A noite de Gonzaguinha: prêmios, política e… otimismo

Sonia Racy

24 de junho de 2016 | 00h53

Foi uma noite de emoções a homenagem a Gonzaguinha no 27.º Prêmio da Música Brasileira, anteontem no Teatro Municipal, no Rio. O encontro musical de Amora Pêra com Daniel e Fernanda Gonzaga, todos filhos de Gonzaguinha, foi um dos pontos altos – e a ele se somou Júlio Andrade interpretando o homenageado, como já fez no longa Gonzaga – De Pai pra Filho.

Mas, além da enxurrada de premiados, a noite teve seus momentos de política. A atriz Dira Paes, que apresentou o prêmio, mencionou no palco os tempos vividos por Gonzaguinha na ditadura militar, de “muita indefinição”, e arriscou uma comparação: “Qualquer semelhança com o que vivemos hoje…” – o que estimulou, na plateia, gritos de “Fora Temer”. Pouco depois, Criolo cantava Comportamento Geral e inseriu um texto em que dizia que racismo, homofobia e machismo estão “matando geral e não tá legal”. Foi aplaudido de pé.

Os desafios do Rio, com Olimpíada e estado de calamidade pública, foram assunto para Ney Matogrosso. “Acho que deveria ter novas eleições, mas para votar em quem? Não tem ninguém”, dizia o cantor, que é adepto da adoção do parlamentarismo no País. Sobre os Jogos, foi enfático: “Quero estar bem longe daqui. Vamos passar mais uma vergonha”.

Alcione chegou já saudando João Bosco e Seu Jorge. “Deixa eu beijar esses dois homens!” À coluna, a Marrom defendeu a volta de Dilma e disse ver com otimismo a realização dos Jogos no Rio: “Temos que pensar que tudo vai dar certo”. Seu Jorge ressaltou, então, que muita gente desacreditava da Copa, “mas ela foi um sucesso, a não ser a seleção”. E, lembrando a eliminação da Copa América e a demissão do técnico Dunga, emendou: “A seleção e o futebol brasileiro vivem o reflexo da política abandonada e dos escândalos de corrupção da CBF”.

Com uma roupa preta de gola com estampa de onça, Angela Ro Ro comentava a coincidência entre o episódio da onça morta em Manaus e a passagem da tocha olímpica por lá. “Espero que não atirem em mim”, brincou. Sobre a crise econômica, foi direta: “Se eu que sou classe média senti os efeitos, imagina quem está abaixo. Deve estar pirando…”.

Em meio à polêmica causada por um post feminista na internet que atacou seu disco – por ter sido produzido “por homens machistas” e em consequência sugeria um boicote, Elza Soares parecia abalada em seu camarim. Não quis comentar nada. “Estou muda. Está tudo muito confuso. A gente calada às vezes fala mais”.

Idealizador do prêmio, José Maurício Machline acompanhava a chegada dos convidados ao Municipal, sempre muito cumprimentado. Entre um beijo e outro, analisava a realização em tempos de crise. “É um momento conturbado, mas o prêmio segue forte, em prol de quem faz música no Brasil”. Diga-se de passagem, apoiado pelo Banco do Brasil.

Sem festa oficial depois da cerimônia – reflexo da situação –, Machline recebeu poucos em sua casa. Mas teve after também no apartamento de Paula Lavigne, que comemorou os prêmios de melhor álbum (Dois Amigos, Um Século de Música), cantor (Caetano Veloso) e grupo (Dônica, banda que tem o caçula do cantor, Tom Veloso, entre os integrantes). / PEDRO HENRIQUE FRANÇA 

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