‘A ideia de que apoio ao paralímpico é só questão de inclusão já passou’

‘A ideia de que apoio ao paralímpico é só questão de inclusão já passou’

Sonia Racy

27 de junho de 2016 | 00h05

(Foto: Marcio Rodrigues)

(Foto: Marcio Rodrigues)

Ouro nos 200 metros em Londres em 2012,
o atleta paraense 
elogia o nível obtido por  paralímpicos
brasileiros,diz confiar em medalhas no Rio
e apoia punição dura ao doping
Uma das promessas do Brasil na Paralimpíada Rio 2016, Alan Fonteles está confiante. O corredor – que desbancou Oscar Pistorius em 2012 em Londres– enfrentou dificuldades com sua forma física nos últimos anos. Parte dessa trajetória está registrada no longa Para Todos, exibido em circuito nacional. Fonteles é um dos personagens que conduzem o filme – produzido pela Barry Company e pela Sala 12 e dirigido por Marcelo Mesquita –, que mostra o dia a dia e o desafio dos atletas paralímpicos de ponta no Brasil.
O atleta paraense teve as pernas amputadas – fruto de uma septicemia – com 21 dias de vida. Aos três anos começou a andar com próteses e aos oito já sabia que queria ser corredor. As dificuldades não eram poucas, mas ele nunca desistiu de competir. “A ideia de que apoiar um atleta paralímpico é uma questão de inclusão já passou. Isso mudou com a Paralimpíada de Londres”, disse ele em entrevista à repórter Marília Neustein., por telefone, depois de um treino.
“Praticamos esportes de alto rendimento e grande competitividade. Lógico, o esporte, em geral, é uma questão de inclusão, seja ele olímpico, paralímpico, tendo deficiência ou não”. Ontem, dias depois da conversa, sua análise se comprovou. Em competição no Rio, dois brasileiros bateram recordes mundiais – a velocista cega Jerusa Geber correu 100 metros em 12s12’ e o saltadora Silvania Costa conseguiu um salto de 5,34 metros.
Na polêmica sobre se o País tem uma boa estrutura para os Jogos, ele é otimista: “Acho que as obras estão quase todas prontas e tenho certeza de que vai ficar tudo OK e vai funcionar direitinho”. Abaixo, os principais trechos da conversa.
Teve algum tipo de incentivo no começo da carreira?
No início eu treinava com prótese de madeira, um modelo bem mais antigo ao qual eu me havia adaptado desde pequeno. Mas já existiam as próteses de fibra de carbono e eu não dispunha, para competir, da mesma tecnologia dos outros atletas. Em 2007 fiz minha primeira paralimpíada escolar organizada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro – que hoje é o maior evento esportivo de competição para atletas com deficiência no mundo. É onde o Brasil está preparando toda a sua base para o futuro e foi onde o meu atual técnico me viu correndo e disse ao coordenador do comitê: “Fica de olho nesse menino, que ele tem grandes chances de evoluir”. Em 2008 veio a minha grande realização. Começou com a vinda de patrocinadores e do governo do Pará, que foram atrás de uma prótese de fibra de carbono para corrida.
Como viveu aquele momento em que venceu, em 2012, em Londres? 
Foi um momento único ao qual todo atleta quer chegar. Ganhar uma medalha de ouro numa paralimpíada. Graças a Deus pude conquistá-la.
 
No filme, além de mostrar a sua vitória sobre Oscar Pistorius naquele ano, fica clara a rivalidade com o Richard Browne. Como encara essa questão?
Procuro não me preocupar muito. Não tenho amizade nem com o Pistorius nem com o Browne, e também não sei falar inglês. Na hora da corrida tento me preocupar só comigo mesmo. Não adianta a gente se preocupar com os outros atletas. Eles vão fazer o melhor deles e você tem que fazer o melhor também. E acho sempre bom ter adversários para saber quanto estão correndo.
Fala-se muito do preconceito contra os atletas paralímpicos. O filme mostra como vocês treinam e as dificuldades vividas por todos os atletas. Como lida com o preconceito? 
Nunca sofri preconceito. Acho que isso se deve ao fato de hoje eu já ser conhecido em minha cidade. Mas, claro, sei que ele existe e acho algo pequeno e triste. O filme mostra muito mais do que pessoas com deficiência. Mostra o que é o atleta com alguma deficiência indo atrás dos seus objetivos e, principalmente, participando de grandes competições. A ideia de que o apoio ao atleta paralímpico é uma questão de inclusão já passou. Isso mudou com a Paralimpíada de Londres. São esportes de alto rendimento e grande competitividade. Lógico, o esporte, em geral é uma questão de inclusão, seja olímpico, paralímpico, tendo deficiência ou não. Acho que as pessoas vão entender cada vez mais o que é o esporte paralímpico.
O Brasil mantém uma colocação muito boa na Paralimpíada, enquanto nos Jogos Olímpicos fica muito atrás. Acha que os atletas paralímpicos se dedicam mais? Como que é a questão do incentivo? Como explica isso?
No esporte olímpico tem uma prova de 100 metros, uma prova de 200, e assim por diante. Na prova paralímpica são várias classes. Aí fica a grande quantidade de medalhas. Mas porque o Brasil é uma potência paralímpica? É a questão do investimento, do acreditar. O esporte paralímpico vem fazendo um trabalho há muito tempo com a Paralimpíada escolar. E contamos com um centro de treinamento bem grande e equipado, em São Paulo, na Imigrantes. Mas ainda tem que crescer muito.
O que tem que melhorar?
Temos que acreditar na base, dar estrutura aos atletas, treinamento. A questão financeira é muito importante, claro. Mas o atleta tem que acreditar em si mesmo e dizer: “O meu país é uma potência no meu esporte. Quero fazer parte disso, deixar meu nome na história”. Eu quero deixar o meu nome na história.
 
Acha que a decretação de estado de calamidade no Rio pode atrapalhar a competição? 
Prefiro deixar isso para os órgãos competentes, que estão mais próximos. É lógico que, como atleta, acompanho um pouco e é de se lamentar muito. Mas tenho certeza de que vai ficar tudo pronto e a Paralimpíada e a Olimpíada vão acontecer da forma como aconteceram em outros países.
Mas a situação é bem diferente da dos outros países. 
Sim. Lógico que está sendo difícil. Infelizmente muitos perguntam se o Brasil estava preparado para sediar um evento de grande porte. Mas acho que as obras estão quase todas prontas e tenho certeza de que vai ficar tudo pronto e vai funcionar.
O filme mostra um pouco você superando as dificuldades com a sua forma física, peso, etc. Como está seu preparo no momento?

Eu estou num treino muito intenso. Agora é a etapa de lapidação, olhar o que está errado e o que precisa ajustar. A minha forma física vai se encaixando. Eu e meu técnico estamos fazendo um treino muito forte e ele não quer que eu chegue ao meu máximo nem antes e nem depois da Paralimpíada. Tenho um título a defender dentro do País.

Um assunto meio espinhoso para qualquer atleta é o doping. A delegação da Rússia não poderá participar dos Jogos Olímpicos por causa disso. Como você toma seus cuidados e o que acha desse controle pelo comitê organizador?

Eu tomo muito cuidado porque se um atleta de alto rendimento disser que treina sem ajuda de suplemento, não tem como. Então, estamos sujeitos a tudo. Por exemplo, quando você vai a uma farmácia ou a uma loja de suplemento está entregando a sua vida para aquele fornecedor. Então prefiro seguir uma linha de suplementos que venho tomando desde o início da carreira e já fiz diversos testes antidoping, Só esse ano já foram sete.
Acha que é preciso aumentar as punições? 
Acho uma coisa muito feia um atleta chegar ao ponto de se dopar para tentar ser melhor que os outros. Se ele não tem condição de ser melhor na sua forma normal, é porque não merece. O atleta que for pego tem que arcar com as consequências, ser banido do esporte. Na minha opinião tem que ser assim. Se não, fica muito fácil. O cara vai lá se dopa, a pena é de quatro anos mas se ele entregar quem estava no meio a pena vai se reduzindo. Então eu acho assim: se você foi pego, tem de ser banido do esporte.

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