‘A vida é feita de nãos, temos de agarrar o sim na curva’, diz Cláudia Raia

‘A vida é feita de nãos, temos de agarrar o sim na curva’, diz Cláudia Raia

Sonia Racy

07 de fevereiro de 2016 | 02h00

Denise Andrade

Denise Andrade

 Cláudia Raia chegou ao hotel, ao lado do Anhembi, pouco antes da meia noite da sexta. Na entrada lateral, os fãs aguardavam a homenageada da escola de samba Nenê de Vila Matilde, mas ela ainda não estava pronta para “divar”. De cara lavada e acompanhada da filha Sophia, de 13 anos, decidiu não descer do carro e preferiu a entrada dos funcionários. “Sou muito vaidosa, só não sou escrava da vaidade”, conta a atriz, bailarina, cantora e produtora, que recebeu a coluna em sua suíte enquanto se preparava para desfilar como Rainha Raia. “Me monto porque faz parte da minha profissão.”
Logo que chegou, a atriz foi direto conversar com o maquiador enquanto Sophia, que sairia na comissão de frente, aquecia a voz cantarolando a letra do samba da escola. Veterana na avenida e nos espetáculos, Cláudia não tinha tudo minuciosamente programado. Discutia, pouco antes, as possibilidades de penteado do aplique loiro que usaria com o adereço, bem como a cor do batom. “Nude com a roupa branca não fica bom”, decidiu. “Em você, qualquer boca fica boa”, disse o maquiador Henrique Mello, que a acompanha desde 1994. Escolheram o rosa.
Os 30 anos de holofotes e a disciplina de 44 anos do balé davam ao semblante de Cláudia uma aparente serenidade, que ela diz não ter. Conta que o convite foi uma grande surpresa e a fez refletir ainda mais sobre seu percurso – as novelas, musicais, filmes. Mudaria algo? “Faria tudo como foi, talvez com um pouco menos de ansiedade porque eu sempre fui muito afoita.” A afobação não é a única marca que ela acha dominante em sua vida. A disciplina veio desde pequena, ao lado do cuidado para não desperdiçar oportunidades – aprendizados maternos. Aos 13 mudou-se sozinha para Nova York após conseguir uma bolsa de estudos de dança.“Digo aos meus filhos algo que acho que minha mãe quis me dizer, mas fez com outras palavra: A vida é feita de ‘nãos’, você tem que agarrar o ‘sim’ na curva e não largar.”
Entre uma e outra correção nos traços dos olhos, a atriz compara: “Ser enredo de uma escola de samba é como ter um filho, o momento da hora do parto, digo. Não consigo descrever. É muito forte ver as pessoas acreditarem na minha história como se fosse a delas”.
Cláudia interrompe a conversa para lembrar à Sophia de se alimentar. Foram, aliás, seus dois filhos que a fizeram decidir começar um novo capítulo na vida, e retornar a São Paulo depois de 28 anos. Enzo, o mais velho, começa a faculdade de administração na cidade.
A atriz optou por comer seu macarrão com carne moída frio mesmo. Planejava ir do hotel ao sambódromo de carro, mas o tamanho do adereço na cabeça não permitiu. Foi a pé. Lá, a “concentração” eram a família e amigos próximos.
“Tô indo”, disse Sophia, e partiu em direção à comissão de frente. Cláudia a chamou: “Filha, vem cá”. Sophia voltou e as duas se abençoaram uma à outra. “Arrasa!”, disse Cláudia à filha, que viveria a atriz com a idade que ela se sente hoje: a de uma adolescente. /MARINA GAMA CUBAS

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