‘A sociedade está caminhando para o individualismo, e isso pode ser bom’

‘A sociedade está caminhando para o individualismo, e isso pode ser bom’

Sonia Racy

05 de outubro de 2014 | 23h59

Foto: Iara Morselli/Estadão

O psicoterapeuta, que acaba de lançar o livro Mudar, fala sobre o possível fim do egoísmo e de como o mundo moderno está criando pessoas mais autossuficientes.

Ele jura que não foram as manifestações de junho do ano passado que o levaram a escrever seu mais recente livro (Mudar – Caminhos para a Transformação Verdadeira), mas o certo é que Flávio Gikovate vem percebendo que muita coisa tem mudado nos últimos tempos em seu consultório e nas muitas palestras que faz pelo País.

“Graças à tecnologia, as pessoas estão ficando mais individualistas, e isso pode ser o fim do egoísmo”, explica. Nestes 46 anos de carreira, já são mais de 9 mil pacientes atendidos (“vi quase tudo na vida”); 33 livros, que venderam, juntos, mais de 1 milhão de exemplares (“mas o que eu quero é ser clássico”); e 3 milhões de seguidores no YouTube.

Também médico-psiquiatra, ele se dedica, atualmente, a seu programa No Divã do Gikovate, na rádio CBN, e à clínica. Casos mais frequentes? “Depressão”, responde. “E indignação. As pessoas querem mudar, mas muitas não sabem o quê!”

A seguir, os melhores momentos da entrevista à coluna (na qual preferiu não falar sobre política), concedida em seu consultório, nos Jardins.

A transformação verdadeira é mesmo possível?
É possível, mas muito trabalhosa. Eu já devia ter escrito esse livro há mais tempo, afinal, o que mais faço é tentar ajudar as pessoas a se modificarem. E pude assistir a muitas mudanças, até dramáticas, no comportamento das pessoas nos últimos 46 anos. Claro que muita gente faz show de mudança, né? Mudança somente estratégica, com a finalidade de acalmar os ânimos das pessoas que se queixam ao redor.

Acontece muito?
Acontece, mas também há aqueles genuinamente interessados em mudar, que aproveitam um momento de crise para dar início a uma mudança. É gente que se dedica, de fato, a passar por um corredor polonês de sofrimento. Um exemplo disso são os pacientes que conseguem vencer a obesidade. A gente assiste a mais derrotas do que vitórias, mas alguns conseguem emagrecer e se manter magros, sem remédios. É uma compulsão muito séria. Um hábito repetitivo cuja finalidade é atenuar um sofrimento. O mesmo se aplica às pessoas que não conseguem parar de roer as unhas, arrancar cabelo ou abandonar vícios, como a bebida ou as drogas.

Cada caso é um caso?
É o meu jeito de pensar. Costumo dizer que meu trabalho é mais alta-costura do que prêt-à-porter. Erra quem tenta enquadrar casos em modelos pré-moldados. Meus paradigmas aprendi com os clientes.

Hoje é mais difícil mudar, por causa dos apelos cada vez mais fortes da sociedade?
O mundo começou a mudar justamente quando eu comecei a trabalhar, na metade dos anos 60. Muita coisa melhorou, com certeza: as pessoas se desfazem de casamentos infelizes muito mais facilmente, assim como assumem a homossexualidade. A questão é que, hoje, há uma imposição de um padrão de comportamento do qual é muito difícil sair. Basta ver quanta gente sonha em mudar de vida, por exemplo, e quem realmente consegue fazer isso. As oportunidades para a mudança existem, estão aí. É melhor vender sanduíche natural na praia do que pegar três horas de trânsito em um ônibus lotado, todo dia, para um trabalho medíocre. Mas pouquíssima gente faz a mudança. Ou seja, as pessoas seguem como vacas a caminho do matadouro.

São mudanças sociais que precisam de mais tempo?
Quando eu estava na faculdade de Medicina, 90% dos meus colegas eram homens e 10%, mulheres. E não muito bonitas… (risos) Hoje, a proporção é 60% a 40% para as mulheres. O que, aliás, não tem pé nem cabeça, porque deveria ter parado nos 50%-50%. As mulheres não são mais burras que os homens, mas também não são mais inteligentes.

As mulheres já não precisam tanto dos homens?
Existe uma psicanalista francesa (Marie-Laure Susini, autora do livro “A Mutante”) que diz que, daqui a pouco, as mulheres vão dispensar os homens. Nós vamos nos transformar em touros de fazenda, sabe? Reprodutores. A mulher vai simplesmente comprar o esperma (risos). Esperma premiado, claro. E, se quiser, colocará o óvulo em uma barriga de aluguel. (O smartphone toca, ele pede desculpas, mas precisa resolver um problema relativo a um paciente. Em seguida, muda de assunto.) Sabe que, outro dia, fui fazer uma palestra em uma empresa de telecomunicações. Eles estão preocupadíssimos com o vício nesse aparelhinho aqui. E têm razão, porque, ao mesmo tempo em que trabalham para aumentar o uso da tecnologia, tudo que se torna vício acaba por criar uma pressão contrária da sociedade.

Existe um superestímulo por parte da tecnologia?
Ah, sim. As crianças, por exemplo, estão expostas a um excesso de informações, muitas das quais não compatíveis com a idade. Hoje há muitos casos de crianças que não conseguem dormir direito, hiperativas. E essa hiperatividade eu não tenho certeza se é doença ou derivada desse excesso de informação. Hoje a gente está vivendo muitas mudanças que não são individuais, mas da sociedade. Ou seja, a pessoa mudar é mais difícil; já a sociedade vive um ritmo de mudanças que a gente nem percebe direito.

De onde vem essa capacidade atual de mudança da sociedade?
Eu diria que as mudanças sociais acontecem por força de uma dialética que os homens não conseguem controlar, que é o avanço tecnológico, gerando novos produtos, que, por sua vez, mudam o estilo de vida das pessoas. E essa mudança de estilo de vida, muitas vezes, é subestimada até por quem cria esses produtos. Eu vi nascer a TV, por exemplo. No começo, todo mundo achava que ela seria um equipamento gregário, que reuniria a família na sala e todos assistiriam à programação juntos. No começo, até aconteceu, mas, hoje, cada família tem uma TV per capita em casa, cada um assiste a uma programação.

As pessoas foram se isolando?
E esse fenômeno se estende a smartphones, tablets, iPods. Cada vez mais as pessoas estão consigo mesmas. Não sei se o objetivo era esse.

Ou seja, os avanços tecnológicos acabam levando a mudanças não planejadas originalmente?
Quer outro exemplo? Quando a pílula anticoncepcional começou a ser comercializada, os homens, pais de família, eram super a favor, porque achavam que ela iria melhorar a vida sexual deles com suas esposas. Só que, dez anos depois, esses caras tomaram o maior susto, ao saber que suas filhas adolescentes estavam transando com os namorados. Isso não estava combinado (risos). Não era o plano da pílula, ela não havia sido criada para acabar com o tabu da virgindade, como foi o que aconteceu.

O senhor fala muito em egoísmo no livro. A sociedade está mais egoísta hoje? Isso é necessariamente ruim?
Sim, o egoísmo é necessariamente ruim. E a matriz do egoísmo é a generosidade, porque o egoísta é aquele que recebe mais do que dá. E para ele receber mais do que dá, alguém tem de dar mais do que recebe.

Generosidade demais também é ruim?
Veja: uma mãe excessivamente generosa tende a criar filhos egoístas. O cara fica folgado, naturalmente. E o que é próprio do egoísta? Não se colocar no lugar do outro. Ou seja, é um explorador que não tem sentimento de culpa. No caso do egoísta que não dá nada, só recebe, pode-se dizer que ele se aproxima da sociopatia.

Muita gente sofre desse distúrbio hoje em dia?
Eu diria que metade da humanidade não sente culpa. E a outra metade não entende a razão de a primeira metade não sentir culpa. Até porque, muita gente fala que se sente culpada, mas não se sente coisa nenhuma. Falar é fácil.

Como o egoísta pode mudar, se não sente culpa? Não é preciso um certo grau de infelicidade para que a pessoa queira mudar algo em si mesma?
Mas o egoísta sabe que é um fraco. Ele sofre, pois sabe que não é autossuficiente, e isso leva a uma certa frustração. O cara mama na teta, e a teta pode se demitir a qualquer momento (risos). Aliás, nos casamentos em que um é mais generoso e outro é mais egoísta, o egoísta é aquele que vive ameaçando ir embora, pedir o divórcio. Ameaça e não cumpre. Nesses casos, o divórcio, quando acontece, é porque o generoso se cansou. O generoso, ao levar o egoísta nos braços, está ficando cada vez mais forte. Em contrapartida, o egoísta está ficando atrofiado. E sabe disso.

O egoísta inveja o generoso?
Mas o generoso também inveja certas coisas no egoísta.

O quê, por exemplo?
A folga, o jeito extrovertido, a cara de pau. E essa recíproca mostra que nenhum dos dois está satisfeito com o seu jeito de ser. Mas sabe que esse mundo moderno, mais individualista, é o maior inimigo do egoísmo. Uma sociedade mais individualista vai caminhar na direção da justiça e acabar com a generosidade e com o egoísmo, criando indivíduos mais autossuficientes. Um sintoma disso é que muita gente hoje mora sozinha. Cerca de 15% da população em São Paulo. E é pouco: em Nova York e Paris, esse índice já bate nos 50%.

Todas as pesquisas sobre felicidade trazem o Brasil no top 10 do ranking mundial. Somos um país de gente autossuficiente ou mentirosa?
Mentirosa. Aquela história de que o brasileiro é feliz, é sensual… tudo mentira. Claro que povos tropicais têm mais claridade, mais sol, mais gente na praia, cria-se uma atmosfera mais descontraída. Na ponte aérea, quando você chega no Rio, sente uma descompressão, não é? Claro, até entrar no taxi (risos), quando você sente um outro tipo de descompressão. O brasileiro, em muitos lugares, está mais para cigarra do que para formiga.

As pessoas têm medo da felicidade?
Tenho casos assim no consultório, de pessoas que chegam com algum pavor, alguma hipocondria, e querem saber o problema que está causando aquilo. E eu percebo que o que está causando o quadro é exatamente a falta de problemas. Muitas vezes, a situação é tão boa que o sujeito fica desconfiado.

O brasileiro ainda se analisa pouco?
O preconceito diminuiu muito. Quando eu comecei, o consultório tinha duas portas – uma de entrada, outra de saída – para que os pacientes não cruzassem uns com os outros. Hoje é completamente diferente, muita gente tem orgulho de falar que faz terapia. No meu programa CBN, por exemplo, que é gravado ao vivo, com plateia, as pessoas contam tudo no microfone. Acho que tem, inclusive, uma influência das redes sociais nisso, que afrouxou os limites entre público e privado. Além disso, esse mundo conectado fez aumentar a busca por informação, por saber mais sobre si mesmo. Só não vemos o índice de “analisados” aumentar muito por questões econômicas.

Quais os principais casos que o senhor analisa hoje em dia no seu consultório?
A depressão aumentou muito, pelas mais diversas causas: casamentos desagradáveis, pais com filhos problemáticos, filhos com pais problemáticos, rupturas amorosas, decepção com amigos, medo do futuro, da solidão, gente que não consegue se localizar na sociedade…

E problemas sexuais?
São menos frequentes hoje. Acho que o sexo está saindo de moda… /DANIEL JAPIASSU

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