‘A barbárie de Paris não vencerá’, diz historiador

‘A barbárie de Paris não vencerá’, diz historiador

Sonia Racy

17 de novembro de 2015 | 01h33

Foto: Iara Morselli/Estadão

Foto: Iara Morselli/Estadão

Recém-chegado da Europa, o historiador Carlos Guilherme Mota não desgruda os olhos de Paris. Como pai, tem uma filha na França, numa reunião de arquitetos – um deles é Gabriel Sepe, que levou três tiros no atentado da sexta-feira. Além disso, como estudioso de história contemporânea e professor titular desse tema pela USP e de História da Cultura no Mackenzie, ele mantém um olhar atento ao que vem ocorrendo na França. “A violência do dia 13 foi um tiro na cultura democrática. Mas Paris é um símbolo forte e a barbárie não vencerá”, disse à coluna.

Em janeiro um atentado matou 12 pessoas no jornal Charlie Hebdo. Agora foram mais de 120 mortos. E franceses participaram da operação. Como explicar isso?
O que há de novo, e preocupante, é o grande número de muçulmanos jovens, na França, seduzidos por essa “violência gelada dos loucos de deus”, como definiu um historiador francês. O fato é que as migrações, inclusive de muçulmanos, eram assimiladas no passado com maior facilidade. Havia empregos, serviço de saúde, escolas para eles. Nos últimos tempos, isso ficou difícil. Os netos desses migrantes hoje sobrevivem nas periferias, com baixíssimo padrão educacional e sem acesso a empregos. Tornam-se alvos fáceis de serem arregimentados e induzidos ao radicalismo. Não surpreende, assim, a presença de franceses entre os autores do atentado. A conta chegou, e é alta para a França.

Alguma comparação do episódio com o do Charlie Hebdo?
No caso da revista, o foco era mais nítido e foi adotada a metodologia da Al Qaeda. O alvo eram humoristas laicos, cuja provocação contra o islamismo era direta. Desta vez houve um esquema diversionista, gente atirando em todo mundo.

Para um estudioso da cultura contemporânea como o senhor, o que tudo isso significa?
Significa que há um novo paradigma sendo adotado na velha Europa. Na história da humanidade, o que sempre dominou foi a violência. Os intervalos de luz, esclarecimento e democracia foram poucos. A violência do dia 13 foi um tiro nos valores da cultura democrática. Mas Paris é um símbolo forte, emblemático, de resistência, de liberdade, portanto a barbárie não vencerá.

Então ela precisa ser vencida.
Sim, e é preciso para tanto contar com uma sociedade democrática indignada, ferida, mas decidida a se defender. E já vimos sinais importantes disso, como a reação imediata do governo francês, que foi atacar as bases do inimigo, e o rápido – e crucial – apoio estratégico oferecido pelos Estados Unidos ao repassar a Paris seus dados de inteligência. E, no caso, trata-se de um apoio que não vem de um falcão, como George Bush, mas de um democrata insuspeito como Barack Obama.

Que lições, inclusive no Brasil, podemos tirar desse episódio?
Primeiro, temos de admitir: a violência está por toda parte. Veja as centenas de migrantes que ficaram no fundo do mar, quando queriam a Europa. Ou as vítimas dos insanos que nos EUA descarregam suas metralhadoras em escolas, em quem aparecer pela frente. Mas não vamos ignorar, também, a guerra civil silenciosa que ocorre no Brasil, onde o abuso é normal – o desastre em Mariana é um exemplo. O País precisa – e logo – de um projeto educacional sério, rápida formação de novos professores, defesa dos valores cívicos. Sem isso, vamos ficar nessa conversa vaga sobre direitos humanos, questão de gênero, ecologia, desenvolvimento sustentável… / GABRIEL MANZANO