“A ciência tem capacidade de multiplicar riqueza”, afirma Sidarta Ribeiro

“A ciência tem capacidade de multiplicar riqueza”, afirma Sidarta Ribeiro

Sonia Racy

29 de junho de 2020 | 00h50

SIDARTA RIBEIRO – FOTO: ELISA ELSIE

 

Sidarta Ribeiro pesquisa o sono, os sonhos e a memória há décadas – muito antes, portanto, de o mundo se ver em pesadelo real pela pandemia da covid-19. O autor de O Oráculo da Noite – A História e a Ciência do Sonho, (Companhia das Letras) diz que o cérebro é uma “farmácia” e que pode e deve ser usado para ajudar a mente e o corpo a atravessarem um momento inédito no mundo como este. “Se a gente souber as práticas adequadas, somos capazes de encontrar equilíbrio sem precisar tomar remédio”, diz o neurocientista, nesta entrevista à repórter Cecília Ramos.

Diretor da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Sidarta fala sobre o subfinanciamento do setor no Brasil, alerta que muitos cientistas continuam indo embora do País e não crê que o cenário melhore pós-pandemia – embora se autodefina um “otimista apocalíptico”. “O setor privado está investindo e é bem-vindo, mas em todos os lugares do mundo quem investe em ciência é o governo”, diz o professor, apoiador do movimento Estamos Juntos.

Sidarta também adiantou à coluna seus próximos projetos – ele se prepara para relançar Limiar: uma década entre o cérebro e a mente, com mais textos, em agosto, e publica em breve novas pesquisas sobre o sono e memória pelo Instituto do Cérebro na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Veja principais trechos:

Como tem sido o diálogo com o governo federal?
Com muito esforço, estamos tentando convencer, não só o governo, mas o Congresso, de que é necessário urgentemente descontingenciar o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Está com 90% dos recursos bloqueados. Esses recursos podem ajudar a darmos resposta mais eficaz contra o coronavírus. Sou um otimista apocalíptico, mas na pandemia está difícil diante de um governo lesa Pátria, que nega a ciência.

Que avaliação faz do Ministério da Ciência e Tecnologia?
O ministro Marcos Pontes é uma pessoa cordata, mas sem credenciais científicas. Ele até está tentando mas não conseguiu descontingenciar. Aliás, muita gente que está aí fazendo pesquisa de teste rápido de covid-19 é gente que perdeu a bolsa de R$ 1, 2 mil. Ou seja, está trabalhando de graça. E tem muita gente aí ganhado acima do teto constitucional.

Acredita numa melhor valorização da ciência pós-pandemia – do setor privado e público?
Pra ser sincero? Não. O Brasil está de volta ao investimento que tinha há 20 anos atrás, que era de R$ 2,5 bilhões total pra ciência. Pra você ter ideia, em 2010 a gente tinha R$ 10 bi. O setor privado está investindo e é bem-vindo, mas em todos os lugares do mundo quem tem que investir em ciência é o governo. Porque a pesquisa básica, que ainda não é inovação, não vai dar lucro. Na verdade, ela é custosa. Ela dá muito lucro depois. A ciência é o que tem capacidade de multiplicar riqueza, mas só quando há investimento sustentável. Muitos cientistas brasileiros estão indo embora fazer ciência lá fora e não voltam. Significa que perdemos aí anos de investimento nesse cientista. Morei onze anos nos Estados Unidos e voltei por acreditar no País, mas está complicado.

Sobre os EUA, inclusive, esta semana foi divulgado que o MDMA (princípio ativo do ecstasy) pode se tornar a primeira droga psicodélica com licença de remédio lá, para ser usado no tratamento de estresse pós-traumático. O neurocientista Eduardo Schenberg testou no Brasil e resultado sai em breve. Que acha?
Nos últimos 10 anos foram feitos estudos cada vez maiores e mais ambiciosos para demonstrar que o MDMA é capaz de tirar uma pessoa de um sofrimento crônico em poucas sessões e com efeito duradouro. O Eduardo é pioneiro nesse estudo no Brasil, fui colaborador dele. E agora a pesquisa chegou ao fim, demonstrando a eficácia dessa terapia. Acredito que aprovando nos EUA deve facilitar aqui, sim. Embora o Brasil seja muito atrasado nessas questões. É só ver que não avançou para aprovar a maconha medicinal.

Sobre seus projetos, o que está por vir?
No meu laboratório está para sair um novo estudo sobre o sono e memória. Estamos terminando também um artigo sobre psicodélicos, sobre LSD. Fiz a revisão da tradução do meu livro O Oráculo da Noite, que vai sair em inglês. Também vai sair em espanhol e italiano para ser lançado na Espanha e na Itália. Já foi lançado em Portugal, estive lá, e está sendo muito bem vendido. Vou relançar pela Companhia das Letras o Limiar, de 2015, e que vai ganhar novos textos.

Tem gente na pandemia tomando remédio para dormir e outro para acordar. Como o isolamento social impactou esse consumo?
Em vários países do mundo o consumo das substâncias lícitas e ilícitas aumentou muito, de álcool também. Nos Estados Unidos, explodiu consumo de maconha, e, em parte do país, foi considerado serviço essencial. Infelizmente a gente está, na pandemia, exacerbando essa tendência de medicalização, ao invés de buscar mecanismos de regulação mais fisiológicos.

E o que seriam?
O cérebro é uma farmácia, se a gente souber as práticas adequadas a gente é capaz de encontrar equilíbrio sem precisar tomar remédio. Claro que tem pessoas que precisam por causa de uma patologia específica. A maioria devia apagar a luz, esperar a melatonina ser produzida na glândula pineal, no meio do cérebro. Mas ao invés disso, as pessoas preferem ficar nas telas o tempo todo. E aí precisam tomar pílula de melatonina pra gerar o fenômeno do sono, sem ter passado pelo ritual do sono.

Em que medida as telas – celular, computador, tv – prejudicam essa preparação para dormir?
A primeira, é que a tela fica o tempo inteiro fornecendo informação nova ao cérebro. Isso faz com que o cérebro não tenha sinal de estabilidade para começar a descansar. Segundo, o tipo de luz que vem pelas telas tem comprimento de onda azul, que bloqueia a produção da melatonina. Você pode até usar o modo noturno do celular, ameniza. Mas aí a pessoa diz: ‘tô esperando o sono vir’, porém fica no celular, ele não vem. Quando o sono vem é por causa da exaustão, aí já é muito tarde. De madrugada, a pessoa já perdeu a subida da melatonina que deveria ter acontecido entre 20h até meia noite. Depois das 2h da manhã o que vai começar a subir é o cortisol, hormônio pra acordar. Isso é estressante e prejudica o processo emocional, a pessoa fica irritada, começa a brigar.

E pra quem toma remédio forte pra dormir, o que acontece com o sono, cientificamente?
Quando você toma um benzodiazepínico (ansiolíticos potentes) pra dormir, está favorecendo o tempo de silêncio dos neurônios, que a gente chama de sono de ondas lentas, que domina a primeira metade do sono. E está prejudicando o sono fisiológico, o REM (de Rapid Eye Moviment), a segunda metade. É o estágio mais profundo do sono, momento que o corpo de fato consegue relaxar. O remédio interrompe esse processo. Gera um apagão. E a pessoa acorda cansada e com prejuízo cognitivo.

É mais difícil sonhar, então, tomando remédios?
Sem dúvidas. Quando toma esses remédios, você prejudica o sono e o sonho. Tanto quando se ingere pílulas pra dormir, quando se bebe álcool e usa maconha, tudo isso facilita a entrada no sono, mas dá 4h da manhã e a pessoa acorda. Não é um sono restaurador. E impede o sonho.

O Instituto do Cérebro tem pesquisa sobre os efeitos positivos de o aluno ter espaço na escola para dormir. É possível implementar, de fato?
É o mais fácil de fazer. É ter na escola uma sala com colchonetes e definir horários. O tripé da saúde é sono, alimentação e exercício físico. Se a escola puder prover essas três coisas direito, a qualidade de ensino melhora muito. Fizemos experimentos dentro da escola. O efeito é poderoso. Estamos publicando o terceiro artigo dessa pesquisa. Também vamos publicar daqui a pouco, numa revista importante, outro estudo com crianças em alfabetização, de 5 a 6 anos. Treinamos os erros que elas cometiam com letra em espelho, tipo p, q e b, por três semanas, meia hora, e uma soneca depois. Eliminamos esses erros e as crianças começaram a ler bem mais rápido.

Em “O Oráculo da Noite”, você fala do ritual pra sonhar. O que pode ser feito, além de uma boa noite de sono?
Você pode recorrer aos símbolos que te fazem sentido. Se a pessoa é religiosa, se segue tradição oriental, ameríndia, siga. Cultue, reserve um espaço da casa. E fale pra si: ‘Eu vou dormir, vou sonhar, vou me lembrar e vou relatar’. Quando a pessoa acordar, tem que ter a disciplina de ficar na cama quieta, esperando a memória voltar. Quando a gente acorda, tem um ‘fiapinho’ de memória. Pega esse fiapo e vai puxando, ai vai relatando. É um hábito. E aumenta o efeito placebo, aumenta a crença de que aquilo vai funcionar. Acho até que depois dessa pandemia, o efeito placebo vai pegar seu lugar de honra na medicina e vai ser abraçado. É importante porque o cérebro é altamente sugestionável. Ele capta a informação que é relevante pra você. O sono faz o mesmo.

Como usar a mente a nosso favor, num momento deste?
O mais importante é a pessoa se manter no momento presente. Se a gente fica focado no que passou, dá muito sofrimento. O passado, bom ou ruim, é fonte de tristeza, ruminação. É uma coisa que te puxa para o que não existe mais. O futuro é fonte de estímulo e entusiasmo, mas quando é incerto, como agora, na pandemia, ele traz muita ansiedade. A incerteza que estamos passando é inédita. A gente vai mesmo precisar de uma vacina ou antiviral que não existem ainda. Então isso aumenta ansiedade, gera insônia ou compensações, como comer mais, beber mais… Ou que as relações se degradem dentro de casa ou ainda isso tudo junto.

Como buscar saídas?
A única maneira que entendo como saudável é você conseguir focar no presente. O que eu preciso fazer hoje? Como posso cuidar de mim e das pessoas que estão em volta?

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