‘A história de amor é a mais difícil’

‘A história de amor é a mais difícil’

Redação

01 de junho de 2009 | 07h43

Super premiado em 2008, Cristóvão Tezza já avança em novo romance, sobre um tema que considera ingrato e complicado

Cristóvão Tezza é um escritor que deu certo. Após vencer o desafio de transpor para o livro O Filho Eterno o drama de pai que tem um filho com Síndrome de Down, ele colhe os frutos do sucesso. “Minha dificuldade foi literária e não pessoal. Transformar esse tema, tão movediço e perigoso, sem descambar em sentimentalismo”.

Conseguiu. Conquistou público, crítica e os principais prêmios de literatura de 2008. Agora se divide entre os muitos convites para falar de si, de sua experiência, seu estilo e opinião. Entre eles, o do Festival da Mantiqueira, em que se sentou lado a lado, no final de semana, com os participantes do Prêmio São Paulo de Literatura do ano passado.

Foi em clima descontraído que o escritor falou à coluna de seus novos projetos, entre eles uma história de amor – para ele, “o tema mais comum e mais difícil do mundo”.

Você ganhou os principais prêmios de literatura no ano passado. Esperava que O Filho Eterno tivesse essa repercussão? Apesar de esperar alguma repercussão pelo tema, não imaginava esse impacto. Confesso que fiquei bagunçado. E não estou escrevendo nada, vivo só de fama (risos).

Qual o próximo projeto? Quero me acalmar para terminar meu novo romance. Comecei há um ano e meio mas parei completamente. Para escrever, preciso de um certo ócio.

E já existe a história? Quero um livro com a intensidade emocional de O Filho Eterno, mas com uma história de amor. Que é o tema mais difícil do mundo.

Por quê? Porque é o mais comum. Escrever uma história de amor com uma intensidade, um toque singular, é muito difícil.

Como um escritor enfrenta a reforma ortográfica ? Ela atinge o trabalho diretamente, quais são as adaptações necessárias ? As pessoas estão dando a isso uma importância demasiada. É um gesto político de unificação de grafias. A escrita é uma convenção de Estado. Que simbolicamente une os países lusófonos, já que na vida real há muitas diferenças. Entretanto, não me afeta em nada. Como professor, tenho a preocupação de explicar isso aos alunos. É uma reforma muito tímida e formal, de importância simbólica.

Como professor, qual a sua visão sobre a leitura no País ? O brasileiro passou a ler mais do que no passado? Que o brasileiro lê pouco, é evidente. O País se alfabetizou muito tardiamente. Temos uma longa viagem educacional para realizar, até as pessoas entenderem que o livro é um valor social. Entretanto, acho que a era da televisão, que afastou as pessoas da leitura, está no fim. Agora temos a internet, que favorece a leitura.

Em que sentido? A era da internet é a era da escrita. A circulação da informação é absolutamente fantástica. A literatura, no Brasil, nunca foi tão comentada na mídia como agora. E isso se deve à internet, aos blogs e discussões. É claro que existe aquele preconceito de que na internet está tudo escrito errado. É uma bobagem, porque se trata de uma massa de gente que não escrevia antes e, com o acesso à informação, passou a escrever. A literatura é o espaço fundamental da palavra.

Você diz que não dá pra viver só de literatura no Brasil. Mas esse mercado não está em ascensão? Não é só aqui, é no mundo todo. Viver de direito autoral é quase impossível. Mas você pode viver de escrever. Tem um pacote de eventos, traduções, transcrições. Eu, por exemplo, vou a muitos debates literários. Fui para Mantiqueira, a Flip… Isso já começa a ser trabalho remunerado. Não é mais como antigamente, quando o escritor era um sacerdote que fazia tudo de graça. Sou otimista. Mas dizem que o otimismo não é um fruto da razão, e sim um gene que já nasce com a gente (risos).

Os leitores lhe escrevem? Antigamente eu recebia uma ou outra carta. Com e-mail e a repercussão do livro, recebo quase todo dia. É uma troca legal, faz bem ao ego do escritor. Alguns e-mails são muito tocantes, sabe?

E falando em ego, como você lida com a vaidade? É de se pensar. Há uma desproporção entre a importância da literatura e o ego do autor (risos). Um escritor não tem, nem de longe, a presença social de qualquer banda de garagem. No meu caso, fiquei feliz de só ficar conhecido depois dos 50 – já não me deslumbro com nada.

Quais as suas grandes influências na literatura? Influências são difíceis de localizar. Mas há famílias de escritores marcantes na minha vida. Por exemplo, a prosa de Graciliano Ramos e a poesia de Drummond. Só esses dois nomes já me colocam na linha literária de um tipo de realismo urbano.

Como foi a experiência de contar a relação com seu filho no livro? Foi uma viagem literária perigosa. Nunca tinha pensado em escrever essa história. Só muito tardiamente resolvi enfrentar. E o meu desafio não era propriamente pessoal, mas literário: como transformar esse tema, tão movediço e perigoso, sem descambar em sentimentalismo, autoajuda. Fazer disso boa literatura.

Já tem gente interessada em transformar o livro em filme? Sim. Dois grupos já procuraram a editora. Um interessado em cinema e outro em teatro. Acho bacana, são linguagens bem diferentes.

Há um projeto de reforma da Lei Rouanet em andamento. Como vê o espaço que a literatura tem na lei? São projetos interessantes. Certa vez também ganhei uma bolsa para escrever um livro. São portas de entrada, mas não acho que o Estado deva subsidiar livros ou escritores.

E os nossos novos escritores? Há espaço para eles? Sim. Está fermentando nesses últimos anos uma nova geração de escritores que o País certamente vão perceber em breve. O Estado não produz literatura. Pode dar estímulos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: