A batalha do beijo contra o HIV

A batalha do beijo contra o HIV

Redação

14 de setembro de 2009 | 08h09

Vik Muniz chega hoje ao Brasil para seu maior desafio: fazer um beijo gigante usando gente como matéria-prima

Vik Muniz já transformou Mona Lisa em geleia e manteiga de amendoim, já reinterpretou a obra de Monet e fez arte com sucata, lixo e brinquedos. Criou até nuvens de fumaça para fotografar. Nada disso se compara, porém, ao seu novo desafio: fazer um beijo gigante para uma campanha sobre Aids. Convidado pelo Ministério da Saúde, Vik, que passa a maior parte do tempo em seu estúdio do Brooklin, em Nova York – de onde falou à coluna, por telefone -, chega hoje ao Rio para dar início ao trabalho.

Será a primeira vez em que usará seres humanos como matéria-prima. Vai colocar lado a lado mais de 600 portadores do vírus e seus familiares para criar a obra, que faz parte de uma campanha do governo contra o preconceito – e que tem como mote o Dia Mundial de Combate a Aids, 1° de dezembro. Embora afirme que sua arte é 100% visual, a ideia de trabalhar com pessoas veio das paradas militares da Coreia do Norte.

O que o tema Aids significa para você? Cheguei a Nova York em 1983, no auge da paranoia. Era uma situação muito dura. Perdi cinco amigos para a doença. Havia muita desinformação sobre o assunto, e isso gerava preconceito. Lembro até hoje de um amigo que fui visitar no hospital quando estava para morrer. Pela minha ignorância – e a do governo americano, que dava informações contraditórias – tive medo de beijá-lo. Sofro com isso até hoje, sempre que lembro. Você pode fazer muito mal a si mesmo sendo ignorante. O beijo é uma coisa forte. Se eu soubesse disso na época – que ele não transmitia o vírus da Aids – teria me despedido do meu grande amigo direito.

Por isso a imagem da campanha será um grande beijo? Isso. Adoro essa ideia dos beijos. Já criei de várias formas. Por que não fazer com 600 pessoas? É uma coisa íntima, mas feita de forma pública. O beijo é um ato que faz a gente pensar em muitas coisas. Tem uma ambiguidade, uma coisa física difícil de encaixar num padrão de comportamento social e cultural. Cada um será uma peça do mosaico.

É a primeira vez que você usa seres humanos como matéria-prima? De certa forma, sim. Já fiz retratos, mas é a primeira vez que uso gente nessa proporção. Quando veio o convite do Ministério da Saúde eu já estava trabalhando em projeto semelhante na China, que fica pronto em 2010.

Como é esse projeto? Fotografar mil pessoas de uma só vez. Elas formarão uma imagem com suas roupas. Na ocasião do convite do ministério eu estava justamente tentando resolver problemas de logística para lidar com essa multidão. É preciso de banheiro, comida e transporte.

Então o mosaico com portadores de HIV será inspirado nesse trabalho que está sendo feito na China? Foi meu sócio no Brasil, o Fábio Ghivelder, que pensou nisso. Temos que adaptar a técnica ao tema, que não é a doença em si, mas a discriminação contra o soropositivo. Há anos eu acompanho aquelas paradas militares da Coreia do Norte. As pessoas formam sequências de imagens que são fascinantes, tipo um mosaico.

Você esteve na Coreia do Norte? Não. Acompanhava pelo YouTube. Existe até um documentário sobre isso. Tentei ir pessoalmente, mas não consegui.Ver isso ao vivo deve ser uma experiência fantástica.

Está nos seus planos ser representado na China? Sim. Minha ideia inicial era fazer um estúdio lá, mas as dificuldades foram grandes, de distância e idioma. Mas estou há um ano e meio indo para a China, trabalho com uma galeria em Hong Kong. Minha ideia é fazer um determinado número de obras que gere uma exposição em Beijin. Não sei quando, ainda.

Quantos estúdios você tem hoje? Passo mais tempo em Nova York, mas viajo sempre ao Brasil. Tenho um estúdio no Rio, na Parada de Lucas, onde trabalho com sucata e lixo. Te nho ainda uma parceria com o MIT (Massachusetts Institute of Technology), para fazer desenhos muito pequenos, em escala microscópica. No caso do lixo, tenho a colaboração de pessoas que vivem nos lixões.

Você se considera um artista engajado? Meu trabalho como artista se limita à imagem. Não tenho pretensão de gerar mensagens políticas. Há, hoje, uma separação entre o engajamento intelectual das pessoas que produzem arte e as que as consomem. O que eu quero é ajudar com a evolução da educação visual das pessoas. Não existe uma história da imagem como existe a da literatura.

Qual a sua formação? Sou praticamente autodidata. Tenho curso completo ligado à arte e fiz desenho acadêmico em São Paulo, por dois anos. Nunca tive uma aula de história da arte.

Essa obra com gente pode gerar uma série? Nunca sei se o que estou fazendo vai virar série ou não. Essa técnica já existe, mas com intenção diversa, sem aplicação na arte contemporânea. É formidável estar na frente de centenas de pessoas fazendo uma imagem. É uma experiência nova e estava com saudade disso. Quando o artista consolida uma carreira de sucesso, perde a insegurança. Tenho saudade da insegurança. Há 20 anos eu tinha medo de que as pessoas não gostassem do meu trabalho. Hoje não tenho mais. Sei o que funciona. Essa coisa experimental me beneficia como artista e me faz sentir-me jovem e vivo. Adoro gerar uma situação muito complexa a partir de uma ideia e passar por todas os obstáculos de logística: da perspectiva ao desenho. Comecei há 20 anos em uma galeria do tamanho de um banheiro no West Village. E tinha medo de que as pessoas não gostassem da minha arte.

Você faz grandes tiragens de suas obras ou é rígido com isso? Quantas peças por imagem? O número de obras que se produz é uma convenção que só serve para satisfazer uma exigência de mercado. Serve para que o trabalho tenha uma aura de raridade, de exclusividade. As regras estão aí, tenho de lidar com elas. Por mim, eu podia disseminar a imagem milhões de vezes. Essa restrição funciona mais para o colecionador do que para o artista. Por mim, faria tiragem aberta. Mas sigo essa regra para continuar fazendo o que faço. Minha tiragem é de seis unidades para obras grandes, com quatro provas de artista.

Tem gente que reclama da arte contemporânea, diz que até caixinha de fósforos na parede pode ser chamada de arte. Isso é preconceito? Essa coisa da insignificância ou relevância da arte da contemporânea é culpa do artista, que começou a se comunicar com um público cada vez mais seleto e especializado. Não dá para o artista ou crítico fazer algo que ninguém entende. A ideia do processo artístico começa a ficar interessante quando você se comunica e municia o público, quando conversa com ele. Não se pode excluir o público com um diálogo difícil. A melhor parte é ver o que você está fazendo através dos olhos das outras pessoas. No Rio, no lixão, envolvi pessoas que nunca tinham ido a um museu, que não tinham tido contato com arte. Tenho o melhor emprego do mundo. Vivo de ideia, faço o que quero. O novo luxo é uma consciência tranquila.

Doris Biscudo e Pedro Venceslau

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