A obsessão de Haddad

Sonia Racy

26 de junho de 2015 | 01h12

A discussão sobre a Lei de Zoneamento está longe do fim. Mas, anteontem, para uma seleta plateia de 50 pessoas, na Casa do Saber, em pleno Itaim Bibi, Haddad defendeu a proposta que libera vias de bairros vizinhos dali, como os Jardins, para exploração comercial – para revolta dos moradores, que já se organizam para entrar com ações judiciais contra a Prefeitura. “Estou muito seguro em relação à legislação urbanística que estamos desenvolvendo. Respeito qualquer discussão, mas estamos presos a um detalhe. São pouquíssimas vias que vão admitir comércio além das atuais, três ou quatro na cidade toda.”
 
Puxa pela memória a sua infância no Planalto Paulista para garantir que essas ruas não vão alterar a tranquilidade dos bairros. “Quando permitimos um bistrô na Avenida Indianópolis – que conheço bem, porque nasci e cresci lá -, estamos pensando em dar vida noturna àquela via, que tem caminhado em um padrão de degradação.” Haddad admitiu que, depois das faixas exclusivas para os ônibus e das ciclovias, sua obsessão é tirar o Ceagesp da Vila Leopoldina. “Ele se tornou um obstáculo para que o desenvolvimento de São Paulo volte ao centro da cidade. É fundamental destravar aquela esquina.” A ideia é levá-lo, possivelmente, para uma área próxima ao Rodoanel – o que facilitaria tanto o transporte de alimentos como o trânsito, tirando caminhões das marginais. “Para que as pessoas deixem de ir para cada vez mais longe de seu local de trabalho.”
 
“Costumamos reclamar de ficar meia hora no trânsito, mas não temos ideia do que a população passa. Estou falando de gente que fica três horas em um ônibus ou metrô para chegar no trabalho. É muito sofrido. Sobretudo para as mulheres, que ainda sofrem assédio.” Suas propostas, defendeu ele, têm como objetivo “corrigir distorções”, mas “a mudança de cultura é difícil.” Está falando das ciclovias?, perguntou o mediador Celso Loducca. “Ainda sofro com isso. Todo mundo liga reclamando, até parente”, respondeu, para risos da plateia. “Eu digo: olha, sinto muito, mas a ciclovia vai passar aí.” Lembrou de uma conversa em que o prefeito de Bogotá lhe disse que levou seis anos para a população se acostumar. “Se isso acontecer aqui, estou frito.” /THAIS ARBEX