A Delação da Delação

Sonia Racy

07 de agosto de 2015 | 00h07

Com direito a música de Cazuza e Frejat (Rock da Descerebração) ao fim da sua apresentação na Casa do Saber, anteontem à noite, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, criticou a forma como as delações premiadas têm sido obtidas na Operação Lava Jato. “Elas não preenchem os requisitos da legalidade”, frisou o criminalista. “Nós criamos um monstro. Temos que ter uma preocupação com o que está acontecendo no País”, disse, lançando um desafio à plateia: “Que país queremos depois deste combate?” Para a semana que vem, o espaço convidou a advogada e professora da FGV-Rio Ana Paula Martinez, para o contraponto. Ela é a favor da delação premiada.

Diante de uma sala lotada, Kakay disse que considera o juiz da operação “um cara sério”, mas acrescentou: Sergio Moro percebeu que ser duro e justiceiro agrada à população. E essa pressão popular e midiática, prosseguiu o advogado, o leva a concluir que há poucas chances de as ilegalidades cometidas interferirem no resultado final. “Acho que os tribunais superiores não terão coragem de fazer um enfrentamento técnico.” E provocou: o juiz que se atrever a dar uma canetada e paralisar a operação “terá que se mudar do País”. Advogado de figuras como Roseana Sarney, Edson Lobão, Ciro Nogueira e Romero Jucá – todos citados na Lava Jato –, Kakay deixa claro que não é contrário ao instrumento, “importante no combate ao crime organizado”. É contrário, entretanto, a forçar a delação – o que ele acredita que está acontecendo. “As delações têm sido feitas em cima de muita pressão, tirando a capacidade de resistência da pessoa.” A propósito, lembrou frase do procurador da República Manoel Pastana: “Passarinho preso canta mais bonito”.

O advogado não concorda também com a combinação de pena antes mesmo de se ter claro o grau de colaboração dos delatores. “O que está sendo feito é delação com promessas estabelecidas.” Na visão de Kakay, há no País um comportamento que ele chama de “jogo de máscaras” no qual a população vive um frenesi ao ver políticos e empresário sendo presos. “O cidadão veste a máscara da hipocrisia e tem uma felicidade enorme, não se sabe por quê. Nessa hora, ele não quer saber se o outro teve seus direitos e garantias preservados. Mas é o que eu digo sempre: a vida dá, nega e tira. Isso pode bater um dia nele. E aí ele vestirá a máscara do devido processo legal, de ter seus direitos e garantias preservados.” Kakay também se queixa das condições dadas à defesa dos réus, que não têm acesso ao todo. “Fazemos um simulacro de defesa porque não temos acesso ao processo.”

Ao final, jogou no microfone o rock de Cazuza: Caguetem-se, solidários / Antes do interrogatório / Engrandeçam a mentira / Deem sentido à vida. “Necessariamente – concluiu – aquele que está fazendo delação mente. Deleta, protege e entrega só quem ele quer.” \MARINA GAMA CUBAS