A jornada espiritual de Marina Abramovic pelo Brasil

Sonia Racy

10 de maio de 2016 | 01h19

Entre 2012 e 2015, Marina Abramovic mergulhou no que chama de “viagem de cura” percorrendo algumas regiões do Brasil e passando por rituais religiosos e espirituais. O resultado dessas experiências está detalhado no filme Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil, que estreia dia 19. Com fama de grande performer global, a artista sérvia conversou, por telefone, de NY, com a coluna. A seguir, os principais trechos da conversa.

O que a animou a vir ao Brasil conhecer esses rituais?
Nos últimos anos, tudo que aconteceu no mundo, principalmente as guerras, me afetou muito e fiquei interessada em processos de cura. Senti que precisava me curar. E o Brasil sempre me atraiu nesse sentido. Conheci grandes mestres e curandeiros e aprendi muito com eles durante esse filme.

No filme, você fala do significado dos rituais. Como foi o impacto dos que você conheceu, para  o seu trabalho?
Quando visito uma cultura diferente, não gosto de ser turista. Me interessa passar pelas experiências. No filme isso ficou bem claro, tive contato com pessoas que podiam me ensinar muito. E fiz disso o meu trabalho. Venho fazendo performances desde os anos 70. E para mim é importante ver a arte não como algo isolado, restrito a museus, e sim algo que alcance o grande público. Nesse sentido, a viagem foi um grande aprendizado.

No filme, uma entrevistada afirma que tudo é mistério. A arte também?
Eu não concordo com essa afirmação. Para mim, arte é conectada à vida e a vida é muito mais misteriosa. A arte é apenas um reflexo da vida.

Você passou por muitos rituais no filme. Teve medo de algo?
Sim, da ayahuasca. Foi a experiência mais aterrorizante da minha vida. Eu não uso drogas, nem bebo. Inclusive, um dos momentos mais profundos do meu trabalho é quando fico sem comer durante um bom tempo. Com a ayahuasca fiquei muito mal, principalmente porque a pessoa que estava comandando a cerimônia me deu duas porções. Acho que ele foi irresponsável. Eu só pensava em uma coisa: que aquilo acabasse. Nunca mais vou tomar.

Estamos passando por uma grande crise política no Brasil. Acha que a arte poderia ter um papel importante em momentos como este?
Sou mais interessada no cenário geral e global do que nos recortes específicos. Acredito que o mundo inteiro está passando por graves problemas. E questões de corrupção se repetem constantemente, não apenas no Brasil. Temos que nos perguntar: por que isso acontece? Poucos líderes foram positivos e refletiram a sociedade espiritualmente – como Gandhi e Nelson Mandela. Precisamos pensar em como fazer com que os líderes tenham a consciência pura para fazer algo bom para os outros. E não apenas para si mesmos. Precisamos desses líderes no comando dos países./ MARILIA NEUSTEIN