‘A escolinha não foi um programa de humor, foi um programa de amor’

‘A escolinha não foi um programa de humor, foi um programa de amor’

Sonia Racy

21 de dezembro de 2015 | 02h00

Bruno-MazzeoO ator Bruno Mazzeo, que revive na Globo o ‘Professor Raimundo’,
papel que eternizou seu pai Chico Anysio, diz de que forma
enfrenta esse desafio e explica o que lhe interessa no humor
A carreira de Bruno Mazzeo começou cedo. Aos 14 anos já escrevia esquetes para A Escolinha do Professor Raimundo, da qual seu pai, Chico Anysio, era protagonista. Aos 21, começou a roteirizar para um sucesso cômico da Globo, o Sai de Baixo. A partir daí, nunca mais parou. Hoje, tocando projetos paralelos, ele se divide entre o roteiro de uma série para o canal, um papel na novela das nove, um longa metragem e seu maior desafio “afetivo” até agora: encarnar o Professor Raimundo no remake da Escolinha que está no ar na Globo.
Reticente ao convite, no início, o ator e escritor acabou aceitando o papel depois de conversar com amigos. “Passavam vários filmes na minha cabeça, como por exemplo, quando eu ia ver o meu pai, eu pequeno na gravação”, revelou em entrevista à repórter Marilia Neustein, durante passagem por SP.
Apesar de toda a carga afetiva por desempenhar o papel, o Professor Raimundo não é o seu personagem favorito entre os que marcaram o trabalho de seu pai. Ele prefere o Justo Veríssimo, um político corrupto: “Ele seria aliado do Eduardo Cunha, do Renan Calheiros e do Jader Barbalho, entendeu? Nada mais atual do que o Justo Veríssimo. Acho que esse personagem é uma preciosidade. Justamente por escancarar essa crítica”.
Humor e crítica, aliás, andam juntos, segundo Mazzeo. “Para mim, essa é uma das funções do humor: chamar a atenção para o que está errado, denunciar”. A seguir, os melhores trechos da entrevista.
Você teve dúvidas quando recebeu o convite?
Sim. Eu estava em Boipeba, na Bahia, dentro da água, e uma das diretoras do canal Viva me fez a proposta. No primeiro momento bateu aquela dúvida: será que eu quero mexer nisso? Hoje em dia todo mundo é tão julgado o tempo inteiro, será que eu quero entrar nesse julgamento? Será que eu vou saber fazer? Mas pensei, conversei com pessoas em volta e vi que eu tinha que fazer mesmo. Sempre encarando como uma homenagem.
É um trabalho de forte memória afetiva. A partir do ‘sim’, quais foram os passos seguintes?
Eu topei e, a partir disso, procurei esquecer, pois quando eu pensava ficava em pânico. Envolve muita coisa. Eu gosto muito de um bom desafio, sair do lugar comum, mas esse – em específico – “mexe qualquer coisa dentro doida…”. Quando chegou mais perto foi que eu comecei a me envolver um pouco. Mas eu nunca estudei, não revi os vídeos, nada.
Por quê ? 
Porque, se eu ficasse remexendo, poderia ser muito mais difícil. Nesse processo passaram “muitos filmes” na cabeça. Como, por exemplo: eu indo, ainda pequeno, ver meu pai nas gravações – e meu filho também foi me ver. Eu vestido de Professor Raimundo… No fim, foi bem curioso porque todo mundo que estava envolvido entrou na mesma onda. Para todos aquilo tinha uma história afetiva, uma recordação, os que trabalharam com o meu pai, os que eram crianças e viam, o Lucinho (Mauro Filho) também representando o pai… Foi uma coisa emocionante. Eu tenho dito assim: aquilo não foi um programa de humor, foi um programa de amor, sabe?
A Cininha de Paula, diretora, chegou, algumas vezes, a chamá-lo de Chico Anysio durante as gravações…
Foi. Eu entendi que era quase força do hábito… Tudo muito louco. Acho que ele (Chico Anysio) esteve ali comigo. Deu uma participada, mandou uns recados fortes. A Cininha dirigiu a escolinha. Foram muitos anos e ela sempre muito próxima do meu pai. Então acho que é meio natural. Foi como um pai que tem muitos filhos e confunde os nomes.
E qual foi sua maior preocupação nessa construção?
Eu fiquei tentando desencanar. Deixar de lado a preocupação sobre se as pessoas iam me julgar, se eu estaria tentando imitar… Quando fiz a prova do figurino e percebi o quanto aquilo era diferente pra todos ali, percebi como era algo bonito. Eu disse: “Bom, é isso. Estou homenageando meu pai, fazendo o melhor que eu posso, com todo amor com que posso fazer. E, nesse caso, o resto realmente é o resto, sabe?
Você já disse que a coisa mais preciosa do humor é a crítica.
Sim. Acho que uma das funções do humor é a crítica, chamar a atenção para o que está errado, denunciar. Não tem o poder de mudar nada, mas tem o dever de denunciar tudo. Acredito que o humorista não deve tomar partido, porque ele, em princípio, tem que ser contra todos. Nesse “fla-flu” de opiniões eu estou muito tranquilo, até porque eu sou Vasco, não sou nem Fla nem sou Flu, eu não votei nem em um nem no outro, então eu detono os dois.
Por isso, também, você afirmou que o personagem preferido de seu pai era o Justo Veríssimo. 
Exato. O Justo Veríssimo era um deputado que odiava pobre e que escancarava isso, “só quero saber de pobre em época de eleição, senão quero que pobre se exploda”, ele dizia. É mais ou menos o que acontece hoje em dia. O Justo Veríssimo seria aliado do Eduardo Cunha, do Renan Calheiros e do Jader Barbalho, entendeu? Nada mais atual do que o Justo Veríssimo. Por isso, acho que esse personagem é uma preciosidade. Justamente por escancarar essa crítica. Que não precisa ser só política, pode ser também social, comportamental, de relacionamentos.
Você é bastante participativo nas redes, no Twitter. Gosta de se envolver?
Eu gosto de dar opinião. Acho que o artista tem, de algum modo, esse dever. Por mais que seja difícil hoje em dia, que seja desagradável dar opinião por causa do que vem em troca, acho importante. O artista sempre tem uma visibilidade, a voz dele tem algum alcance, acho isso bem interessante.
Acredita que o grande desafio do artista que dá opinião é abrir mão da unanimidade? 
Vivemos tempos de cólera, não é? A grande maioria, quando discorda, precisa xingar. Isso é bem chato. Eu achava que em 2015, depois de tanto que as gerações anteriores lutaram, a gente fosse capaz de estar vivendo em paz e amor. Nego já viu, já fez as guerras todas, já sofreu tudo o que tinha que sofrer, a economia já piorou, melhorou, já teve inflação, já não teve, já teve fase, moeda boa… Mas não, tem gente pedindo a ditadura de volta, tem gente apoiando censura, sabe. Então é tudo muito assustador.
 
Humor e censura estão frequentemente presentes na discussão sobre liberdade de expressão. O que acha do atual debate sobre censura?
Acho que estamos encaretando muito. E eu tenho muitíssimo medo de os caretas vencerem – aliás, me parece que eles estão vencendo. Acredito que a luta contra isso tem que continuar, mas a gente não pode deixar de ser um Estado laico, não pode deixar de ser democrático, não pode deixar de respeitar as opiniões, sejam quais forem. Tem uma frase do Nelson Rodrigues de que eu gosto muito, que eu uso a toda hora e acho que ela tem tudo a ver com o momento atual. Nem parece que foi escrita nos anos 50. Ela diz que “o grande acontecimento do século é a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

 

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