“A desinformação pode matar”, diz presidente do Instituto Palavra Aberta

“A desinformação pode matar”, diz presidente do Instituto Palavra Aberta

Sonia Racy

04 de abril de 2020 | 00h59

PATRÍCIA BLANCO – FOTO: INSTITUTO PALAVRA ABERTA

Patricia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta – entidade que promove a liberdade de expressão – defende o EducaMídia, projeto lançado em 2019 para formar cidadãos, como forma de ajudar nesses tempos de pandemia. “A covid-19 atacou em tempos de enorme abundância de informação. E veio acompanhada do fenômeno da desinformação. São boatos, mentiras, notícias desatualizadas e fora de contexto que se espalham pelas redes numa velocidade maior e com potencial ainda mais letal do que o próprio coronavírus”, ressalta Blanco, em conversa com a coluna. “Neste cenário, a informação de qualidade é a melhor vacina. A desinformação pode matar.” Aqui vão os melhores momentos da entrevista.

No meio de tanto conteúdo, como identificar o que realmente procede, que é informação de qualidade?
Foi pensando nisso que o EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta, criou alguns materiais com dicas como: procure fontes confiáveis, cheque em outros canais, siga órgãos governamentais e organismos internacionais, leia vários veículos de comunicação e principalmente, na dúvida, não compartilhe. A OMS chegou a cunhar a expressão infodemia para chamar a atenção da abundância de informação, algumas precisas, outras não.
Por que a OMS “perde tempo” em monitorar as informações sobre o vírus, além de fazer o trabalho central de orientar as políticas públicas na área de saúde?
Porque informação — ou melhor, desinformação — pode prejudicar tanto quanto a doença. E até matar. No Irã, dezenas de pessoas morreram após beber álcool adulterado, acreditando em um boato que circulou nas redes sociais dizendo que a bebida ajudaria na cura do novo coronavírus.

Isso acontece no Brasil?
Exemplos menos dramáticos, mas ainda assim prejudiciais, têm aparecido quase diariamente. Em geral, surgem como mensagens anônimas compartilhadas à exaustão em grupos de WhatsApp (atribuindo a cura da doença a ingredientes triviais como o vinagre, por exemplo). Mas a desinformação também está na boca de pessoas públicas que, sem quaisquer evidências, disseminam teorias da conspiração, como a de que a pandemia é um plano mirabolante do governo chinês para minar a economia dos demais países, derrubar as bolsas de valores e, então, comprar ações e conquistar o mundo.

O que fazer?
Em situações críticas como a que vivemos, torna-se ainda mais urgente garimpar informações apuradas com cuidado, baseadas em dados científicos e que se escoram em fontes qualificadas — premissas do bom jornalismo, que podem e devem ser adotadas por todos nós quando atuamos nas redes sociais. Quando a desinformação mata, informação de qualidade também é vacina.
Como o EducaMídia pode ajudar as pessoas a separar o que é falso e verdadeiro?
Nosso objetivo é formar professores para que eles possam levar às crianças e jovens o aprendizado da leitura crítica da informação. Nosso programa cuida de três eixos: a leitura critica, o escrever consciente e o participar, para mim o mais importante. Queremos ensinar como participar desse ambiente informacional de forma ética e responsável. É não propagar informações antes de verificar se são verdadeiras e também não disseminar discurso de ódio.

Qual a forma de fazer isso?
Uma delas é explicar o papel da imprensa e dos jornalistas. O EducaMídia ensina a criança a identificar o que é matéria, o que é reportagem, o que é artigo de opinião. Assim, ela adquire visão crítica dos veículos de comunicação, aí incluídas as redes sociais. Mostramos que os veículos de comunicação, diferentemente do que acontece nas redes sociais, têm endereço físico, são responsáveis pelo que publicam. Explicamos também que jornalistas têm um papel essencial na obtenção e elaboração de informações confiáveis.

O curso cobre todo Brasil?
Conseguimos incluir a educação midiática na Base Nacional Comum Curricular do Ensino Fundamental 2. Hoje há cinco matérias relacionadas ao tema nos currículos das escolas públicas e privadas. No entanto, constatamos que não havia professores capacitados para oferecer essa nova abordagem. Daí começamos a criar conteúdos e cursos de formação dirigidos a professores das redes pública e privada. O EducaMídia é um grande portal que reúne informações e ferramentas para que os professores possam levar educação midiática para a sala de aula. Temos cursos online, material didático e aulas presenciais para que possam ensinar alunos a discernir o que é informação verdadeira, a valorizar trabalho dos profissionais de imprensa num momento em que vivemos num ambiente de desinformação preocupante.

Em quais estados vocês fazem cobertura?
São Paulo já tem no currículo de suas escolas a educação midiática, o Distrito Federal também. Estamos em contato com várias secretarias de educação estaduais e municipais para levar o programa para as suas escolas.

Quem financia o projeto? 
Além das organizações fundadoras do Palavra Aberta, apoiadores e associados, conseguimos financiamento do braço filantrópico do Google, o Google.org. Nosso objetivo é envolver toda a sociedade para tornar o programa perene. Não compartilhar conteúdo falso, boatos os teorias da conspiração. O principal agente que pode ajudar a combater a desinformação é o cidadão. Cabe a nós, adotarmos uma atitude responsável e brecarmos a onda de desinformação. Neste caso, como na pandemia atual, somos agentes importantes para que o vírus das fakenews não causem ainda mais damos a sociedade.

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