‘A educação pública não comporta mais as ideologias. Elas idiotizam’

‘A educação pública não comporta mais as ideologias. Elas idiotizam’

Sonia Racy

06 de abril de 2015 | 01h00

Foto: Daniela Dacorso

Crítico do atual sistema de ensino, o professor e imortal defende mais qualidade desde a pré-escola e o fim das cotas nas universidades: “O Brasil mudou para pior”.

“Não sou ministro, estou ministro.” A frase famosa, dita na época em que esteve à frente do chamado Ministério da Abertura – quando o governo militar iniciava sua retirada –, fez de Eduardo Portella um dos personagens mais marcantes da redemocratização. “Era ciente da transitoriedade do cargo”, diz ele, para quem o poder deve respeitar a hierarquia, com o povo no alto da pirâmide, e se livrar de qualquer tipo de ideologia.

“Ideologização leva à idiotização, é um perigo”, garante o autor de O Intelectual e o Poder. “Educação e cultura precisam ser alimentadas com a liberdade”, continua, deixando claro que vê “com esperança” a chegada de Renato Janine Ribeiro ao MEC.

Integrante do gabinete civil de Juscelino Kubitschek e ministro da Educação de João Figueiredo, Portella entrou para a história, sobretudo, por ter assinado a anistia de todos os brasileiros – “Ampla, geral e irrestrita. Estava cheio de gás. Mas quando anistiei o Darcy Ribeiro quase me derrubaram”, relembra, entre risos.

Aos 82 anos, o baiano de Salvador, imortal da ABL, crítico, professor e advogado falou à coluna, por telefone, diretamente da Casa de Machado de Assis, no Rio. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como o senhor está vendo a crise institucional pela qual passa o Brasil?

A crise tem raízes profundas. Acho que a necessidade mais pungente no Brasil é não partidarizar o governo. Depois, conferir um grau maior de legitimidade a esse governo. Para que isso aconteça, é preciso que os três Poderes funcionem a contento, o que não está acontecendo hoje em dia. Temos um déficit muito grande tanto a nível do Executivo quanto do Judiciário e do Legislativo. No caso da Justiça, por exemplo, aqui no Brasil ela tarda e falha, não chega.

E em relação à crise educacional, que já se estende há vários governos?

Essa é grave por um motivo bastante simples: é que, no que diz respeito à educação, tudo, absolutamente tudo, é prioritário. Não me venham com essa conversa de “vamos pensar no primeiro grau” ou “vamos priorizar o ensino técnico” ou “vamos dar ênfase à universidade”. Nada disso. Tudo é fundamental. Agora, o compromisso básico é com a qualidade, não pode ser a quantidade.

O senhor já falava isso antes mesmo da redemocratização.

Sempre. Na minha época como ministro da Educação (entre 1979 e 1980, no governo de João Figueiredo), eu falava muito sobre a importância da creche e do período pré-escolar. Aliás, acho que a pós-graduação começa na pré-escola. Muita gente no governo me criticava por isso. Diziam: “A pré-escola não pertence ao sistema formal de ensino”. E eu respondia: “Mas decide a sorte desse sistema formal de ensino”. Porque, se você não iniciar bem o processo, ele implode mais adiante.

É o fenômeno a que estamos assistindo agora?

Com certeza. Até porque só a educação básica de qualidade garante a verdadeira inclusão social. Já a educação de má qualidade gera exclusão social, que é o que vemos acontecer no Brasil há muito tempo. Não adianta jogar ao vento um slogan, como “Pátria Educadora”. Isso é apenas propaganda. É preciso muito mais, que todo um conjunto de medidas seja posto em ação.

O que achou da nomeação do filósofo Renato Janine Ribeiro como ministro da Educação, no lugar de Cid Gomes?

Vejo com esperança. Eu o conheço e tenho a melhor impressão dele. É um homem qualificado, tecnicamente. É do ramo. Não é um forasteiro, convidado não se sabe como… Janine tem biografia na área de educação, ou seja, merece um crédito de confiança.

Muita gente criticava Cid Gomes por não ser da área…

Porque ele, de fato, não é. Não estava identificado com os problemas da pasta. Logo nas primeiras declarações, se percebeu que era um estranho no ninho. Nessa área, é preciso reunir gente que tenha experiência no enfrentamento do problema no setor do ensino e da pesquisa. Essa área não comporta improvisos.

Como enfrentar a questão educacional ao mesmo tempo em que o governo tenta diminuir custos, fazer o ajuste fiscal, o que pode significar cortes em uma série de áreas?

Um dos problemas da Educação no Brasil é, certamente, o orçamento, mas não apenas. É preciso que se crie uma qualificação técnica das decisões. Nós não podemos fabricar diplomados ignorantes. E há milhares deles no País, hoje. Esse compromisso da qualidade é essencial. Se cortes em áreas sociais são inadiáveis, é preciso, antes, examinar que cortes podem se impor à educação. Porque esse é um tema muito caro ao Brasil, é uma prioridade social. O que falta ao Brasil é educação, no sistema de governo e nos desempenhos específicos também… (risos) Educação em todos os seus matizes. O Brasil é um país complexo, vivendo uma realidade mundial complexa e que tem problemas demais. Não dá para enfrentá-los apenas com a cara e a coragem. É o tipo de bravura inútil.

Muitos especialistas reclamam que os ensinos fundamental e médio são muito teóricos e que o ensino superior é vítima da ideologização marxista. Concorda?

Ideologização é sinônimo de idiotização. A ideologia é uma visão parcial, um viés da realidade, uma visão caolha. Considero um perigo a invasão ideológica no domínio da educação. Porque é próprio da ação ideológica o autoritarismo. Ela divide ao invés de aglutinar.

Como melhorar o ensino nas faculdades?

Antes de mais nada, acabando com os cursos de aluguel. Esse mercado tem de ser reavaliado. Sem isso, não vai funcionar. Que ninguém se engane: o vestibular não salva quem vem torto desde a tenra infância.

É a favor da privatização da educação?

Não. Posso até admitir a seletiva privatização de alguns setores da educação, desde que submetidos a critérios técnicos rigorosos. O que não pode é o governo desistir de sua tarefa, tirar o corpo fora e repassar a área à iniciativa privada. Aí não pode, é comodismo irresponsável. Não se pode ser contra o ensino privado, mas sou um entusiasta do ensino público.

É a favor das cotas?

Também não. Acho que a cota limita. Se você investe em qualidade nas instâncias anteriores, pode ultrapassar a cota. E é preciso trabalhar nesse sentido. Como fazer isso? Fornecendo os instrumentos de capacitação. Do jeito que é, se transforma em discriminação às avessas.

O ideal seria que o regime de cotas fosse uma ação momentânea, com prazo de validade?

Ah, mas, no Brasil, o momentâneo é eterno. (risos) O País cultiva a eternidade do momento.

Aqui em SP vivemos uma greve de professores, cuja principal reivindicação é aumento salarial de 75%. Independentemente de se achar o pedido justo ou não, o contracheque dos docentes é um problema, na sua opinião?

O professor brasileiro é muito mal pago e isso é gravíssimo. Esse é mais um desafio para o ministro Joaquim Levy… Aliás, assumir o Ministério da Fazenda em meio a uma conjuntura como essa é se preparar para o suicídio. Ele foi muito corajoso.

O fato de muitos imortais da Academia Brasileira de Letras, da qual o senhor faz parte, serem políticos tem deixado as discussões mais acaloradas na Casa de Machado de Assis estes dias?

Não, não. Até porque os mais políticos não frequentam… ou seja, o embate político não existe. E, quando estão por lá, tomam muito chá. E o chá, como você sabe, é o antidebate! (risos) Enquanto o cafezinho estimula, o chazinho é perfeito para conversas mais amenas.

Na sua época, o Ministério da Educação era também o da Cultura. Acha que a estratégia cultural do governo, sob Juca Ferreira, voltada ao popular, é boa receita?

Juca Ferreira parece ter uma postura mais ideológica a respeito da cultura, não é? Bom, você sabe o que eu acho da ideologização… Assim como a educação, a cultura se alimenta da liberdade, só pode existir plenamente sem freios ideológicos. Olhe, corrigindo a informação: quando eu era ministro, a minha pasta reunia Educação, Cultura e Desportos. Depois, foi incorporada também Ciência e Tecnologia – isso porque o Mario Henrique Simonsen, ministro do Planejamento na época, insistiu. Ele defendia que, como a pesquisa científica no Brasil acontece nas universidades, fazia sentido que a área ficasse sob minha responsabilidade também. Para se ver o absurdo de termos, hoje, 39 ministérios. Só o meu respondia por quatro! Aliás, a ciência também não pode ser ideologizada, pode escrever aí. Já no que diz respeito ao desporto, sou apenas um torcedor. E do Fluminense, o que significa que sempre estive preparado para sofrer. (risos) O que eu fiz? Chamei João Saldanha, técnico da seleção, para me auxiliar. Foi ele quem me sugeriu a criação da CBF. Se bem que, depois dos 7 a 1, tenho até evitado falar sobre esse assunto.

O que acha dos 39 ministérios?

Um absurdo. É oneroso e inadministrável. Não é racional. O problema é que, com o passar do tempo, foi sendo necessário aumentar o número de ministérios para poder abrigar políticos da base aliada. Por isso que hoje temos até Gilberto Kassab na Esplanada! (risos)

O senhor tem uma frase famosa, da década de 80, bastante propícia a estes tempos de polaridade política: “O patrulhamento é o exercício contundente do preconceito. Só somos democratas se formos capazes de aceitar o diferente”. O que foi que não mudou nestes anos todos?

Nesse sentido, tudo. A frase não poderia ser mais atual. Mantenho cada vírgula. Porque o Brasil não mudou, infelizmente. Aliás, mudou, sim, mas para pior. Quero crer que o patrulhamento é tão grande agora como era no regime militar. Patrulhamento ideológico em ambas as épocas. Para você ter uma ideia, durante dois anos, quando fui ministro da Abertura, tive brigas imensas com os militares, principalmente os da comunidade de informações. Eles me achavam um comunista perigoso. (risos) Nunca fui comunista, mas também não era um antimarxista. Faço questão de separar Marx da chamada ‘vulgata marxista’. Marx foi um grande filósofo da história. Já o marxismo-leninismo é vulgata marxista, e com esta eu não contemporizo jamais. Agora, querer que os milicos compreendessem essa diferença seria pedir demais…

A opinião deles não deve ter melhorado quando o senhor anistiou todos os brasileiros.

Com certeza não. Anistiei todo mundo, professores, artistas, músicos. O pior é que eu acreditei naquilo. Era muito ingênuo! (risos) Hoje não acreditaria, não! Mas, na época, estava cheio de otimismo, cheio de gás. Achei que era verdade. No dia em que anistiei Darcy Ribeiro, quase me derrubaram! O general Medeiros (Otávio Aguiar de Medeiros, que chefiou o SNI de 1978 a 1985) disse: “Aposto que o Darcy inventou que está doente só para poder voltar ao Brasil e ficar conspirando contra a gente”.

E como é, para o senhor, ver muitos dos anistiados hoje no poder, alguns deles envolvidos em casos de corrupção?
Eu lamento muito. Se o militarismo é uma ideologia, o esquerdismo radical também é. E sou contra tudo isso. Não quer dizer que eu seja de centro, porque o centro é um espaço neutro, do qual eu não gosto. Mas não sou do tipo que se alinha facilmente, não. Faço votos para que as coisas possam melhorar. Afinal, é o nosso país, o país que nos tocou viver. Não podemos renunciar à nossa condição de cidadãos. /DANIEL JAPIASSU

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