‘A publicidade, se bem usada, é poderosíssima’, diz diretora premiada

‘A publicidade, se bem usada, é poderosíssima’, diz diretora premiada

Sonia Racy

06 de julho de 2019 | 00h50

LUIZA VILLAÇA. FOTO: GUILHERME DIP

LUIZA VILLAÇA. FOTO: GUILHERME DIP

Nos últimos dois meses, a diretora Luiza Villaça, da produtora Cine, ganhou cinco prêmios internacionais de publicidade, sendo quatro – dois Leões em Cannes e dois troféus de ouro no Festival Cíclope Latino – para o filme Lei do Minuto Seguinte, criado para divulgar lei federal sobre atendimento obrigatório de pessoas que sofreram violência sexual. A campanha foi lançada em março pelo MPF, pela Associação Brasileira de Agências de Publicidade e pela agência Y&R Brasil. A seguir, principais trechos da entrevista.

O que fez com que você decidisse participar desse projeto?
Vi que tinha uma intenção de falar do tema com coragem, sem amaciar uma coisa que não se pode amaciar. Temos que falar com a intensidade, com a gravidade que a violência sexual demanda. Tivemos um projeto de imersão para o desenvolvimento do roteiro. Quando o trabalho chegou, era sobre casos de estupro de mulheres na rua. Conversei com diretores de criação, mergulhei no assunto e incluí o caso de estupro homossexual, de estupro doméstico e nas escolas.

Por quê?
Porque o estupro na rua por um desconhecido é o mais óbvio. Eu percebi que era um assunto sobre o qual, por sorte da minha jornada, eu não tinha propriedade para falar. E eu fui atrás de mulheres vítimas de violência sexual, conversei com várias. Quando você olha de fora, é grande a chance de você retratar de maneira estereotipada, vazia. De apelar e tratar de um modo como você não deve.

Como abordar esse tema com intensidade sem glorificar os crimes?
Acho que tem uma linha muito tênue entre a exploração da tragédia – a falta de sutileza, de delicadeza para falar de um assunto – e a negligência. Temos que ter uma responsabilidade dos dois lados. Em um tema como esse, você precisa deixar ele te invadir. Quando levei o meu corte para o estúdio que iria produzir a trilha, taparam o olho na primeira exibição. E não tem nenhuma cena de violência explícita.

É preciso ter responsabilidade para abordar esse tema?
Tem que ter responsabilidade para abordar todos os temas. Muita gente tem preconceito com publicidade, né? Mas, se bem usada, ela é poderosíssima. É a maior distribuidora de ideias do mundo. Invade a sua casa quando você está de pijama, desprotegido, com a tua família, assistindo a uma coisa da qual você gosta. E tummm!, aquilo está injetado na tua cabeça.

Algumas pessoas não veem publicidade com bons olhos. Você se opõe a essa visão?
Eu não sei se eu me oponho. Muitas vezes, a publicidade pode, sim, ir por um caminho que gerou esse preconceito. Mas há muitas pessoas na área com vontade de falar e fazer coisas socialmente relevantes. Ou ao menos fazer coisas que não sejam um desserviço para a sociedade, como muitas vezes a gente viu. A publicidade foi capaz de gerar complexos estéticos, é capaz de aumentar a desigualdade. Mas eu tenho encontrado no meu caminho muitos publicitários, diretores de criação e marcas que querem se atrelar a ideias responsáveis, a posicionamentos. /PAULA REVERBEL

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