“A crise do coronavírus é pior que meu sequestro”, afirma Abilio Diniz

“A crise do coronavírus é pior que meu sequestro”, afirma Abilio Diniz

Sonia Racy

30 de abril de 2020 | 00h40

JB NETO/ESTADÃO CONTEÚDO

Abilio Diniz está concentrado, entre outras, no projeto Estímulo 2020, montado por Eduardo Mufarej. “Me engajei profundamente nessa iniciativa”, explicou Diniz, em conversa exclusiva com a coluna na terça-feira. “Farei o mentoring do projeto, 100% privado e sem fins lucrativos, voltado para os pequenos e médios negócios afetados pela pandemia”, detalha o empresário.

Pelo que se apurou, a distribuição de R$ 20 milhões destinados a quem já passou nos critérios de seleção começa amanhã, Dia do Trabalhador. Aqui vão trechos da entrevista.

Por que falta dinheiro para esses pequenos negócios?
A pessoa que tem uma pequena loja, uma pequena assistência a celulares ou ainda um espaço para conserto de roupas, está parada há dois meses.

Elas não têm acesso ao sistema financeiro?
Os bancos seguram muito, não gostam – e, muitas vezes, nem podem emprestar visando sua saúde financeira. Por isso estamos buscando recursos privados, sem fins lucrativos.

E o Carrefour, onde você mantém participação? Tem registrado queda de demanda?
Na França, houve redução mas está voltando. Aqui, houve pico de demanda, as pessoas estocaram e estamos voltando à normalidade.

O mundo vai sair dessa crise com uma nova visão do capitalismo?
Não sei se vai ser uma nova era ou um novo capitalismo, mas tenho certeza de que muita coisa será diferente. A retomada da economia tem que ser muito bem programada e, de preferência, feita com todo cuidado.

A Alemanha fez a retomada e está tendo problemas. Isso pode se repetir aqui?
Temos que voltar de maneira bem planejada pelos governos. E mais: nenhum país no mundo vai sair bem dessa crise sem colocar muito dinheiro. A ideia de dar R$ 600,00 para aqueles que praticamente não existem – os informais, quem não têm conta em banco e têm o registro de nascimento e olha lá – é uma maneira inteligente de ajudar.

Por quanto tempo?
Esse tipo de coisa tem que continuar, tem que colocar muito dinheiro, por quanto tempo, eu não sei, ninguém sabe. Temos que distribuir recursos para quem não tem acesso e condições.

Governo e iniciativa privada?
Temos que nos unir para programar, de forma detalhada, a reabertura da economia. É caminho fundamental a união dos Três Poderes. Sei das dificuldades neste, da polarização. Precisamos dessa união agora e, depois, podem brigar. Estou já atuando nessa linha. Mas é preciso que todos ajudem. Serenidade é palavra de ordem.

O Brasil terá retomada lenta ou rápida depois da covid-19?
A economia de muitos países emergentes já estava um bocado abalada. Isso significa que a base de comparação, entre um ano e outro, facilita. Para crescer, não é tão difícil. Todo mundo me acusa de ser otimista, mas eu estou vendo o Brasil nesse momento, desse jeito. Estou bem esperançoso, não sei quando termina esse vírus, não sou médico, então, não dá para saber. Essa é a crise mais severa que eu já vi na vida empresarial, sem dúvida. Ela consegue até ser pior que meu sequestro.

Dessa pandemia, vai sair um novo capitalismo?
Não. Pelo o que estou observando, vai sair um mundo mais solidário. Na saída dessa crise, o mundo será mais forte, mais solidário, com menos discriminação, mais oportunidades, maior geração de empregos e renda, com maior inclusão social. Acredito na preocupação generalizada das pessoas e também com o próprio Planeta.

Vamos voltar ao capitalismo selvagem?
Essa palavra está em desuso. Hoje praticamos um capitalismo consciente ou, então, estaremos fora do mercado.

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