A crise na mesa

Sonia Racy

29 de agosto de 2015 | 01h10

No encontro entre Temer e empresários na Fiesp, quinta-feira à noite, o único presente a atacar frontalmente Joaquim Levy foi… Paulo Skaf. Que se destacou, igualmente, por ser praticamente o único a mencionar a CPMF. Primeiro a discursar, na condição de anfitrião, Skaf repetiu que “Levy não dá mais”, que ele não tem sensibilidade para preservar empregos, que não faz sentido acenar com aumento de impostos etc.

O que se percebeu foi que, à sua volta, os comensais sequer se deram ao trabalho de comentar o ressurgimento da contribuição – por acreditarem, praticamente todos, que ela não volta.

Entre pratos de rosbife, massa e peixe e taças de vinho, Jorge Gerdau foi o segundo a falar. E elegeu como temas o câmbio e a necessidade de se incentivar as exportações. Criticou a alta dos juros, praticada em meio a uma inflação que é de custos e não de demanda. E esta, ressaltou, está cada dia mais fraca.

Flávio Rocha, da Riachuelo, voltou os olhos, claro, para o varejo – e apontou o retrocesso do que vinha sendo, até recentemente, um avanço significativo: a consistente formalização no setor. Depois de 13 anos de expansão, no entanto, ele se dobra à queda nas vendas. “Não dá para absorver alta de imposto. Vamos empurrar o varejo de volta para a informalidade”, avisou o empresário.

Coube a Henrique Meirelles, da J&F, focar o complexo sistema de tributos hoje instalado no País. Alimentado, disse ele, pela mania do governo de “querer taxar tudo que se move”.

Fabio Barbosa, do Gávea, contestou a fala de Skaf sobre juros. “Juro baixo não é solução e sim causa do problema.” Dilma, segundo ele, tentou baixar os juros por vontade política e deu no que deu. O problema central, proclamou, é de produtividade e de gargalos na infraestrutura.

Murilo Portugal, da Febraban, limitou-se a parabenizar Temer pela coordenação política no ajuste fiscal, lamentando que seu papel no caso tivesse diminuído. “Se não tivéssemos aprovado as medidas, a perda de grau de investimento estaria mais próxima”. Como ele, Valdemar Verdi, da Rodobens, lamentou a saída do vice da articulação, ressaltando que se precisa “de instrumentos políticos acima de intenções para arrumar o País”.

Para Gustavo Junqueira – da SRB, o mais moço da mesa – o que preocupa é a falta de humildade e também de coragem da iniciativa privada. Humildade para reconhecer que não foi só o governo mas a sociedade produtiva e civil como um todo que errou. E que há que se ter coragem para mudar.

Binho Ometto deu seu apoio à processos de privatização entregando à sociedade o que é dela. E Luiz Moan, da Anfavea: o Brasil “está hoje fora da integração do mundo”.

Luiz Trabuco, do Bradesco, ignorou as críticas de Skaf ao ministro da Fazenda e ressaltou a falta de confiança, identificada pelo desaparecimento das intenções de investimento. “Temos que entregar os anéis para ficar com os dedos”, lembrou. Ou seja: apostar no futuro.

Na sua vez, Benjamin Steinbruch fez um alerta geral: “Vocês estão sendo muito elegantes. Lá fora se diz coisa muito pior.” Para ele, falta foco ao governo e o empresariado precisa eleger as causas para atacas “como ICMS e Previdência.”

Coube a Temer finalizar o encontro. Ele repetiu que a crise, tanto política como econômica, é grave. Enfatizou as diferenças entre governo, governança e governabilidade, advertindo que cada uma complementa as outras. Admitiu o já sabido: que o governo Dilma não tem apoio do Congresso. E discorreu sobre concessões e privatização – “formas evoluídas de governo”… – e ao se colocar a favor da privatização (palavra vetada por Dilma) concordou com Ometto. Pediu para todos se organizarem e se unirem. “Escutei muito diagnóstico mas não ouvi propostas.” Quer propostas concretas e se dispôs a advogar pelo setor.

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