“A vida humana não é comer, evacuar e dormir”, diz Maitê Proença

“A vida humana não é comer, evacuar e dormir”, diz Maitê Proença

Sonia Racy

30 de agosto de 2020 | 00h55

MAITÊ PROENÇA

Em tempos de pandemia e enxurrada de instagrams ‘felizes’, Maitê Proença quis fugir do óbvio. A atriz – que estreia por transmissão online, o espetáculo O Pior de Mim, no dia 9 – optou por falar sobre seu processo interno no confinamento. Ou mais precisamente, daquilo que a também escritora, roteirista e …ser humano guarda a sete chaves. “No íntimo, todos nos temos sentimentos primários de raiva, inveja, indignação e insegurança”.

A entrada “virtual” para ver a apresentação custa R$ 10 e a renda será parcialmente revertida para um fundo criado pelo Teatro Petra Gold, onde ela se apresenta. O fundo se destina a ajudar famílias de técnicos e artistas do teatro do Brasil. Leia abaixo a entrevista:

Por que transformar sua própria história em teatro?
Porque todos os autores fazem isso de forma mais ou menos velada. Me pediram um texto inédito para encenar na retomada e eu não quis escrever mais uma peça sobre isolamento na pandemia. Imaginei que falar do confinamento interno poderia ser interessante: aquelas amarras que nos impomos, muros que erguemos para nos defender que acabam atravancando a vida. Todos nós somos machucados. Só me dei conta das armadilhas que criei para mim mesma muito recentemente.

O que espera do trabalho?
O Brasil adora o BBB. O mundo adora o Instagram. Há uma bisbilhotice inata em todos. Mas na TV e mídias sociais, vê-se gente linda, alegre e cheia de amigos. O padrão é inatingível para o mortal comum, que acaba se sentindo diminuído por comparação. No íntimo, nos que se refere a sentimentos primários de raiva, inveja, indignação, insegurança; somos todos muito semelhantes. Mas escondemos tudo isso a sete chaves. Imagino que, sendo uma pessoa conhecida, se eu mostrar onde tropecei, me atrapalhei e errei terrivelmente, mostrar as consequências devastadoras que enganos tiveram em uma vida, que, externamente parece um parque florido, a minha experiência verdadeira vai tocar profundamente quem assistir à peça O Pior de Mim.

Biografias em geral são bom material para o palco?

Não acho, e não é o que estou fazendo. Quando as pessoas escrevem sobre si mesmas, o perigo é cair na autopiedade, na pieguice sem fim. Aqui não há detalhes sensacionalistas, é outra pegada, totalmente. É olho no olho com gente que vai se sentir igual a mim ainda que nossas histórias sejam diversas.

Que mundo você vê depois da pandemia?

Seis meses se passaram e fomos obrigados a mergulhar em profundezas que normalmente desconsideramos, através de atividades ininterruptas, com drogas lícitas e ilícitas, com mil truques que nesse período tiverem que diminuir. Vimos que podemos viver com muito menos, podemos fazer menos lixo – tanto em termos materiais bem como de coisas que precisávamos. Sabemos agora que não fazem qualquer diferença em termos espirituais. Quem se encarou foi obrigado a se livrar de muito peso inútil, colocar tudo na balança e reavaliar. O mundo vai melhorar.

Qual o lugar das artes hoje no Brasil e no mundo?
A arte nos salvou. Sem a música, teatros, museus, sem os livros, sem a contribuição dos artistas, enfim, as pessoas teriam preferido não existir. Teria havido um tédio insuperável e muitas mortes intencionais. Só os brutos não percebem a importância das artes. A vida humana não é comer, trabalhar, evacuar e dormir. Cheguei a esse planeta de um jeito e pretendo sair numa versão melhorada, tendo produzido algo criativo e novo, e contribuído a minha maneira. Se não, pra quê?

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