‘A Juma não me define’, diz Cristiana Oliveira ao lançar autobiografia

‘A Juma não me define’, diz Cristiana Oliveira ao lançar autobiografia

Direto da Fonte

04 de julho de 2022 | 00h30

Cristiana Oliveira. Foto: Jonathan Giuliani

Cristiana Oliveira. Foto: Jonathan Giuliani

No ano em que estreou o remake da novela Pantanal, sucesso dos anos 1990, Cristiana Oliveira, que ficou conhecida nacionalmente e internacionalmente por ter interpretado Juma – protagonista feminina da história – lança sua autobiografia, “Cristiana Oliveira: Versões de Uma Vida”, na qual conta como viveu por anos sendo uma pessoa insegura e sem autoestima, mesmo com todos os aplausos do mundo.

Com 58 anos “bem vividos” e superada a crise de identidade, Krika – seu apelido de infância – hoje aborda sua trajetória até o autoconhecimento e aceitação em palestras pelo País.

Além de atriz e palestrante, Cristiana é ativista da causa ambiental, com foco na preservação do Pantanal, é claro. “Sou ativa, ativista mesmo, não só voz, mas ação, participo, faço expedições, sou uma pessoa que me preocupo demais com a biodiversidade”, contou à repórter Sofia Patsch, durante almoço no restaurante Così, nos Jardins. Confira os melhores momentos da conversa a seguir.

Com o lançamento do remake de Pantanal deve estar sendo muito procurada.

Obviamente as pessoas começaram a me procurar, foi aquele barulho em 1990. E coincidiu de estar terminando de escrever minha biografia. Aí pensei, bom, já que as pessoas estão abordando essa questão toda do remake de Pantanal, vou aproveitar a visibilidade para lançar meu livro, que aborda questões positivas para as pessoas. Porque senão, só falaria da Juma o tempo inteiro. A Juma não me define como pessoa, a respeito, entendo perfeitamente a demanda e a procura das pessoas falando dela, mas tenho muitos outros trabalhos.

Quais questões aborda em sua biografia?

Nasci em 1963, sou a caçula de nove irmãos, sendo sete mulheres. Cresci na década de 70, era muito pequena e tal, mas passei por toda essa coisa do feminismo, liberdade, Woodstock. Cresci com essa ideologia feminista, mas, ao mesmo tempo era filha de uma mãe e de um pai machistas, não pro lado negativo, mas cultural, pela forma como foram educados, onde a mulher tinha que ser bonita, magra, aparentar ser jovem, escondia a idade, então era aquela coisa.

Sofreu muita cobrança de sua mãe?

Minha mãe era muito vaidosa, todo mundo muito vaidoso. E em um determinado momento da adolescência engordei horrores, cheguei a pesar 110 quilos e comecei a sofrer uma cobrança muito grande das minhas próprias irmãs, da minha própria mãe. O meu pai não, o meu pai não ligava, mas as mulheres da casa.

É, ainda hoje, as mulheres cobram certas posturas das próprias mulheres.

Com certeza, e isso mexeu com minha autoestima por muitos anos, por mais magra e bonita que estivesse, não conseguia me enxergar assim, mesmo com todo mundo falando. Teve um episódio que me marcou muito, fui bailarina e meu sonho era ser solista, como a Márcia Haydée dançar Tchaikovski, era um sonho de menina, tinha 13 anos.

E o que aconteceu?

Dançava muito bem, até que um dia uma professora falou: “pra você fazer um padedê (famosa postura do balé) vai ter que cortar os seus ossos, é muito pesada, vai derrubar seu parceiro”. Naquele momento me transformei em uma pessoa insegura. Na minha vida, em nenhum momento me achei bonita, boa ou competente. Mesmo nas melhores fases, com o Brasil inteiro babando, me achando a musa, a linda, eu ganhando dinheiro pra cacete. Mesmo nesses momentos, quando estava no meu quarto, entre quatro paredes, continuava a me achar uma porcaria de pessoa.

Hoje em dia tem um nome para esse sentimento, a “síndrome da impostora”, que é caracterizada por pessoas que têm tendência a achar que o sucesso atingido não foi merecido, é bastante comum, especialmente entre as mulheres.

Sim, na época não sabia, tive também a tal da “síndrome de Peter Pan”. Como perdi minha adolescência sendo gorda, fugindo de casa, conto esse episódio no livro, me recusei a crescer. Achava que era uma adolescente, mesmo já sendo mãe, casada, tinha problemas. Me comportava como uma pessoa mais nova, quando me olhava no espelho, com 27 anos, achava que tinha 18.

E quando foi que recuperou a autoestima e começou a se aceitar?

Foi aos 40 e poucos anos, falei: “Cristiana, chega, para, porque daqui pra frente você só vai sofrer”. Foi um processo longo, de autoconhecimento, de entender o que era para os outros, o que era pra mim, o que achava interessante, bacana na minha vida e o que estava fazendo pra agradar. E aí foi uma libertação, né, que é o que eu escrevo nesse livro. l

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