‘A grande censura é hipócrita, quer que as pessoas sejam oprimidas’

‘A grande censura é hipócrita, quer que as pessoas sejam oprimidas’

Sonia Racy

27 de abril de 2015 | 01h00

Prestes a estrear na série Amorteamo no papel de Arlinda, atriz comenta sua fama de politizada, fala sobre sua experiência no MST e a polêmica do beijo gay em Babilônia.

 

Não é apenas por sua carreira de atriz e seus trabalhos na TV, cinema e teatro que Letícia Sabatella é conhecida. Ativista dos direitos humanos, já chegou a ler carta no Senado contra o trabalho escravo, dirigiu um documentário sobre a tribo indígena Krahô e participou de alguns encontros do MST. Mesmo assim, prefere fugir do rótulo de atriz politizada. Prestes a encarnar Arlinda na série Amorteamo, que estreia em maio na Globo –, Letícia diz estar entusiasmada com a escola estética escolhida para a produção: o expressionismo.

 

No entanto, ela não se empenhou em nenhuma preparação específica para o papel – apenas usou referências que já conhecia e indicações da direção. “O roteiro é muito bom, é jocoso, tem uma exacerbação das formas. E na interpretação também aparecem essas distorções”, diz.

 

A política, no entanto, não ficou de fora, na conversa da atriz com a coluna, no Parque Lage, semana passada. Indagada sobre o que acha das manifestações de rua dos últimos tempos, a atriz – que desmentiu a participação em um vídeo usado para apoiar o protesto do dia 15 de março – afirmou que não acredita nesse movimento: “Tem muita gente entrando nessa ‘vibe’ de ‘inocente útil’. É como eu vejo. Mas claro que tem pelo que se lutar, como uma reforma política urgente.”

 

Na mesma seara, a atriz deu sua opinião sobre o polêmico beijo gay da novela Babilônia: “É um boicote fundamentalista. Se conseguissem resistir a essa reação tão raivosa, imediatista, conseguiriam trazer uma reflexão, porque as mudanças acontecem assim”. Abaixo os melhores trechos da entrevista.

 

Como é Arlinda, sua personagem em Amorteamo?

Ela é uma mulher adúltera, vítima de um ciúme opressor do marido. É romântica, amante. O que é bonito nessa série é que tudo é luz e sombra. Eles pegam isso do expressionismo e levam à essência mais filosófica do ser. Então, são bacanas as viradas de roteiro. As armadilhas do ego de qualquer um. Alguém muito crédulo da sua convicção pode passar a exercer aquilo que combate. O oprimido passar a ser o opressor. É morte, amor, vira um melodrama. O roteiro é muito bom, é jocoso, tem uma exacerbação das formas. E na interpretação também aparecem essas distorções. Arlinda é uma heroína, é trágica, é melodramática.

 

Acredita que todas as mulheres têm um pouco disso?

Não gosto de generalizar. Na série estamos datando. Hoje temos uma mulher contemporânea muito pragmática, objetiva, menos melodramática. Mas temos o direito de exercer nossos momentos, diante de uma barata (risos), de mostrar nossos limites. Às vezes eles vêm avassaladoramente declarados. Um ataque de TPM, por exemplo. Mas acho que é tão múltiplo tudo, não é?

 

Acha que fazer dramaturgia em televisão está agora mais interessante?

Muito interessante. Sempre fiz muitas oficinas por fora, cursos. Fui me “pós-graduando”. No entanto vejo, hoje, na Globo – onde eu trabalho há tanto tempo – eles oferecerem isso para os novos atores que são contratados. Tem uma gestão nova muito aberta para investir em dramaturgia, leituras dramáticas, oficinas. Cada vez mais existem pessoas lá dentro que são poetas, grandes artistas, com muito conhecimento. E com uma estrutura bacana de condições de trabalho. O que a gente gostaria é de ter mais tempo, como nas séries americanas. Mas acho que estamos caminhando para isso.

 

Você acompanha as séries americanas?

Tenho que confessar que vejo pouca televisão e não consigo ficar assistindo muito tempo a mesma coisa. Tenho que partir para outra… É uma coisa de personalidade mesmo. Mas estou trazendo meus pais para morar no Rio e, por enquanto, está todo mundo na minha casa. E, às vezes, ligo a TV só para dar uma unidade. Porque cada um tem um pensamento interno forte. Então, sabe, vamos ver um pouco do Fantástico.

 

Você já afirmou que não gosta do rótulo de atriz politizada. 

Única, né? Acho que a gente deveria banalizar mais essa politização. Deveria fazer mais parte.

 

Mas você já foi ao Congresso algumas vezes para acompanhar votações de temas importantes.

Fui, muitas vezes.

 

Acredita que falta participação política dos cidadãos no Brasil? Que muita gente vota, depois esquece e reclama na internet? 

Acho que são duas coisas. Tanto se pensar na educação como formação de cidadania, quanto o cidadão se arrogar o direito de cidadania. Hoje se investe em educação pensando em uma formação tecnocrática. A meu ver –e vou falar uma coisa polêmica, porque sou a favor de se investir em educação, mais do que em prisões –o lugar da escola vai ficando obsoleto, uma vez que você tem tantas informações pela internet e todo mundo pode se informar. Então, escolas conteudistas não têm sentido para mim, a não ser que sejam lugares de reflexão para o exercício da cidadania, de formação de pensamento, de autoconhecimento. Muito mais do que “socação de conteúdo” para passar no vestibular. Existe um engano fomentado em relação a essa formação.

 

De todas as questões que estão em pauta hoje, o que mais a incomoda no Brasil? 

A gente não ter conseguido fazer a reforma política. É muito importante preservar o cerrado, a floresta, a língua do povo através do meio ambiente dele, preservar o exercício de cidadania e fazer a reforma agrária. Ter condições de pensar políticas que não sejam centralizadoras de poder, coronelistas. Políticas que sejam descentralizadoras, empoderadoras do cidadão. Tudo que empodere o cidadão é necessário. Por isso a reforma política. Você vai trabalhar como o mundo pede hoje: em rede. Não nessa hierarquia que sempre vai trazer a base de pirâmide mais alienada, isenta de condições de reflexão.

 

Você teve uma experiência no Movimento dos Sem Terra. Como chegou a eles e o que achou?

Foi profundamente emocionante. Eu conhecia alguns projetos, participei de alguns encontros vendo o trabalho do Augusto Boal, o Frei Betto. Fui conhecendo as aflições que passava o homem que trabalhava no campo: o trabalho escravo, a prostituição infantil, a desvalorização da cultura rural. Eu tinha uma afinidade filosófica com esse princípio de retorno à terra, de produção de um alimento saudável. E vi isso lá.

 

De que forma? 

Famílias desestruturadas que iriam se perder em uma favela, em condições desumanas de existência, identificando-se com um movimento que busca a organização e a formação de cidadãos. Em muitos lugares vi iniciativas exemplares. Que existem coisas erradas e idiossincrasias, existem. Acho que ouvimos uma repercussão mais negativa do que realmente é. Existem contradições, como em qualquer lugar, mas há uma grande necessidade de existência de um movimento organizado contra a pobreza. Quando falamos de reforma agrária e justiça no campo, estamos falando de qualidade de vida na cidade, com certeza.

 

O que acha das manifestações que hoje ocorrem no País?

Não participei dessas manifestações pró-impeachment. Acho que é uma manipulação extremamente errônea de uma necessidade de mudança. Temos pelo que protestar, com certeza. Mas não se está consciente da necessidade disso. E existe uma sombra coletiva terrível, racista, fascista, homofóbica, egoísta nesse estilo de manifestação que está acontecendo. Tem muita gente entrando nessa “vibe” de “inocente útil”. É como eu vejo. Mas claro que tem pelo que se lutar. Por exemplo, uma reforma política urgente.

 

Por falar em homofobia, o que acha da repercussão do beijo gay da novela Babilônia? Como artista, como vê a reação do público? 

Pesada. É um boicote fundamentalista. É deprimente, porque a novela das oito é sempre o carro chefe da Globo. Se conseguissem resistir a essa reação tão raivosa, imediatista, conseguiriam trazer uma reflexão, porque as mudanças acontecem assim. Mas é uma grande tristeza ainda existir homofobia. A não aceitação do amor verdadeiro como ele acontece, a busca da felicidade legítima. A grande censura é hipócrita. Ela quer que as pessoas finjam o que não são, que sejam oprimidas mesmo. É muito lamentável.

 

Você também já foi vítima de “haters” na internet em um episódio pessoal. (A atriz teve uma foto vazada, em novembro, na qual aparece deitada no chão de um estacionamento após uma noite com amigos). A reação das pessoas a assustou? 

Foi engraçado. Foi uma distorção da realidade. Não fiquei assustada, porque estava ocupada, fazendo peça e show. Vi no meio das viagens, alguma coisa sobre uma foto que tinha vazado. Não dei muita importância, as pessoas ficaram preocupadas com a minha saúde. Então escrevi no meu Facebook o que tinha acontecido. E isso acabou mobilizando um monte de gente. Viraram duas páginas: “deitaço”, “quero deitar com Letícia Sabatella no asfalto”. Virou um movimento, uma performance coletiva, um show em Brasília em que deitamos no chão. Foi engraçado.

 

Você acha que foi uma abordagem machista? 

Não. Mas as reações foram diferentes e teve uma moça de um grupo de feministas que pegou por esse lado do machismo. Eu vi como uma coisa moralista mesmo.

 

Você fala sempre muito em buscar o equilíbrio. Como faz para consegui-lo? 

Meu equilíbrio é beeeeem dinâmico (risos). Varia muito.

 

Como uma mulher natural, o que acha de o Brasil estar entre os países onde mais se faz cirurgia plástica no mundo? 

Há fases que eu penso em plástica e outras em que relaxo. Estou cada vez mais relaxada porque acho bonito aquilo que é marcado pelo tempo, oxidado. Tenho me empenhado atualmente em ver meu padrão de estética se transformando. E é legal. É como comer espinafre na infância, você passa a gostar. Acho muito delicado mexer – buscando um rejuvenescimento pelo esticar, pelo preencher – e criar um padrão de rosto. Entendo que a estética da ruga, do oxidado, tem a sua vivência, sua história. E eu gosto de histórias. Elas dizem e representam coisas. Precisamos disso. Às vezes dá uma tentação, mas ainda é cedo para fazer alguma coisa e tenho visto com olhos cada vez mais adaptados a minha mudança.

 

Você já dirigiu um documentário sobre a tribo indígena Krahô. Há algum outro assunto que desperte seu interesse em voltar a dirigir?

Outro dia me deu vontade. Fiquei sabendo de uma cidadezinha que fica no Rio Grande do Norte que tinha um índice de criminalidade abaixo de zero. E o delegado desconfiou de uma muda de planta que havia no quintal de todos os moradores. Ele descobriu que era maconha. E a cidade agora está toda ameaçada de prisão. Isso é O Alienista, de Machado de Assis! Fiquei com vontade de que fizessem um filme. Sugeri até para amigos. Porque isso explica a história do crime também. A indústria. As coisa têm que ser ilegais, parece que tem que criminalizar.

/MARILIA NEUSTEIN

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