‘A televisão não pode maquiar o mundo. Ela tem de escancará-lo’

‘A televisão não pode maquiar o mundo. Ela tem de escancará-lo’

Sonia Racy

03 de fevereiro de 2014 | 01h00

Matheus Nachtergaele (Foto: Fábio Rebelo/Globo)

No ar em ‘Doce de Mãe’, da Globo, Matheus Nachtergaele cobra ousadia da TV brasileira e diz que não se deve subestimar a inteligência dos telespectadores, nem mantê-los ignorantes.

Em 2010, aos 41 anos, depois da morte da avó paterna, Denise – que o criou durante grande parte da infância, depois da precoce morte da mãe –, por pouco ele não abandonou a longa carreira de ator e mudou radicalmente de vida. Cogitou até cursar outra faculdade, de Biologia – sonho de menino. “Foi um ano quase que sabático para mim. Disse muito ‘não’, porque estava realmente abalado. Foi como se eu tivesse perdido de novo a minha mãe. Vivi, finalmente, o luto. Mas o chamamento para as artes foi mais forte.”

Hoje, aos 45 anos, as dúvidas de Matheus Nachtergaele em relação ao ofício estão superadas. O que ele questiona mesmo é a capacidade de a televisão brasileira levar conhecimento, diversão e cultura às pessoas. “A programação não pode ofuscar a verdade.”

Na entrevista, concedida antes da histórica cena do beijo gay em Amor à Vida, ele sentencia: “Se o beijo entre homens na TV for mesmo um problema, não estamos bem, não. Até o papa Francisco já falou disso”.

A seguir, os melhores momentos da conversa com o ator, que falou à coluna por telefone, a caminho do Projac, onde grava Doce de Mãe – exibido, em 2012, como especial de fim de ano Globo, e que agora virou seriado com 14 capítulos. A obra de Jorge Furtado, que rendeu à protagonista, Fernanda Montenegro, o Emmy de melhor atriz, voltou quinta-feira à grade da emissora.

Acha que a TV brasileira tem de passar por mudanças?

Uma programação mais profundamente diversificada nos libertaria bastante. O eixo de produção está mais equilibrado, com produções do Sul, do Norte, Nordeste e Sudeste. E essa distribuição País afora ajuda muito. Mas, como o Brasil tem dimensões continentais, é complicado conhecê-lo por inteiro. Acredito que o cinema e a televisão são um lindo caminho para isso. O cinema já tem ido para as rotas profundas. Mas, nos últimos anos, tem me preocupado essa tendência de se superficializar demais os temas em busca de bilheteria. O cinema saudável é aquele realmente variado. Com filmes competitivos, de aventura, de arte, comédia, documentário. Queremos uma televisão em que tudo isso também caiba. E vou além: temos de divertir o público expondo, e não escondendo. Tudo que é feito para nos enganar e nos distrair de maneira errada não é bom. Não se pode apostar em uma programação que ofusca a verdade. Isso não quer dizer que eu seja contra o entretenimento. Ao contrário, faço parte dele. O entretenimento serve para escancarar, não para ocultar e maquiar o mundo. Tem de haver uma cobrança para a televisão que nós fazemos e também para os políticos.

Como assim? 

A televisão é, obviamente, o veículo de comunicação dos políticos conosco. Há muito tempo. E eles se acostumaram a mentir na TV. Mas nós já notamos a verdade. Eles deveriam mostrá-la, não se esconder atrás de discursos impossíveis de ser compreendidos. A maneira como eles falam exclui a grande maioria dos brasileiros do que está sendo dito.

O telespectador brasileiro ainda é muito conservador?

Se a gente ousasse mais, nos surpreenderíamos. Posso estar errado, mas a televisão fica muito assustada com a opinião de uma certa classe. O público é mais inteligente do que se imagina. Não se deve ter a intenção de mantê-lo ignorante. Podemos ousar à vontade. Às vezes, parece impossível. Há, por exemplo, muito medo de uma reação violenta de algumas pessoas em relação a um beijo entre homens na TV. Mas, se isso for um problema, não estamos bem, não. O tempo já passou, o amor está libertado faz um bom tempo. Até o papa Francisco já falou disso. Ou seja, (o deputado Marco) Feliciano está errado. Quanto mais coragem, mais êxito.

Grande parte do elenco da série Doce de Mãe vem do teatro. Faz diferença?

Formou-se uma trupe, estamos muito entrosados. O “fator profissional” da televisão fica de lado, me parece mais com um longo filme ou com um grande ensaio de uma peça de teatro. No camarim, a gente fica falando sobre as cenas. Estamos vivendo esse momento de encontrar pessoas que realmente, sem exceção, gostam do seu ofício. Fernanda fala do ofício o tempo inteiro. E isso contamina a gente. Falamos muito sobre o que é comédia, que tom de comédia vamos assumir. A gente discute o tamanho do drama que deve ser colocado ou não; e o timbre dessa comédia. Imagina que o elenco veterano é Otávio Augusto, Camila Amado, Sérgio Mamberti e Fernanda Montenegro – gênios do teatro.

A série trata de uma questão muito atual: a do envelhecimento e de quem cuidará desse idoso.

Nos tempos modernos, não existe muito espaço para a velhice. As pessoas estão ocupadas sobrevivendo e o velho acaba atrapalhando. Na agilidade da tecnologia, na agilidade da vida amorosa dos filhos solteiros, na intimidade dos filhos casados.

Muitas pessoas chegam sozinhas à velhice. Teme isso?

Não sei se vou chegar sozinho. Muitas vezes, meus irmãos reclamam do trabalho que seus filhos dão, mas sempre digo que eles terão uma companhia e um amor eterno. E eu, como não tenho filhos e não sou casado, às vezes penso nisso. Acho que minha companhia será meu ofício. Viajo muito. Sendo ator, encarno muitas famílias em muitos personagens. Mas pode ser que tudo mude, não é? A gente não sabe. Mas gosto muito de viver sozinho. Não acho que vá me casar de cama, mesa e banho. Já tentei algumas vezes, mas não fico feliz – me acostumei a ficar só, a ter um ritmo muito particular. Não tenho certeza – posso ser surpreendido por mim mesmo –, mas até hoje não me imaginei de outra maneira.

Não?

Meus relacionamentos são longos, mas nunca funcionam na mesma casa. Não gosto. Acho que ainda estou muito novo para me preocupar (com a velhice).

Você acabou de fazer 45, né?

Sobrevivi até aqui (risos). Está gostoso. Tinha a impressão de que ficaria chateado. Não imaginava que fosse ficar adulto de verdade. Agora não tem mais desculpa, sabe?

Isso não aconteceu aos 30?

Não. Achei os 30 ainda muito joviais. Estamos mais maduros, mas ainda temos muito fôlego e paixão. Tanto para o trabalho, quanto para o amor. Para as farras, as aventuras, os encontros e desencontros. Aos 40, percebi que tinha de assumir definitivamente o ofício. Sentia que, se fosse parar de ser ator, tinha de ser naquele momento. Porque ainda tinha alguma juventude caso quisesse guinar minha vida. Todos passam por esse momento em que dizemos: “Acalma um pouco e assume a tua vocação. Ou, então, esse é o último momento para mudar tudo”. Pensei em coisas radicais.

Sério? Como o quê?

Sempre tive o sonho de ser biólogo. Nesses últimos anos pensei muito nisso. Principalmente depois da morte da minha avó, em 2010. Fui criado por ela na minha infância. Foi como se eu tivesse perdido de novo a minha mãe. Vivi, finalmente, o luto. Fiquei muito abatido. Foi um ano quase que sabático para mim. Trabalhei pouco, o que é raro. Disse muito ‘não’ e coloquei muitas coisas em questão.

Quais?

A grande exposição do meu ofício. Tive muitos medos. Mas o chamamento foi mais forte. Assim que fui me recuperando, tive vontade de trabalhar como ator de novo. E, além disso, aos 40, escrevi, produzi e dirigi um filme, A Festa da Menina Morta, que ganhou um monte de prêmios e estreou em Cannes. E me fez pensar: “Será que devo passar a ser diretor?”.

Qual foi a resposta?

As duas coisas podem conviver. Estou escrevendo outro roteiro agora, mas sem previsão para filmar. Porque um filme quer tudo de você. Mais até do que um personagem. Exige todas as suas horas, lembranças e economias (risos). /THAIS ARBEX

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