‘Nossa memória está virando cinzas’, lamenta o príncipe

Sonia Racy

04 Setembro 2018 | 00h50

D. JOÃO DE ORLEANS E BRAGANÇA

D. JOÃO DE ORLEANS E BRAGANÇA. FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK

Dom João de Orleans e Bragança está se dispondo a ceder parte de seu acervo para o governo federal na tentativa de ajudar na reconstrução da história do Brasil — conforme adiantou ontem este blog.  Essa doação, em forma de empréstimo ainda a ser definido, incluiria — entre outras — até a mesa onde foi assinada a Lei Áurea, hoje fazendo parte das preciosidades da casa onde ele mora, em Paraty. Há também gravuras, telas e fotografias da coleção do imperador D. Pedro II.

Em conversa com a coluna, “Joãozinho príncipe”, como ele é conhecido, revelou que os detalhes dessa operação “serão decididos com a direção do Ibram e do Museu Nacional”. Arrasado com o ocorrido, explicou: “Sigo o dever histórico da família imperial de estar presente e servir ao Brasil sempre.” Os moldes do “empréstimo” seriam os mesmos usados ao montar, com peças cedidas, o Museu Imperial de Petrópolis, a Pinacoteca de São Paulo e o Instituto Moreira Salles.

O sucessor mais popular da família acredita que o triste episódio do domingo foi “mais um resultado do saque que nossos dirigentes fazem ao Brasil”. Indignado, ressaltou que, na hora de se tentar apagar as chamas, “não havia água nos hidrantes, não havia recursos de defesa contra fogo” aprovados pelo Corpo de Bombeiros e só uma escada Magirus servia, solitária, para combater o incêndio. Ele esteve ontem no local para verificar o tamanho do estrago.

‘SÓ HÁ RAPINAGEM,
À ESQUERDA E À DIREITA.
SÃO TODOS CULPADOS’

Para o também fotógrafo, que mora boa parte do ano em Paraty – onde mantém uma imobiliária e a Pousada do Príncipe, o desastre é o retrato da decadência humana e política a que chegou o Brasil. “A memória, a identidade, a nossa história, tudo reduzido a cinzas.” Este, desabafa, “é o quadro do País” onde não existe “nenhum interesse cívico, da nação, com o futuro. Só a rapinagem de esquerda e de direita, sem limites. São todos culpados”.

Diferentemente de outros membros na família, ele não acha que os sucessores da família imperial deveriam entrar na política. O que não quer dizer que não tenha opinião sobre o que vê. Ele diz ter certeza de que os governantes brasileiros não têm mais condição de dar nada ao País. “Ou se reforma a máquina do Estado e do governo ou tudo vai continuar igual, com os centrões e os ‘golpistas’ aliados aos ‘golpeados’. Para mim, a maior parte dos líderes da esquerda e direita perderam a moral, a ética e o respeito. Não deveriam se candidatar.”

A criação de museus e instituições de cultura faz parte da valorização da identidade de uma Nação – e, segundo Joãozinho, D. João VI sabia, naqueles idos do início do século XIX,  que o Brasil seria em breve independente –e assim precisaria se conhecer e se valorizar como povo. “Quatro anos antes da independência, D. Pedro I adquiriu para o museu uma coleção de múmias numa época em que não havia grande interesse pela história egípcia.” E a imperatriz Tereza Cristina, trisavó de dom Joãozinho, trocou com seu irmão, rei das Duas Sicílias, na Europa, vasos etruscos por peças e ornamentos indígenas brasileiras então de grande interesse na Europa.

Quanto às promessas de reconstrução, ele diz que “estão mentindo (as autoridades), pois o acervo de 20 milhões de peças catalogadas se perdeu para sempre. Como também se perderam 200 anos de trabalho de quem se dedicou à construção e à pesquisa no Museu Nacional, funcionários dedicados e educadores”.

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