‘A moda deixou de ser protagonista do consumo’. diz Paulo Borges, da SPFW

‘A moda deixou de ser protagonista do consumo’. diz Paulo Borges, da SPFW

Sonia Racy

23 de julho de 2018 | 01h00

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PAULO BORGES, DA SPFW. FOTO IARA MORSELLI /ESTADÃO


Idealizador da semana de moda paulistana antecipa
como será a SPFW  em Vila Leopoldina, diz que ‘o mundo
está precisando voltar a discutir criatividade
de maneira mais profunda’ e c
onta
como está adequando o evento ao ritmo da tecnologia
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Paulo Borges define os 22 anos de São Paulo Fashion Week como fim de um ciclo e início de outro – tanto para o evento, quanto para a moda. “São três ciclos, né, se a gente pensar em setênios, de 7 em 7 anos… Enfim, tenho muito essa coisa da antroposofia na minha vida”. E isso, adverte ele, não diz respeito apenas à venda da marca SPFW para o fundo IMM, de Abu Dhabi, que comprou 50,1% do evento.

A pergunta que não quer calar no mundo fashion é: o que muda com a venda? “Confesso que também estou um pouco curioso”, disse Paulo durante conversa com Sonia Racy e Sofia Patsch no Estadão. “Estamos em processo de mudança, integração. E estou feliz, porque é um grupo voltado para o business. É uma empresa internacional, isso é bacana, pois vai te conectando com outros mercados.”

Para a próxima edição, de 22 a 26 de outubro – entre o primeiro e o segundo turno das eleições –, o tema escolhido é a transposição. “Vamos revisitar os princípios dos conceitos criativos. Acho que o mundo está precisando voltar a discutir criatividade de maneira mais profunda”. Por isso, convidou a cenógrafa Daniela Thomas para assinar o evento, que passará a acontecer em uma antiga fábrica da Votorantim na Vila Leopoldina.

“É um bairro que está em transformação. Está acontecendo uma mudança urbana na região, uma ressignificação. Me lembra um pouco o que aconteceu em NY com o Brooklin”, diz Paulo.
Há duas edições o evento vem acompanhado do Projeto Estufa, voltado para a sustentabilidade. “Ele fala de futuro, de inovação, de novas formas de parceria, de novas formas de economia – colaborativa circular, afetiva, tudo isso que a gente vem discutindo”, conta Borges, ressaltando que na próxima edição o projeto vem mais forte. “A ideia é reforçar algo que sempre foi a alma do SPFW. Falávamos de sustentabilidade quando ninguém falava.” Confira entrevista a seguir.

A SPFW muda de mãos. O que muda nesse novo ciclo?
Ficamos 20 anos na Bienal do Ibirapuera, com as mudanças de datas do calendário de moda. Fomos para o Parque Villa Lobos, aí voltamos para a Bienal. Mas sempre ficávamos de olho em outros lugares da cidade. Para a próxima edição encontrei um uma antiga fábrica da Votorantim na Vila Leopoldina. É um galpão que tem 16 metros de pé direito, além de fácil acesso e com estacionamento.

O evento passa a acontecer lá a partir de agora?
A Vila Leopoldina é um bairro que está em transformação. A O2, do Fernando Meirelles, está naquela região, o Studio do Bob Wolfenson também, há vários outros estúdios ali, outras agências. Algumas empresas de moda estão indo para lá.

Acha que está acontecendo uma reocupação no bairro?
Exatamente. Ali era uma região de fábricas pesadas, grandes armazéns. É um bairro de fácil acesso pela Marginal de Pinheiros. Está acontecendo uma mudança urbana na região, uma ressignificação de um bairro. Me lembra um pouco o que aconteceu em NY, com o Brooklin.

Vai acontecer alguma mudança de conceito também?
Tem uma mudança de conceito, que é revisitar os princípios dos conceitos criativos. Acho que o mundo está precisando voltar a discutir criatividade de uma maneira mais profunda. Toda essa crise que estamos passando tem a ver com os valores de sociedade, não é só uma questão da criatividade, mas a gente está falando de política, de cultura, economia, Vários desses pilares se esgotaram.

Se você fosse resumir esse novo conceito, qual seria?
Transposição. Que é uma evolução, novo ciclo.

Isso tem a ver com a venda da marca SPFW para a IMM?
Coincide. Mas já estava decidido antes deles. Muita gente vai achar que teve a ver com a entrada deles sim, mas é coincidência.

Pode dizer o que muda, basicamente, com essa nova administração?
Confesso que estou um pouco curioso também. Estamos em processo de mudança, de integração. E estou feliz, porque é um grupo voltado para o business. É uma empresa internacional, isso é bacana, porque isso vai te conectando com outros mercados. Eles têm parcerias internacionais importantes, como o Cirque du Soleil em toda América do Sul, o Rio Open, o Taste, que é um evento de gastronomia inglês, o UFC.

É um fundo de Abu Dhabi, não?
Sim, um fundo de Abu Dhabi.

Era uma empresa pertencente ao Eike Batista, a IMX?
Não, esse fundo soberano tinha investido em muitas coisas do Eike, e quando ele faliu eles ficaram com as coisas dele. IM é da IMG, dos americanos, que tem também a semana de moda de NY.

Mas você continua à frente do negócio?
Continuo. E o legal é que a cultura da IMM é que cada projeto tenha um líder. Então, o que é que eu estou ganhando com isso? Uma estrutura. A minha empresa tinha 25 pessoas, hoje ela tem cento e tantas, só na área de marketing são 10. Estou com várias estruturas que nunca tive. Sempre fui eu ali, na alta costura, no ateliê fazendo as coisas e agora a gente vai ter uma estrutura maior.

O ‘see now buy now’ mais ajuda ou atrapalha o evento?
O ‘see now buy now’ não existe mais. Primeiro, foi um erro o nome, né? O fato é que o modelo do ‘see now buy now’ é diferente para cada um, porque na moda, hoje, cada um tem um modelo de negócio. Antigamente havia dois modelos de negócio, ou você era grande ou era pequeno. Ou você era “mainstream” ou era alternativo. Não existe mais isso. Hoje você pode ter um ateliê e vender pra 10 lojas e ser um nome superimportante na moda. Isso voltou a ser viável e possível.

Por causa da internet?
Por causa da internet. Aí sim, por causa da internet. Porque isso muda a sua relação com o cliente, muda a relação com o produto, com a velocidade.

Hoje, com o mundo globalizado, o calendário não se baseia mais em inverno e verão e isso mudou a forma de pensar uma semana de moda, não?
“Semana da moda” passa a ideia de uma coisa velha. Deixou de ser importante. Mais importante é a notícia que você está dando, da maneira como está dando. O desfile hoje não é mais desfile para jornalistas e compradores, ele é um desfile para o mundo.

E é um show também?
É um show. Porque o único lugar onde você faz conteúdo que não é anúncio, que não é uma publicidade… é na hora do desfile.

Mesmo com toda essa velocidade que a internet trouxe para a moda, vemos cada vez mais surgirem movimentos contrários, como slow fashion. Como vê essa tendência?
Essa é uma outra questão. O slow fashion, todo o processo de revisitar o tempo das coisas, está acontecendo. É por isso que esses modelos de moda hoje não estão fazendo muito sentido, porque você pode ter um ateliê, pode fazer sob encomenda, pode ter uma loja e vender pra 10 marcas, multimarcas importantes, fazer só coisas sustentáveis… Tem todos esses modelos de negócio ressurgindo. É por isso que a gente fala que este é um novo ciclo, uma transposição. Porque você vai pegar tudo que viveu e reorganizar pra um ‘futuro de curto prazo’.

Vocês pretendem se internacionalizar?
Sim. O que a gente pretende nesse momento é implantar esse novo ciclo, que acredito ser o mais importante. Acho que o Brasil sofreu muito nestes últimos três anos, todos os negócios sofreram, a moda sofreu – porque ela deixou de ser protagonista de consumo. A tecnologia tomou esse lugar dela, e a moda teve de se reinventar, como ela está fazendo no mundo inteiro. Acho que temos que aproveitar o momento e colocar esses novos caminhos. Daí, junto com o São Paulo Fashion Week estamos com o projeto Estufa.

O que é o projeto Estufa?
Ele fala de futuro, de inovação, de novas formas de parceria, novas formas de economia – a economia colaborativa circular, afetiva, tudo isso que a gente vem discutindo. A ideia é reforçar uma coisa que sempre foi a alma do São Paulo Fashion Week. Falávamos de sustentabilidade quando ninguém falava. Teve uma edição cujo slogan era: “Fecha a torneira que vai faltar água, apaga a luz que não vai ter energia. Consuma de maneira consciente”. Dentro da semana de moda.

Uma coisa de que se falou muito na edição passada, quando anunciaram a venda, foi que começariam a cobrar ingresso. Isso procede?
Não faz sentido. Primeiro, porque não cabe na sala. Segundo, não é algo rentável para um evento do tamanho do SPFW cobrar 500 ingressos por desfile. Agora, o que estamos estudando são experiências que já acontecem em Londres, que é o pós evento. A pessoa vai lá, paga o ingresso e participa de várias atrações, como palestras, com estilistas, pensadores.