‘A cidade paga por não planejar’

‘A cidade paga por não planejar’

Redação

25 de janeiro de 2010 | 09h46

Enchentes, deslizamentos… Para o urbanista Kazuo Nakano, só quando entender a natureza São Paulo sairá dessa armadilha

Por Gabriel Manzano Filho

Abram todos os seus guarda-chuvas, desviem das goteiras, cantem Parabéns… mas antes de apagar as velinhas prestem atenção: o grande presente que são Paulo deveria ganhar hoje, pelos seus 456 anos, seria um súbito ataque de paixão pelo planejamento urbano.

“É disso que a cidade mais precisa, para sair da armadilha em que caiu”, adverte o arquiteto e urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis. É por não ter essa cultura, avisa ele, que em todos os verões a vida paulistana fica paralisada e a população condenada a ver pela TV a triste rotina de inundações, deslizamentos, avenidas entupidas de carros parados e uma crescente conta de vítimas fatais.

A causa disso – além de ser este o janeiro mais chuvoso dos últimos 70 anos – é o desprezo pela natureza. A mania de construir a cidade como se os rios não existissem. A incapacidade de entender que eles têm seu ritmo, que muitos transbordam no verão, que não se pode “fechar” o chão com cimento e asfalto. “Na Europa isso foi aprendido há séculos. Mas aqui continuaremos nessa armadilha enquanto não mudarmos de rota”, avisa o Nakano.

Velho conhecedor dos conflitos paulistanos, participante ativo de vários planos diretores, como os de São Paulo, Fortaleza e Vitória, o urbanista, formado pela FAU-USP, traz uma boa e uma má notícia. A má é que a cada ano os problemas se agravam, as soluções fica mais caras e a situação “vai piorar antes de melhorar”. A boa é que há saídas técnicas para o drama paulistano – basta ver como as cidades da Holanda, que vivem abaixo do nível do mar, fizeram para eliminar o problema. A seguir, trechos da entrevista.

Por que as chuvas, em São Paulo, deixaram de ser um incômodo para se tornarem tragédias? Porque os problemas não são resolvidos e vão se agravando. Porque não existe uma cultura de planejamento urbano para resolvê-los. Porque os governantes se dedicam ao jogo político do toma lá, dá cá e a projetos de curto prazo. E quando as chuvas, como agora, batem todos os recordes, todo mundo grita.

Então, no ano que vem vai acontecer tudo de novo? Se chover forte, sim. Este é o caso típico de uma tragédia anunciada. A cidade caiu numa armadilha e dela não vai escapar enquanto não entender e respeitar o ritmo de seus rios e córregos.

O que você quer dizer com “entender e respeitar”? É conviver com a natureza. Ao ocupar margens de rios, a população paga por não perceber como eles funcionam. Um destino que tantas outras cidades do mundo aprenderam a evitar. Veja a Holanda. Como metade de seu território fica abaixo do nível do mar, eles desenvolveram sofisticados sistemas de controle, com canais, comportas, um ritmo preciso de escoamento, monitorado o tempo todo. Resultado: eles até sabem que é possível, às vezes, construir perto das margens, e o fazem, mas deixando vazio o espaço de que o rio necessita.

Pode dar um exemplo? Estive, no final do ano, na cidade de Leuven, na Bélgica. Ela é toda cortada por meandros de um rio – mas montaram uma rede de canais e comportas em seu curso, intercalando jardins e piscinões, antes que ele chegue à área urbana. Pode chover muito, que mesmo assim a vida da cidade não para.

Então, existe uma saída. Por que não é adotada? Aqui vamos criando a cidade como se o Tietê e o Pinheiros não existissem. Alterar esse quadro exigiria um poder público forte, do qual não dispomos. E não dispomos porque o jogo político não deixa espaço para isso. Autoridades e lobbies dedicam-se a trocas, a obras de curto prazo, sem impacto na vida da cidade.

Mas também é preciso dinheiro. Esse é o segundo problema: nossas prefeituras vivem na miséria. Recebem só 18% da arrecadação do País, enquanto o governo federal fica com 58% e o Estado com 24%. E a maior parte do bolo municipal vai para saúde, educação e custeio. O que isso significa? Que a capacidade de investimento nos espaços urbanos é quase zero.

As autoridades são pressionadas e tentam melhorar as coisas… Mas se desgastam em coisas de curto prazo, do tipo inaugurar escola, asfaltar rua, abrir hospital, alargar avenida. Sempre deixam para depois o que é caro, ou difícil de aprovar.

Tem um caso concreto disso? Enquanto chove e se discute a retirada de moradores dos morros e margens de rios, a região próxima à Cidade Tiradentes, na zona Leste, vem sendo rapidamente ocupada. É mais um grande problema em formação. Se não adotarmos o que chamo de cultura do planejamento, não vamos a lugar nenhum.

Dramas como o de Angra dos Reis são mais do mesmo? Em grande parte, são. Mas não devemos nos limitar ao que aparece nas manchetes dos jornais. O mesmo drama se repete nas profundezas da Amazônia, em Maués e Tefé. E como estancar esse fenômeno se mesmo num Estado com São Paulo, o mais adiantado, apenas 10% das cidades têm engenheiros e arquitetos? Se as cidades não têm equipes técnicas, não há como formar uma massa crítica para pensar os desafios urbanos.

A Câmara paulistana começa a discutir a revisão do Plano Diretor, que é de 2002. O que você espera dela? A revisão é uma coisa necessária, não se deve nunca ser contra, mas veja, estamos revisando um plano que ainda não foi avaliado, grande parte dele não foi levada à prática.

Qual parte? As chamadas zonas especiais de interesse social são um exemplo. O plano propõe formas de instalar em áreas vazias populações que vivem à beira de rios e córregos. Há mais de mil áreas demarcadas no plano, mas o assunto não avançou. O novo texto da Prefeitura fez algumas alterações, não tão expressivas.

O que o novo plano fala sobre enchentes? Tem boas intenções. Desimpermeabilizar o solo, implantar praças e parques lineares, preservar as várzeas e projetar modos adequados de ocupá-las. Isso é crucial e teria de ser aprovado e posto em prática com urgência.

Que nota você daria à qualidade de vida de São Paulo, comparada com 10 anos atrás? Isso depende de definir um padrão. Mas posso dizer: a qualidade caiu, e bem. Se a nota anterior fosse 6, hoje seria 5, mas em queda. Pois não estamos vendo nenhum debate sobre o longo prazo.

Há cidades, no Brasil, com melhores exemplos para mostrar? Temos casos, poucos, de sucessos de planejamento, mas pela metade. Curitiba é muito lembrada, pela integração dos transportes, mas se você olhar no entorno da cidade vai descobrir uma coroa de favelas. Também Belo Horizonte, Brasília e Palmas, em Tocantins, tiveram setores planejados, mas misturados com outros cheios de conflitos. A questão central é ter uma cultura de planejamento, que se faça presente nas decisões sobre o espaço urbano. Esse sim seria um grande presente para a cidade.

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