‘A Pinacoteca quer mais espaço’

‘A Pinacoteca quer mais espaço’

Redação

02 de fevereiro de 2009 | 06h00

Foto: Paulo Giandalia/AE

Nos planos do diretor Marcelo Araújo em 2009, cinco grandes exposições francesas e um terceiro prédio no Parque da Luz

Matisse, Fernand Léger, Lévi-Strauss, Hércules Florence… Um pedaço graúdo da arte e cultura francesa vai trocar Paris pelo Parque da Luz, nos próximos meses – e Marcelo Araújo é o encarregado de fazer tudo dar certo. Como diretor da Pinacoteca do Estado, um dos endereços de arte mais prestigiados do País, ele prepara com cuidado cinco grandes exposições francesas para a casa – parte do Ano da França no Brasil. A joia do pacote de 35 exposições previstas para o ano.

“Matisse é um dos grandes nomes do século XX e nunca teve exposição por aqui”, exemplifica. E um dos momentos altos, garante, será o das instalações, no final do ano. Feliz com a grande afluência – mais de meio milhão de pessoas visitaram a casa em 2008 – ele anuncia seu grande plano no curto prazo: conseguir um novo espaço, o terceiro edifício do grupo, dedicado a instalações. A Pinacoteca e a Estação Pinacoteca não conseguem abrigá-las, “porque tem que furar, pintar, intervir no espaço”. A seguir, trechos da entrevista.

Que terceiro espaço é esse? A Pinacoteca precisa mesmo? Nosso maior desafio é o projeto desse terceiro edifício para abrigar a coleção de arte contemporânea. Estamos procurando algo no Parque da Luz – tem que acontecer nesta área, porque é onde já desempenhamos um papel importante. Foi isso, inclusive, que acabou dando origem à ampliação para o segundo edifício, o da Estação Pinacoteca.

Quais obras seriam colocadas nesse terceiro edifício? Temos uma boa coleção de arte contemporânea brasileira guardada por falta de espaço. O acervo da Pinacoteca só vai até os anos 70 e os nossos prédios, por serem tombados, têm uma série de restrições espaciais quanto a tamanho, a peso. Para a arte contemporânea, isso limita. Porque muitas vezes as obras são instalações, em que é necessário furar, pintar, intervir no espaço. Então esse terceiro prédio abrigaria esse novo tipo de coleção.

A exposição de Matisse será um dos pontos altos do Ano da França no Brasil. Como ela foi negociada? A Pinacoteca sempre teve relacionamento privilegiado com museus franceses. Ao longo dos últimos anos fizemos exposições significativas com o patrimônio francês. Matisse é um dos maiores nomes da arte do século XX e talvez o menos conhecido aqui. Ao contrário de Picasso e Andy Wharol, Matisse nunca teve uma grande exposição no Brasil. Mas não é a única. No total, serão cinco exposições ligadas ao Ano da França.

Quais serão as outras? Uma tratará das relações do Fernand Léger com o Brasil. Outra será uma grande mostra que junta três fotógrafos franceses contemporâneos, três brasileiros e três grandes do século XX que moraram no Brasil – Pierre Verger, Marcel Gautherot e Jean Manzon. E, nesse grupo, vamos colocar também um pouco da produção de Claude Lévi-Strauss. A mostra, para a qual ainda não definimos um nome, abre já no dia 5 de abril. No final do ano, teremos uma do Hércules Florence. E a última será para instalações de arte contemporânea francesa.

O sr. acha satisfatório o atual ritmo de mostras? Quantas foram feitas no ano passado? Fizemos, no ano passado, 43 exposições temporárias, que foram vistas, em média, por 45 mil pessoas a cada mês. Esse ano, vamos ter pequena redução e chegar, provavelmente, a 35 mostras.

Os artistas que fazem grafite estão saindo das ruas e entrando em museus, pelo mundo inteiro. O sr. acha bom? Acho essa produção, a street art, profundamente interessante. É um fenômeno mundial que em São Paulo tem uma força enorme. Temos artistas de extrema qualidade que trabalham esses espaços urbanos para a sua criação. Acho que há sempre um risco quando se faz a transposição desse tipo de linguagem e intervenção para espaços fechados, como um museu. Mas essa produção é riquíssima. Por sinal, toda a produção de arte brasileira contemporânea é fascinante.

Como nasceu a ideia do Memorial da Resistência? É uma instituição dentro da Estação Pinacoteca. No final de 2006, quando o governo o passou para nossa gestão, desenvolvemos um projeto com o Fórum Permanente dos Ex-presos e Perseguidos. Mudamos o nome de Memorial da Liberdade para Memorial da Resistência e elaboramos o projeto musicológico. O que tínhamos era o espaço vazio e o arquivo do DOPS. Para nós era importante a visão e a memória de quem ficou preso.

Você concorda quando dizem que o brasileiro não tem memória? Não. Eu acho que a questão da memória é muito complexa em todos os países. Do ponto de vista pessoal, e até social , é uma busca difícil. É claro que o Brasil é um país novo e São Paulo uma cidade que cresce numa velocidade selvagem. O nosso equilíbrio psicológico está justamente na capacidade de articular o esquecer e o lembrar. Isso traz para a questão social da memória um desafio muito grande.

E qual é o papel do Memorial na conservação dessa memória? O que se espera é que o Memorial da Resistência, ativando essas memórias, ajude a impedir que tais situações se repitam. Os Dops representaram o controle do cidadão pelo Estado. E esse fenômeno não é tão distante – basta lembrar o caso dos grampos, que tornam muito pertinente essa discussão.

Como faz a Pinacoteca para conseguir dinheiro? A gente recorre a todos os recursos possíveis. Entramos em editais de empresas públicas federais e de órgãos do Ministério da Cultura, onde temos angariado apoios bem importantes. Por exemplo, com uma verba que conseguimos no edital do BNDES estamos aprimorando as instalações de segurança do Museu. Além disso, temos as três leis de incentivo: a municipal, a estadual e a federal, que é a Lei Rouanet. Dos recursos que a gente consegue captar, praticamente 85% chegam via Lei Rouanet. E temos alguns poucos recursos que não são incentivados, que são doações.

Qual o maior desafio para a Pinacoteca em 2009? Do ponto de vista conceitual, a grande função de um museu na sociedade contemporânea é estar presente, ter um papel atuante na sociedade. É o que a gente chama de alfabetização visual. Ou seja, trabalhar com a população a ideia de que o que existe dentro de um museu é um patrimônio – ou seja, um bem público. Partindo disso, o maior desafio é fazer com que o processo museológico, que é extremamente complexo, possa caminhar como um todo. Desde as questões pontuais, como conseguir verba de patrocínio para os nossos projetos, até ampliar os nossos edifícios.

MARILIA NEUSTEIN

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