdade. Agora, eu preciso ser sincero: esse foi um erro de avaliação da minha parte.

Por quê?
Porque levitar é caro! Fui atrás de uns mágicos, e eles estão cobrando alto, uma fortuna para criar a máquina. Entrei até no Catarse (site de crowdfunding) para juntar uma grana.

Como foi acordar, de repente, sem a tranquilidade financeira de trabalhar no Agora É Tarde?
Minha mãe sempre dizia que eu tenho sorte na vida. Veja só: o programa do Rafinha foi limado no começo deste mês e fiquei desempregado, mas esta semana estreia, na Globo, a série Os Experientes foi ao ar na sexta, dia 10), produzido pela O2, na qual eu faço um personagem. No dia 17, estreia o Sonhos; e um mês depois, meu novo disco, com show. Ou seja, as coisas acabaram dando certo apesar da demissão…

Tem mais shows de aniversário previstos?
Acabei de acertar um no Sesc Pompeia. Muito louco também. Convidei 50 amigos que vão tocar 50 instrumentos diferentes ao mesmo tempo. Todo mundo que já tocou comigo vai estar lá. Entre eles, oito bateristas, imagina a zoeira! Vai ser uma bagunça? Mas também vai ser uma delícia. Esse projeto será no segundo semestre.

Você é compositor, cantor, ator, arranjador, performer. De que parte da sua personalidade artística gosta mais?
Difícil dizer. Vou lhe contar uma coisa. Meu pai era diretor de teatro. Um dia – ele devia ter pouco mais de 50 anos –, chegou em casa e anunciou: “Eu quero ser ator!”. A gente caiu na risada. E ele foi ser ator. Já eu comecei a tocar piano aos três anos de idade…

Começou cedo…
… e a partir dos 17 anos fui lidar com trilha sonora para teatro infantil. Depois, fiz um monte de trilhas para curtas-metragens de cinema, e de graça. Aprendi na porrada. Meu primeiro longa foi Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, da Carla Camurati, em 1995. Foi nesse ano também que comecei a achar que poderia ser ator. Aí calhou de o Ugo Giorgetti me chamar para o filme Sábado (no qual interpreta um convidado para um churrasco que acontece no terraço do Edifício das Américas e que fica preso no elevador do prédio). Eu amei fazer aquilo. A partir de então, para todo mundo que me chama para compor trilha de cinema eu digo: “Beleza, mas só se puder participar, nem que seja fazendo uma ponta!”.

Qual considera o trabalho marcante de sua carreira?
O Castelo Rá-Tim-Bum. Está no imaginário das crianças do Brasil inteiro, né? (cantarola: Bum, bum, bum… Castelo Rá-Tim-Bum…) Todo mundo conhece. E eu consegui ainda uma participação no filme (dirigido por Cao Hamburger, em 1999). É uma coisa que eu adoro.

Tem trilha nova de cinema saindo forno?
Bom, fiz a trilha do filme Trinta (de Paulo Machline, que conta a história do carnavalesco Joãosinho Trinta). Ofilme ficou uma semana em cartaz… uma vergonha isso, né? O Brasil é incrível… E estou compondo para o novo filme do Aluizio Abranches (Como Você Quer o Seu Casamento?). Já fiz mais de 50…

Você vai mesmo ter tempo para tocar no Rock in Rio?
Cara, estava quase esquecendo disso. Sim, vou tocar. Comigo vão estar o André Moraes, mais um vocalista, um baixista e um baterista.

Rock?
Não, tocaremos heavy metal. Sabe que até fiquei na dúvida? Quando o André Moraes me ligou para me convidar eu estava num restaurante, almoçando com minha mulher (a atriz Danielle Farnezi) e meu caçula (Pedro, de 11 anos). Disse pra ele que ia pensar. Minha mulher reagiu: “Você tá louco? Vai dizer não para o Rock in Rio?” Eu tentei argumentar: “Mas não tem nada a ver com o meu trabalho”. E ela: “E qual é o teu trabalho, Abu? Define o teu trabalho!” Aceitei… Vai ser dia 25 de setembro. /DANIEL JAPIASSU

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