‘A arte vencerá o desastre e sim sobreviverá’, garante Paulo Betti

‘A arte vencerá o desastre e sim sobreviverá’, garante Paulo Betti

Sonia Racy

01 de fevereiro de 2021 | 05h35

Paulo Betti. Foto: Silvana Garzaro/Estadão

Por conta da pandemia de covid-19, Paulo Betti diz que se sente “hibernando”, “interrompido”. Preocupa-se com a destruição do Pantanal, da Amazônia. Sente-se ligado aos povos da floresta, frequenta seus encontros, em uma relação que ele considera “visceral”.  

 Aos 68 anos, ele está escalado para fazer a novela Além da Ilusão, da TV Globo, cujo início de gravações estão indefinidas. Ele volta ao ar, porém, às 18h, na reprise marcada para março, da novela A Vida da Gente, também na TV Globo. Vive o personagem Jonas Macedo, empresário que procura compensar sua ausência na vida dos filhos por meio da distribuição de dinheiro para a família.  

 O ator, durante esse período de isolamento, participou, a exemplo de vários outros como Maitê Proença, Marcelo Serrado, Arlindo Lopes, Emilio Orciollo Netto, Júlia Rabello, Lilia Cabral, Giulia Bertolli, Mariana Lima, Marco Sacramento, de um projeto online idealizado pela atriz Ana Beatriz Nogueira, o TeatroJá. O movimento destinou parte da arrecadação para o Programa Ingresso Solidário Teatro Petragold – onde as peças foram encenadas. Esses recursos – cada ingresso custava R$10,00 – financiou fundos de auxílio emergencial para famílias compostas por técnicos e artistas do segmento teatral no Brasil.  

A ideia resultou por meio de Zoom, em peças curtas de até 50 minutos – quase todas monólogos. A transmissão ocorreu ano passado, diretamente do palco do Teatro PetraGold. A plateia? Digital, de até mil pessoas. E apenas uma personagem presencial, respeitando todas as normas da OMS. O ator fez a peça Autobiografia Autorizada, atuou e dividiu a direção com Rafael Ponzi. O espetáculo apresentou memórias do ator a partir de textos que ele escreveu na adolescência e de artigos para o jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba. Betti já fez 43 novelas e 38 filmes, dirigiu seis peças e dois filmes, e ainda está se descobrindo como escritor nesse isolamento. Tem desejo antigo de ser uma espécie de Ariano Suassuna.  

Por ora, prepara dois livros, uma autobiografia, e uma coletânea de quase três mil colunas escritas para o jornal em parceria com o jornalista José Fineis, de Sorocaba, cidade da sua infância ncia. Descendente de italianos, o ator cresceu em área rural do Estado de São Paulo e é um dos 15 filhos de uma empregada doméstica. 

 Ele diz que pessoas da sua geração aprendem com movimentos como o Me Too, de rejeição a assédio sexual no cinema e na TV. E enxerga transformações ocorrendo no meio artístico: “Tudo que parecia absolutamente normal, não é mais. Não é normal certas brincadeiras homofóbicas, não é normal as brincadeiras raciais. Pega o humor de 10 anos atrás, está tudo errado”, diz. A seguir os principais trechos da conversa com a repórter Paula Bonelli por meio de videoconferência na última quarta-feira. 

As atividades culturais são muito afetadas pela estratégia de combate à covid-19. Como avalia o impacto para o setor? 

É um desastre. Como se houvesse um grande campo de batalha, onde estamos ficando fustigados por todos os lados, parece que há um fundamentalismo que é antagonista da nossa atividade conforme nós achamos que ela deve ser exercida. Mas não há a menor dúvida de que a arte vencerá o desastre e sim sobreviverá. Nesse momento, temos que sobreviver, temos que reagir, lutar. Eu me sinto militando 24 horas por dia para tentar desmontar ‘fake news’, para tentar enxergar as coisas mais nitidamente…Não quero de jeito algum ser neutro. Quero ficar de um lado absolutamente definido que é completamente antagônico a esse grupo que ocupa no momento o poder. Dante, na Divina Comédia, coloca o neutro, aquele que não se manifesta, aquele que não cheira e nem fede com relação a algum momento que a gente tá vivendo, no fogo do inferno. 

 

O que acha desses movimentos de rejeição ao assédio sexual no ambiente do cinema e do entretenimento, como o #Me Too? Afinal, o movimento se multiplicou entre as atrizes de Hollywood contra a cultura de assédio no principal cenário do cinema mundial, e repercutiu em todos os cantos do planeta.

Acho que é um aprendizado para a minha geração. O politicamente correto, em todos os setores, é um grande aprendizado. É uma mudança de paradigma, né. Tudo que parecia absolutamente normal, não é. Não é normal certas brincadeiras homofóbicas, não é normal as brincadeiras raciais, que pareciam absolutamente… Pega o humor de 10 anos atrás, está tudo errado.

Esse movimento tem mobilizado muita gente, o que acha disso? 

Acho necessário que essas coisas sejam discutidas. Se tudo for comprovado, se as acusações se provam verdadeiras, é lamentável. Mas não gostaria de ter que participar de nenhum compliance, não gostaria de ter que julgar as pessoas. Às vezes você pode fazer alguma injustiça. Tem que ir com calma também, porque é muito perigoso, se alguém inventar uma coisa sobre você… Nós estamos nesse momento delicado. De uma hora pra outra, você vira um inimigo público.

Já dá pra avaliar a atuação de Mário Frias à frente da Secretaria Especial de Cultura? 

É um equívoco, vamos torcer pela ineficácia. Vamos acreditar que eles não vão fazer nada, porque se eles forem eficazes é capaz de eles causarem mais danos do que se não forem. Tomara que ele consiga fazer o certo com relação à Cinemateca de São Paulo.

Como a pandemia te afetou?

Fui pego de surpresa pela pandemia em Portugal. Estava fazendo uma turnê em 20 cidades com a peça Autobiografia Autorizada. Em cinco cidades, a gente tinha vendido todos os ingressos, já estava confirmado, sabe quando é espetáculo comprado? E foram todos desmarcados. E eram os lugares mais incríveis, Açores, Madeira. E fui interrompido, a temporada da minha peça foi interrompida. Decidi escrever essa peça que se passa na minha infância e na minha adolescência. Porque minha mãe teve 15 filhos, eu fui o 15º, eu nasci temporão, eu mamei até os 7 anos de idade. Então tinha uma série de coisas engraçadas, curiosas, e tudo que começaram a me soar engraçadas pra falar. Estreei em 2015 e desde então venho fazendo isso, viajando com a peça, fazendo palestras, encontrando estudantes, fazendo uma das coisas que eu mais gosto, que é a agitação cultural.

E como é fazer arte à distância, sem público?

Aprendi, estou fazendo agora com você. Seria melhor que a gente tivesse tête-à-tête, mano a mano, mas está quebrando um galho aqui. Estou te vendo, estou querendo falar contigo, estamos conseguindo, nosso teatro aqui está funcionando. Comecei a acreditar nisso, entende?  

 O que sente mais falta no isolamento imposto pela pandemia? 

Estou com vontade de trabalhar, suar a camisa, fazer, decorar texto, passar cena, fazer maquiagem. Sou apaixonado pelo trabalho do ator, sabe? Até não tem essa tão grande relevância do ponto de vista artístico, somos mais transmissores do que criadores, somos criadores sim, também, claro, a gente corporifica os papéis, mas sempre dei muita importância para o texto. Sempre tive uma consideração com os autores. Para mim eles estão no Olimpo. 

A arte consegue dar conta do que a gente está vivendo hoje?

A arte é absolutamente necessária, quer dizer, qual é o sentido da vida? Por que nós estamos aqui? Eu estava falando sobre a minha peça que é também sobre a morte. Agora, nós estamos atravessando a peste, a peste mitológica. Há uma pandemia. Não dá pra gente ser feliz. Eu me sinto como se eu tivesse hibernando.

 

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