‘O que o refugiado quer é voltar para casa’, diz educadora

‘O que o refugiado quer é voltar para casa’, diz educadora

Sonia Racy

04 de abril de 2019 | 00h40

PUNEH ALA’I COM CRIANÇAS REFUGIADAS NA SÍRIA. ARQUIVO PESSOALFoi em 2013 que a californiana Puneh Ala’i, filha de iranianos, teve um estalo em sua casa em Los Angeles. Abandonou emprego e vida confortável e viajou para o cenário devastado na fronteira da Síria com o Líbano, cheia de campos de refugiados. Entrou ilegalmente, levando coisas pra distribuir e com uma ideia na cabeça: ajudar a educar crianças, dar-lhes um futuro. Fundou a escola Pássaros da Esperança (Birds of Hope) – onde hoje estudam 3 mil crianças, 2 mil delas órfãs – e criou a ONG For The Unseen (Pelos Invisíveis), que já atua no Líbano e no Camboja.

O que aprendeu nesses cinco anos? “O que tenho a dizer é simples: jamais encontrei um único refugiado que quisesse abandonar sua casa”, disse ela à coluna, por e-mail. Descobriu também a importância, entre as crianças, da “arte terapia” para superar o trauma do abandono. Na quinta-feira, 11, Puneh (na foto ao alto, com crianças sírias) estará em São Paulo e será o destaque entre as 15 palestras do encontro Class Up Escolas Exponenciais, no ExpoCenter Norte. Depois, participa de debates em universidades.

O que a levou a dar essa virada radical em sua vida?
Um dia, num café com um amigo em Los Angeles, ele me falou sobre um primo que foi assassinado por protestar pacificamente. Fiquei intrigada, pesquisei o assunto e acabei decidindo ajudar os necessitados.

Foi preciso começar do zero. Onde arrumou dinheiro?
Fiz muita, muita pesquisa. Usando Google, lendo livros sobre como fazer trabalho assistencial. Tudo foi sempre instintivo, muito pessoal. Levantei fundos conversando com as pessoas, uma por uma, e tocando um blog em que ia contando às pessoas as minhas viagens.

Teve problemas com as autoridades da Síria?
Não, nenhum. Alguns funcionários da Watan, entidade da Turquia, ajudaram-me a cruzar a fronteira na primeira viagem.

Cuidar de uma criança refugiada exige uma preparação e conhecimentos especiais?
Definitivamente sim. As crianças sírias são pesadamente expostas ao trauma de viver numa zona de guerra. O desgaste psicológico é devastador. Uma das ferramentas mais úteis é a “arte terapia”, que as ajuda a superar o trauma através da arte, num ambiente calmo, expondo o problema de modo a removê-lo da mente.

Você criou a ONG Pelos Invisíveis. Por que invisíveis?
Porque são milhões de pessoas que não são olhadas. Esquecidas, jamais ouvidas. Aprendi demais com essa experiência, mais do que conseguiria explicar aqui.

Depois da Síria você atuou no Líbano, agora tem base no Camboja. Alguma diferença de uma missão para outra?
Trata-se sempre de crianças que vivem em extrema necessidade, precisam de amor e cuidados. Comecei na Síria com trabalhos de ajuda imediata. Depois abrimos uma escola para refugiados no Líbano e em seguida ajudamos crianças cambojanas na fronteira com a Tailândia.

A Venezuela, na fronteira com o Brasil, vive um drama migratório intenso também. Faria alguma comparação entre as várias situações?
Não conheço a experiência venezuelana. O que posso dizer do meu trabalho é que jamais encontrei um único refugiado que quisesse abandonar sua casa, ir viver em outro país, com uma língua que ele não entende, uma nova cultura e novos ideais. A dificuldade de ser um refugiado é enorme. O que todos eles querem é voltar para casa.

Qual mensagem pretende trazer às plateias brasileiras?
Se há uma mensagem, ela é simples: nos amarmos e apoiarmos um ao outro, principalmente se o outro é um estrangeiro, separado por cultura, religião. E arrumar lugar para essas pessoas em seu coração, mesmo que não consiga entendê-las. / GABRIEL MANZANO

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