‘Tiramos água de pedra pela Biblioteca”, diz Charles Cosac

‘Tiramos água de pedra pela Biblioteca”, diz Charles Cosac

Sonia Racy

22 Maio 2017 | 00h40

FOTO: GABRIELA BILO/ ESTADÃO

Com parcos recursos e muita burocracia, diretor
da Biblioteca Municipal luta para comprar livros e tocar adiante
novos projetos. Entre seus planos, uma biblioteca
infantil, alunos estudando e trabalhando por créditos e também
um acordo com o Google para digitalizar o acervo

Há cinco meses Charles Cosac sai feliz, todos os dias, de casa para trabalhar. Aos 53 anos, ele tem, pela primeira vez, um emprego com carteira assinada. “Eu venho muito alegre. Meu coração sorri”, diz à repórter Maria Fernanda Rodrigues na sala que ocupa no último andar da Biblioteca Mário de Andrade. Desde que fechou sua prestigiosa editora, a Cosac Naify, ele procurava um projeto. Pensou em estudar restauro, pensou em procurar um emprego. “Mas acho que passo aquela impressão de ser muito rico e de que o salário nunca vai me interessar”. Depois pensou que podia gastar o tempo ouvindo música, lendo. Podia ir viver no Rio. O caminho estava aberto.

Mas apareceu uma oportunidade. Filho de pai minerador, pensionista e colecionador de arte, ele aceitou no impulso o cargo de diretor da segunda maior biblioteca do País. Pediu para não ganhar nada, mas não foi possível. Disse então que doaria seu salário de R$ 5.181,29, bruto, para a biblioteca. O dinheiro ainda está na conta, mas as doações já começaram. Recentemente, ele gastou R$ 13 mil na Companhia das Letras adquirindo livros que depois deu para a Mário de Andrade. A sala infantil dos sonhos também vai sair de seu bolso. Um tipo de gestão que está se tornando marca do governo Dória.

Nem tudo, no entanto, são flores, e Cosac enfrenta a ira dos adeptos da ideia de uma biblioteca 24 horas – o que, desde o final de abril, ela já não é –, e dos defensores de uma política pública perene para a principal biblioteca do Estado. Confira os principais trechos da conversa.

Que tipo de talento precisa ter o diretor de uma biblioteca como essa?
Antes de lidar com livros, leitores e fluxos, estou lidando com vidas. Vim com a determinação de saber a necessidade de cada um, conhecê-los e saber como seria a nossa convivência.

Como as experiências anteriores o habilitam para isso?
Acho que eu fui um excelente patrão. Até agora não houve queixa trabalhista. A editora não me habilitou a assumir o cargo, mas meus 53 anos de vida sim.

Antes de assumir a biblioteca num ano de baixo orçamento, o senhor estava empenhado em fechar sua editora, que foi deficitária por muito tempo.
É diferente. A Cosac Naify era deficitária, mas nunca faltou recurso. Decidi fechar quando achei que aquele recurso estava sendo gasto de uma forma vã. Foi um ano terrível, lidei com o fim de tudo, fiquei assustado.

Por quê?
Eu me vi sem ela, que era a minha vida. Eu tentava ver o que sobrou dela em mim, o que ela significou na minha vida. E me vi subitamente sem ideias. Isso me assustou. São Paulo é uma cidade muito engraçada. Todo mundo tem um projeto e me vi sem nenhum. Comecei a achar difícil ficar aqui e cheguei a flertar com o Rio.

A biblioteca apareceu como um projeto?
Não. Eu procurava trabalho.

Como foi para Charles Cosac procurar trabalho?
Pois é, difícil. Acho que passo aquela impressão de ser muito rico e de que o salário nunca vai me interessar. Em alguns momentos nestes últimos meses pensei: por que eu? Poderiam ter pessoas mais arrojadas dirigindo a biblioteca, mas acho que nesse momento de transição tão delicado, de mudança de prefeito e congelamento, teria que ser uma pessoa muito complacente, leniente e humana para aceitar a situação e lidar com ela com muito carinho. Muitas vezes eu achei que eu era a única pessoa indicada pra assumir esse cargo, sem nenhuma pretensão (risos).

É verdade que comprou livros por conta própria?
Comprei 25 exemplares de Moby Dick para um dos nossos clubes de leitura. Não vejo mal nisso, foi uma benesse que fiz.

E fez outras compras também.
Eu não queria entrar muito nessa seara, mas enquanto eu estiver aqui não vou resistir a fazer compras. Não vou.

‘NÃO QUERO ENCHER
ISTO AQUI DE LIVROS, MAS
DE BONS LIVROS’

A biblioteca tem orçamento próprio para compra de livros.
Não é suficiente. São R$ 60 mil por ano. Meu primeiro passo está sendo passar o chapéu nas editoras. Não estou pedindo livro de graça, mas que me deem 50% de desconto como dão para as livrarias. Isso devia ser lei. Para minha surpresa, muitas se negaram. Estou numa guerra feia com a Autêntica, que ofereceu 20%, mas fui bem recebido na Globo, Rocco e Companhia das Letras, que deram 50%. Da Companhia das Letras comprei todos os lançamentos de 2015, 2016 e 2017 e estou adquirindo a série Penguin. Estou procurando vereadores para que façam essa lei. É imperativo. Trabalhamos a duras penas, tiramos água de pedra. Não dar desconto é uma tristeza.

O senhor compraria um livro de que não gosta para a biblioteca?
Compraria. Já comprei. O primeiro que eu senti vontade de comprar foi um que eu nunca iria ler, o da Rita Lee. E como estou fazendo isso? Lendo as resenhas. E estou pedindo aos amigos jornalistas que resenham livros para me avisar o que saiu ou doar a cópia que receberam.

Mas há livros não tão literários que não passam pelas páginas dos jornais, mas que são muito populares entre os leitores.
Eu preferiria não ter. Eu não quero encher isto aqui de livros. Quero encher de bons livros. Tem que ter um corpo literário, tem que acrescentar.

E a ideia da biblioteca infantil?
O projeto cresceu na minha cabeça, não é mais um fraldário e nem um lugar para pôr a criança para chorar. Agora ela será num espaço que dá para o jardim e o projeto é de Marcio Kogan. Vai ser voltado para crianças até 7 anos e sonho inaugurá-la no Dia das Crianças. Se não der tempo, fica para as férias. Eu queria que fosse um núcleo de literatura e de encontro onde tenham outras atividades, talvez uma horta. As ideias brotam, não é? Vamos ter monitores, atividades. Não gosto de contação de história. Tem que ser mágico.

E verba pra isso?
Estou pagando a biblioteca com muita alegria e orgulho. Não vai ter meu nome. Não é pra deixar minha marca. Acho que é pra compensar os filhos que eu não tive. É uma doação.

Assim como a compra sistemática de livros, esta não seria uma responsabilidade da Secretaria de Cultura?
A secretaria sofre porque é presa a eventos, como o aniversário da cidade, carnaval, Virada Cultural. As pessoas estão atentas a isso. O secretário André Sturm dá todo apoio para as bibliotecas. Ele conseguiu o ar-condicionado para a Circulante. Eu já estava quase introduzindo o leque porque não temos ventiladores e as pessoas passavam mal. Eventualmente virá com ajuda para o acervo, para o fim da obra. Agora, a secretaria, como todas as secretarias, a Prefeitura e o Brasil inteiro, está sem recursos. Temos que entender. Não adianta fazer queda de braço. Eles dão o que podem. Eu jamais competiria por verba. Isso não me diz respeito. Eu aceito tudo com uma verdade, inclusive esses R$ 60 mil. É claro que eu vou pleitear mais.

‘ESTOU FAZENDO PERFUMARIA
AQUI. PRECISAMOS DE MAIS.
A BIBLIOTECA PRECISA
DE 200 CHARLES, OU 300′

E até onde o senhor iria cobrindo esses buracos que a Prefeitura não consegue cobrir? Há limite?
Limite? Eu não sei. Não, não é um fundo sem fim. Eu sou pensionista e sempre gastei o que pude. Mas se ajudei a Cosac Naify, por que não ajudaria a Mário de Andrade?

Então é uma sorte a biblioteca tê-lo como diretor?
Muita sorte. Muita sorte. Acredito no que estou fazendo. Não é um ato de leviandade.

De quanto é o orçamento da biblioteca?
R$ 14.150.847,00. Isso não depende da relação do diretor com o secretário. O secretário depende do prefeito.

Depende do que é prioridade.
Não tenho como exigir. Não tenho cara. Estou fazendo perfumaria aqui. Precisamos de mais. A Biblioteca precisa de 200 Charles, ou 300.

O que mais aconteceu nesses cinco meses?
Estamos fechando um projeto com a FESP/SP e no segundo semestre teremos alunos estudando e trabalhando por créditos. Além disso, estou tentando ampliar um acordo com a Associação Brasileira de Encadernação e Restauro e criar um laboratório de restauros leves. Cederíamos o espaço em troca desse trabalho. E tudo indica que vamos ter o Google trabalhando aqui por um bom período.

Digitalizando o acervo?
A priori, imagens.

Uma vez o Google instalado aqui, isso poderia dar margem ao início de outros projetos?
Sem dúvida. Eu vi manuscritos que dá vontade de morder, de chorar, de desmaiar.

Foi um longo caminho para a abertura 24 horas da biblioteca e o projeto durou pouco. Não desistiram cedo demais?
O que começa mal acaba mal. Há três pilares elementares: frequência, empréstimo e o custo dessa abertura. Mas o que mais pesou foi a frequência.

O abaixo-assinado online não os faria repensar?
É uma grande farsa. Tenho certeza de que essas pessoas não vêm aqui à noite.

O senhor já defendeu que a biblioteca fosse administrada por uma Organização Social.
Eu adoraria. Temos que fazer licitação para tudo, o sistema é engessado, é difícil até para doar. A OS permite mais, obviamente, que a Prefeitura.

O senhor pode dizer quanto já gastou aqui?
Eu não sei. Juro.

Profissionalmente, está feliz?
É meio doente falar, mas eu estou (risos). Adoro vir para cá. Venho muito alegre. O meu coração sorri. Eu acho que eu vou sofrer muito quando acabar esse período.
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