‘A chance de um filme acontecer no Brasil ainda é muito pequena’

‘A chance de um filme acontecer no Brasil ainda é muito pequena’

Sonia Racy

02 Março 2015 | 01h00

Feliz com o sucesso do musical sobre Chacrinha, que chega este mês a SP, e com a produção para a TV, Andrucha Waddington faz um balanço: cinema, no País, é “coisa para obstinados”.

 

Assim que aceitou o convite para dirigir o musical sobre a vida de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, Andrucha Waddington sentiu um frio na espinha. Afinal, jamais havia tentado nada parecido na carreira – “achei até que tinha ficado louco”. Oito meses depois, o sucesso do espetáculo, que subiu ao palco em novembro, no Rio, provava que ele havia acertado na mosca.
Agora, o também produtor, sócio da Conspiração Filmes, está trazendo Chacrinha, o Musical para São Paulo, onde estreia dia 27, no Teatro Alfa. E, entre um ensaio e outro, acerta os últimos ponteiros de sua série para a TV sobre André Midani, que o canal GNT leva ao ar também este mês (“é um documentário que contempla a música brasileira nas últimas seis décadas”).
Waddington falou à coluna também sobre seus próximos projetos, a dificuldade de um filme ‘acontecer’ no Brasil, a necessidade de se educar o público, a evolução da produção televisiva e a vontade de dirigir outro musical (“adorei a experiência”). A seguir, os melhores momentos da conversa.

Você assistia ao programa do Chacrinha quando garoto?
Era ótimo, eu me amarrava. Inclusive porque o BRock, o Rock Brasil, surgiu no programa do Chacrinha. Todos os roqueiros passavam por lá e eu adorava aquilo. Minha ligação com o Chacrinha foi maior nos anos 80, na volta dele à TV Globo.

Como foi encarar um projeto como o do musical, inédito na sua carreira?
O espetáculo estreou em novembro, no Rio. A gente começou a trabalhar no texto em abril – eu, o Pedro Bial e o Rodrigo Nogueira. Partimos de um original imenso e fomos lapidando, até perceber que o ritmo estava gostoso. Ensaiamos a partir de julho, foram quatro meses insanos.

Aceitou na hora o convite para dirigir o espetáculo?
Fui convidado pelos sócios da produtora Aventura, Luiz Calainho, Aniela Jordan e Fernando Campos. E aceitei na hora, sim. Depois, fiquei apavorado! Entrei em pânico. Ficava pensando: “Será que eu enlouqueci?”. Fiquei com medo de não fazer um bom trabalho.

Achou que alguma coisa poderia dar errado?
Tudo! (risos). Quando foi dando certo, fiquei aliviado.

Que parte da experiência o deixou mais incomodado?
Meu medo, enquanto os ensaios não começavam, era entrar em um terreno desconhecido. Mas, quando comecei a trabalhar com os atores, me caiu a ficha: aquilo era dramaturgia e eu tinha de montar um plano-sequência, porque as coisas não podiam parar de acontecer no palco. Não podia haver o que a gente chama de barriga. Fui trabalhando como faço com cinema. E cada ato se tornou um plano-sequência.

Foi ficando divertido.
Exato. A cada dia a coisa foi se azeitando, foi ficando bom de trabalhar. Na verdade, o medo foi superado logo no primeiro dia de ensaio, quando percebi que a matéria-prima me era familiar. O dia era dividido em três blocos: o Alonso Barros tinha duas ou três horas para trabalhar direção de movimento e coreografia. A Delia Fischer tinha outras duas, três horas para a parte musical. E eu entrava depois, para fazer o ensaio de dramaturgia. Fomos montando um ato depois do outro. Em três semanas, tínhamos o espetáculo levantado.

Ou seja, quando vocês finalmente foram para o teatro, deu tudo certo de cara.
Pois é… não! (risos) É nessa hora que você volta umas vinte casinhas. Porque entram em cena os cenários e o figurino. Ou seja, você passa a ensaiar com as trocas de roupas. E aí o relógio é seu inimigo. No musical, temos quase 500 figurinos. No momento mais dramático, 36 pessoas em cena, quer dizer, uma quantidade imensa de trocas de roupas. É um engarrafamento na coxia. Até a gente conseguir fazer a peça no tempo certo foram mais oito dias úteis de ensaio técnico. Só depois pudemos voltar a falar de dramaturgia. É uma loucura, mas também é muito legal, muito mágico, lúdico.

Existe a possibilidade de o musical se transformar em filme?
Os direitos do filme são da Aventura. Por enquanto, não há nada conversado. Mas acho que daria um filme espetacular.

A Conspiração não ficou enciumada quando você foi convidado pela Aventura?
Não, porque a Conspiração não produz teatro. Não é concorrente. Pelo contrário: muitas ações de divulgação do musical foram feitas pela Conspiração, contratada pela Aventura.

Você tem outros projetos do gênero encaminhados?
Estamos conversando, sim. Mas ainda em estudos. Qualquer coisa que a gente decida fazer só poderá ser iniciada no fim do ano. Sei que adorei.

Na Conspiração, quais os próximos trabalhos?
Temos dois filmes pela frente. Só estamos na dúvida, ainda, sobre qual sairá primeiro. A comédia Os Penetras 2 e O Juízo Final, que é um suspense sobrenatural, cujo roteiro é da Fernanda (Torres), minha esposa. Por questões de agenda de elenco não decidimos qual deles será realizado este ano.

Acha que é mais fácil fazer comédia no Brasil?
Eu nunca tinha feito comédia, antes de Os Penetras. Quer dizer, Eu, Tu, Eles é uma comédia, mas uma comédia dramática. Acho que o público compra tíquete de comédia, então me parece natural que a indústria produza esse gênero. O ideal, claro, seria que a gente conseguisse consolidar outros gêneros. Você tem os filmes de caráter social, as produções espíritas, as comédias… Até por isso estamos apostando em O Juízo Final, para explorar um gênero pouco trabalhado no Brasil.

O cenário tem melhorado?
Olha, desde a retomada do cinema brasileiro, nos anos 90, a gente vem assistindo a um crescimento do chamado parque exibidor. Acho que, com o tempo, a gente vai conseguir aumentar também os nichos de gêneros cinematográficos. Vamos conseguir dialogar mais com o público.

Acredita que é questão de educação de plateia?
Ah, claro! Vai demorar um pouquinho. Para consolidar uma indústria leva tempo. Mas estamos no caminho.

Muito crítico de cinema brasileiro não entende por que os argentinos colhem muito mais sucesso internacional do que nós. Na sua opinião, como isso se explica?
Para mim, é na urgência da dificuldade financeira que você acaba ficando mais criativo, entendeu? E também acho que os argentinos não têm problema em falar sobre a classe média, a classe alta. Aqui no Brasil, a gente fala muito sobre essas classes em comédias. Temos poucos dramas dedicados a elas. Aqui, temos mais os dramas de cunho social. Na hora em que a gente começar a abrir o leque de assuntos, os filmes vão encontrar seu público.

Está mais fácil fazer cinema no Brasil hoje?
Fácil nunca é. Quando você tem a ideia de fazer um filme, precisa saber que a chance de ele realmente “acontecer” é muito pequena. Desde a concepção até chegar ao cinema, se tudo correr muito bem, você leva uns cinco anos. Então, é coisa para obstinados. E em momentos de crise, você passa a ter ainda menos financiamento. O ano de 2015 não vai ser dos melhores, mas, no longo prazo, tudo se ajeita.

Como convencer empresas no Brasil a patrocinarem filmes?
A empresa precisa se identificar com o filme que você está querendo fazer. É preciso bater de porta em porta, falar com os diretores de marketing, mostrar que aquela produção, de alguma forma, dialoga com a marca. Mal ou bem, é assim que funciona.

Isso inclui, às vezes, ter de adequar o filme ao patrocinador?
Eu não diria isso. O que acontece é que existem projetos que têm muita dificuldade de captar dinheiro. Projetos politicamente incorretos, por exemplo. Que patrocinador vai querer investir em um filme assim? É muito mais complicado. Com isso, você acaba perdendo a chance de fazer filmes mais irreverentes. Eles acabam não existindo. Enquanto não tivermos uma indústria de cinema forte no Brasil, que se autoalimente, esse cenário não mudará. Tem de ser uma política de longo prazo. A própria indústria cinematográfica norte-americana teve incentivo durante muito tempo. E ainda hoje diversos países mantêm essa política: Inglaterra, Alemanha, França, Canadá, Argentina.

Concorda com a regulamentação da Ancine, que limitou a quantidade de salas exibindo um mesmo filme?
Olha, eu sou sempre a favor do livre mercado. Mas, quando você tem um mercado estrangulado, sem salas suficientes para atender a todo mundo, algum tipo de regulamentação é necessária. Um exemplo bom foi Jogos Vorazes, que tomou de assalto as salas de cinema brasileiras. Mas que fique claro: não foram os americanos que chegaram aqui e impuseram o filme. Os exibidores queriam, porque havia demanda. Quando a gente, na Conspiração, fica sabendo quando um filme como esse vai chegar, a primeira coisa a fazer é correr, sair de perto dele. (risos) Você muda a data de lançamento da sua produção e foge. Como, no Brasil, temos assistido à abertura de cerca de 200 novas salas de cinema por ano, acho que, dentro em breve, a Ancine poderá repensar essa resolução.

Como você tem visto a evolução do conteúdo televisivo on demand e de empresas como a Netflix e a HBO?
Acho genial. O mundo é livre como o mercado, e é muito bom você fazer a sua própria programação, para assistir quando quiser. Netflix e HBO têm investido muito em séries próprias, até para aumentar a sua carteira de assinantes. House of Cards, por exemplo, só tem na Netflix, ou seja, o cara tem de assinar para ver. E, atualmente, a TV dá ao diretor as mesmas ferramentas do cinema, quer dizer, a produção televisiva ganhou apelo visual cinematográfico.

O quanto o mercado do audiovisual brasileiro deve à lei que obrigou os canais de TV pagos a exibir conteúdo 100% nacional em horário nobre?
Nossa, deve tudo. Foi aí que o mercado de TV explodiu no Brasil – porque era super-reprimido. E o melhor: como era em horário premium, nenhuma empresa teria coragem de exibir produção ruim, né? No início, ainda havia uma variação de qualidade muito grande, mas, hoje em dia, essa variação é pequena. A competitividade está cada vez maior, e as produtoras independentes começaram a ‘existir’. O que a gente mais via era um pessoal se reunir, montar uma produtora, lançar um filme e desaparecer! (risos) Agora está se criando um fluxo e estamos formando muita gente boa. Porque, antes, o mercado se resumia, basicamente, às TVs abertas, principalmente a Rede Globo, e ao cinema. Hoje, temos milhares de horas de produção todos os anos, foi uma explosão do mercado.

Você tem alguma novidade para a TV vindo por aí?
Estamos estreando em março, no GNT, uma série chamada André Midani, do vinil ao download, com codireção da Mini Kerti. São cinco episódios que contam a vida dele. Foi tudo filmado na casa do André. Em paralelo a sua história na indústria fonográfica, contamos a biografia da música brasileira da bossa nova até os dias atuais. Tem Gil, Caetano, Arnaldo Antunes, Jorge Ben Jor, Erasmo Carlos, Marisa Monte, os intelectuais que o ajudavam nos grupos de trabalho na gravadora. E, a partir desses encontros, dessas conversas e jam sessions, vai-se entendendo o que aconteceu com a música brasileira nas últimas seis décadas.
/DANIEL JAPIASSU