“A realidade supera a ficção sempre”, diz Cláudio Torres, diretor de nova série da Netflix que estreia dia 10

“A realidade supera a ficção sempre”, diz Cláudio Torres, diretor de nova série da Netflix que estreia dia 10

Sonia Racy

04 de junho de 2020 | 00h55

DIRETOR CLÁUDIO TORRES, DA CONSPIRAÇÃO – FOTO: DENIS NETTO

Em meio à pandemia da covid-19, Cláudio Torres, da Conspiração, conta ter um lado Pollyanna (do livro de Eleanor H. Porter), que ativa seu otimismo. A quarentena fez o diretor e produtor conviver mais com a família. “Tenho passado finais de semana inteiros com minha mãe”, conta, referindo-se à atriz Fernanda Montenegro, isolada no sítio com a filha, Fernanda Torres, em Petrópolis, no Rio, e com os netos.

A crise sanitária atrapalhou os planos da produtora, mas não impediu o trabalho remoto a todo vapor. Torres lança, dia 10, na Netflix, a série Reality Z. É um remake “tropicalizado” de Dead Set, de Charlie Brooker (Black Mirror). Fala de um confinamento fictício, num reality show – comandado pela ex-BBB Sabrina Sato -, e que é atingido por um apocalipse zumbi. Mas o diretor avisa: “a realidade supera a ficção sempre”.

Torres falou à coluna sobre outros trabalhos da Conspiração a caminho – incluindo a minissérie Dom, de Breno Silveira, pela Amazon Prime -, da sua quarentena, que inclui fazer faxina e rever filmes clássicos com o filho Davi, 19 anos, estudante de cinema na PUC. A seguir, principais trechos da entrevista à repórter Cecília Ramos.

A pandemia atrapalhou muito seus planos?
Por sorte, ela chegou com o Reality Z já quase finalizado. Retardou o processo de dublagem de inglês e espanhol, atrasando em um mês o lançamento. O trailer foi muito bem recebido, bombou no Twitter. Estou pensando até em voltar para as redes sociais. Fechei meu Face há dois anos, quando saiu aquele segundo vazamento. Eu falei: chega! Já viu como é encerrar sua conta? É um enterro, toca uma música fúnebre e eu quase desisti de cancelar por conta das fotos da despedida – tinha uma do meu filho. Pelo Reality Z, talvez eu volte.

Acompanha o debate sobre fake news, liberdade de expressão?
Quem faz fake news devia mudar de profissão e fazer cinema, vão prestar serviço maior e deixar a informação pra quem tem responsabilidade por elas. Nesses tempos, a informação jornalística está voltando a ter uma força que parecia que tinha perdido. Pegou seu lugar de volta.

Sobre o Reality Z, você usa a fantasia para falar da luta pela sobrevivência. Hoje o mundo real está confinado e atrás de uma vacina. Superamos a ficção?
A realidade supera a ficção sempre. Meu gosto pelas distopias, pelos mundos inventados é porque eu acho que não existe maneira mais eterna de você falar sobre a realidade. Pegue 1984 (George Orwell). Ele descreve um estado ditatorial controlado por três dizeres: “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” e “ignorância é força”. O sujeito escreveu isso no século passado. Como pode existir algo tão atual e que descreva o que vivemos hoje? Pegue The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). Ela descrevia ali como seria um estado religioso, ditatorial, que oprime o cidadão e onde todos vigiam todos. Daqui a cem anos 1984 e Handmaid’s continuarão atuais. Aí você vê a importância do artista, da arte, da cultura.

Como vê a cultura no governo Bolsonaro?
Esse governo estabeleceu uma estranha ligação da produção cultural com o comunismo. Não consigo compreender. E abandonou a cultura, desidratou os mecanismos de incentivo à cultura. Bolsonaro admira o Trump. Te garanto que não passa pela cabeça do Trump refrear a indústria cultural, bilionária, a cinematográfica, os streamings, a TV, porque ele sabe que isso é economia também. O Brasil sofre duplamente, porque está desassistido por um governo negacionista quanto à ciência em plena pandemia, e que ao mesmo tempo despreza a cultura, que traz alívio no isolamento social. Mas já sobrevivemos a tanta coisa, vamos sobreviver de novo.

Você está otimista, então?
É meu lado Pollyanna. Governo nenhum vai reter a cultura pra sempre. Ela arruma uma maneira de existir, está no DNA. Imagine hoje sem streaming, sem TV… Não existe humanidade sem arte.

Como visualiza a cultura no pós-pandemia?
Acho que quando isso passar vamos ter uma produção cultural grande. Vão sair ideias, desse período difícil que vivemos, que talvez não saíssem se não fizéssemos uma reflexão interna. Agora o coronavírus impôs uma questão mundial para as artes: como se pode pensar num espetáculo de dança, teatro, como pensar no cinema sem juntar gente? A arte é gregária, mas tem que se reinventar enquanto não temos vacina.

Chegamos ao terceiro mês de quarentena, sem previsão de fim. Diante disso, como organizou a produção da Conspiração, o que vem pela frente?
O que a gente fez nessa pandemia foi: ninguém larga a mão de ninguém, vamos esperar o tsunami passar. Estamos trabalhando de modo remoto em uma animação inspirada em vizinhos confinados na quarentena, uma minissérie com assassinato numa pandemia, e finalizando Dom, de Breno Silveira, pra Amazon. Também comprei os direitos do livro Os Possuídos, uma ficção distópica dos anos 50. Se não fosse a pandemia, eu acho que a gente estaria num momento efervescente de produção cultural.

Mas o momento é especialmente produtivo para o streaming (plataformas de vídeo como Netflix, Amazon Prime, HBO GO), não?
Sim, tem razão. A globalização abriu porta pra uma demanda cultural global. Veja os catálogos dos streamings internacionais, antes eram totalmente dominados pela produção americana. Hoje você tem A Casa de Papel, que é espanhola (série mais assistida de língua não inglesa da história da Netflix), tem Dark, que é alemã, sucesso mundial também. O streaming derrubou barreiras políticas globais. Até os EUA está consumindo produção que não é deles. Isso é bonito, é rico.

Falando de retorno financeiro, você migrou há alguns anos do cinema para trabalhar para os streamings…É melhor?
Não é bem isso. Mas é um jogo justo (com streaming). Eles demandam muito, coisa que no cinema, não. Porque fazer cinema no Brasil ficou uma equação injusta e burocrática pra quem produz. O coronavírus chegou num momento que a gente estava preparado pra um 2020 muito forte na produção. Até pela Globo ter aberto pra produções independentes, pelo namoro da Apple com o Brasil… Aí veio a quarentena… Produzir série requer você juntar 60 pessoas e isso agora não pode. Mas, por outro lado, produzir pra streaming dá retorno independentemente de existir um governo que incentive a cultura ou não.

Você assinou algum movimento desses contra o governo Bolsonaro?
Eu assinei o #Somos70% (do economista Eduardo Moreira), porque somos maioria, sim. Acho que foi a primeira coisa política que eu endossei, porque nunca fui de atuar politicamente. Mas já era hora da sociedade se manifestar. Acho todos os radicalismos burros, devemos sair desses extremos que nos dominam, na direita e esquerda. Chega de polarizar.

Seu lado Pollyanna diz que a pandemia deixa algo bom?
Sim! (risos) A crise ressaltou a importância da produção cultural, que hoje nos dá até alívio. Mostrou como não vivemos sem arte. E aumentou o convívio familiar. Eu subo a serra com minha companheira, Juliana (Jabor), e meu filho (Davi, 19 anos) e vou pro sítio, em Secretário (Petrópolis, no Rio). Tenho passado finais de semana inteiros com minha mãe, minha irmã (Fernanda Torres), Andrucha (Waddington, cunhado e sócio)… E quando tô em casa (no Humaitá), tem o problema da faxina (risos)…. Também tô escrevendo, vendo séries, revendo filmes como Cidadão Kane, Laranja Mecânica… com Davi.

FERNANDA MONTENEGRO – FOTO: CLÁUDIO TORRES

Sua família é muito politizada e artística. Do que falam?
Política (risos), cultura, falamos do Brasil, de como chegamos até aqui… E quando esses assuntos se esgotam, contamos histórias. Minha família é muito unida, somos todos mais ou menos da mesma área. E o confinamento trouxe uma convivência mais íntima, nos deu mais tempo juntos num momento em que estamos precisando mais um do outro. Davi faz cinema na PUC, imagine pra ele o que é passar três dias direto com a avó, conversando horas. Não fosse a pandemia, ele teria levado amigos pra lá (para o sítio) ou estaria em festas, normal na idade dele. Mas está com avó. É tão bonito ver os dois juntos.

E como está sua mãe?
Essa pandemia teve outro lado bom. Minha mãe está virando mestra na tecnologia, no digital, dominando o Iphone, WhatsApp, o Google. E ela nasceu em 1929… A saúde dela nos impressiona, além da lucidez, claro.

Já te incomodou ser o “filho de Fernanda Montenegro”?
Hoje é só agradecimento, orgulho, só alegria. Mas na infância enchia o saco quando alguém interromper um jantar pra pedir autógrafo. Eu queria morder a pessoa, mesmo eu sendo canceriano. (risos). Eles faziam teatro desde que a gente nasceu. Ficavam em casa de dia, mas à noite a gente não tinha eles. Era difícil. Eu achei que ia ser desenhista e me senti traído quando minha irmã quis ser atriz. Depois, fomos todos ‘bebendo’ um do outro. A gente aprendeu com nossos pais que arte não é algo enviado por Deus pra iluminar um cidadão. É um ofício, tem que ter determinação.

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