Para o veterano Lorca, ‘brasileiro não cuida bem da memória’

Para o veterano Lorca, ‘brasileiro não cuida bem da memória’

Sonia Racy

06 Agosto 2018 | 00h20

IARA MORSELLI /ESTADÃO

Ainda na ativa, o fotógrafo recebe homenagem
da 
SP-ArteFoto, tem ampla retrospectiva no Itaú Cultural,
compara a Pauliceia de suas antigas fotos com
a Sampa de hoje e conclui: a cidade parece ’embrutecida’

Aos 96 anos, German Lorca está em plena atividade. O fotógrafo paulistano, nascido no coração do Bráz, ganha duas grandes homenagens ainda neste semestre. A primeira, por conta da SP-Arte/Foto, começa dia 22, no JK Iguatemi. O artista foi convidado a revisitar e fotografar novamente cinco lugares de SP que despertem nele memórias afetivas e que resgatam o crescimento das últimas décadas. O ensaio inédito será publicado na revista da SP-Arte/Foto. A segunda homenagem será feita pelo Itaú Cultural, a partir do dia 25: a obra de Lorca será toda apresentada em exposição retrospectiva que marca os seus 70 anos de trajetória fotográfica. Serão mais de 150 fotos que vão ocupar dois andares do prédio do instituto.

O fotógrafo recebeu a coluna em seu estúdio, na Vila Mariana. Fundado por ele desde 1952, o local agora sofre também as agruras das mudanças na cidade: dará lugar a um empreendimento imobiliário nos próximos meses. Para Lorca, no entanto, não adianta olhar para trás. “O progresso é inevitável. A cidade vai se modificando…” – a ponto de ele achá-la “embrutecida”. Comércio e a indústria “se desenvolvem, a cidade muda, a atividade das pessoas muda”, disse à repórter Marilia Neustein. Em meio a obras que estão expostas na Tate Modern, em Londres e vencedoras de prêmios internacionais de fotografia, Lorca não se espanta pelas mudanças tecnológicas. “Temos que acompanhar, né?” sugere.

Cheio de saúde – fruto de ginástica, alimentação saudável e de “não fumar de jeito nenhum”– Lorca, tido como um dos mestres da fotografia brasileira, lamenta a pouca memória do País e recorda histórias como a de quando quase se afogou no Rio Tietê. No trabalho de andar pelos mesmos lugares quase 60 anos depois, se questiona: “O prédio ficou velho, as crianças não existem mais… como se faz?”. Confira os melhores trechos n

a entrevista abaixo.

O senhor revisitou alguns lugares que já fotografou para sua exposição na SP-Arte/Foto. Como foi essa vivência?
Eles pediram para fazer uma foto comparativa de 1950 e agora. Na época, eu e um amigo que era pintor saíamos procurar ambientes para fotografar, momentos decisivos. Fomos à Mooca, que era um bairro popular, onde as coisas aconteciam. E, andando por lá, vi dois meninos brincando, achei interessante e fotografei. Esse trabalho, visto mundialmente, me deu uma medalha de ouro. Agora voltamos ao mesmo local, mas ele está muito diferente. O prédio ficou velho, as crianças não existem mais, como se faz? Antes não havia cercas, agora os terrenos estão cercados. E o prédio da foto é um prédio do governo, está um pouquinho abandonado.

Com seu olhar de fotógrafo, como o senhor vê as mudanças ocorridas em São Paulo?
O progresso é inevitável. Acho que a cidade vai se modificando, se transformando. E vai para diante. O comércio, a indústria… desenvolve tudo. A cidade muda, assim como muda a atividade das pessoas.

Ao revisitar esses locais acredita que o brasileiro tem pouco cuidado com a memória e com a conservação da cidade?
Eu acho que o brasileiro tem pouca memória e não cuida bem dela, não se conservam muito as coisas. A cidade cresce e, às vezes, parece embrutecida. Cresce de forma desordenada. Não sei dizer se isso é natural das pessoas, no entanto.

Tem saudade de pegar a máquina e sair por aí fotografando sem compromisso?
Não tenho. A gente tem que acompanhar o progresso também. Senão seria, igualmente, uma pessoa atrasada.

De que forma o sr. acha que mudou a relação entre fotografia e tecnologia? Com o celular a pessoa pode bater muitas fotos, vê na hora, corrige…
É muito difícil, mas o celular é consequência da atividade humana, de se chegar a novos descobrimentos ou a novas invenções. Acho que, como está, ficou uma relação mais descartável sim. Mas o digital já é uma realidade. Não podemos voltar para trás, temos que acompanhar, né? Eu mesmo já fiz uma exposição de retratos todos feitas pelo celular. O cinema, por exemplo, melhorou muito. Foi uma consequência inevitável. É claro que em algumas partes do mundo as pessoas ainda insistem em usar máquinas analógicas, mas tudo isso é só saudosismo. O mundo digital avançou demais. As fotos continuam a ser momentâneas, podem ter um resultado excelente como pode ter um resultado não tão bom. Isso vai existir em todas as atividades, da fotografia e do cinema, vai continuar a mesma coisa.

Para realizar essa exposição de retrospectiva da sua carreira, no Itaú Cultural, como foi mergulhar em seu acervo?
O museu teve acesso a todo o meu material, que já estava registrado em digital e também a reserva de arte analógica – que é um pouco mais valorizada.

Citaria fotógrafos contemporâneos que o senhor admira ou cujo trabalho acompanha?
Os fotógrafos contemporâneos de academia já se foram. A verdade é que agora todo mundo é fotógrafo (risos)! Admirei muitos fotógrafos brasileiros, como Francisco Albuquerque, do Nordeste.

Quando o senhor começou a fotografar essa não era uma área fácil de desenvolver. Hoje existe até uma feira de fotografia. Como vê esse crescimento ?
Sim, temos uma feira de arte e fotografia. Nós não temos tradição de fotografia no Brasil, mas o tema já começou a se desenvolver. Quando eu quis aprender fotografia, tínhamos que fazer de tudo: anúncios, laboratório, fotografar, ficar atrás da máquina. Ninguém ensinava, aprendíamos com os companheiros.

O senhor frequentou o Foto Cine Clube Bandeirantes, uma associação de fotógrafos que criavam novas tendências na fotografia. De que maneira o clube o ajudou e influenciou em sua criação?
Foi uma verdadeira escola. Porque eram pessoas que tinham possibilidade financeira para um esporte que não era barato – e que se dedicavam a isso. Médicos, engenheiros, professores, químicos, dentistas, farmacêuticos. Foi no Foto Clube que aprendi o que era fotografia de verdade. E tinha muita troca entre nós. Aí realmente fui comprando material, aprendendo mais, até que me libertei do clube. Mas eu continuava fazendo arte. Quer dizer, a arte que eu imaginava que fosse arte. Isso também se discutia muito: o trabalho do fotógrafo.

Qual área da fotografia o senhor gosta mais de produzir: fotos conceituais, paisagens, retratos, a cidade?
Isso é muito difícil de dizer porque eu aprendi de tudo. Fiz retrato, indústria, reportagem, fiz tudo na fotografia, da micro à macrofotografia, por incrível que pareça. Mas, claro, isso era por necessidade, não por gosto. Sempre gostei muito de fazer paisagens e retratos.

E atualmente?
Hoje eu não tenho preferência. Porque para fotografar é preciso ter… tônus vital, dizia um meu amigo. Precisa sair a campo e registrar imagens, e é preciso ter energia. Veja o (Sebastião) Salgado, por exemplo, ele leva quatro, cinco auxiliares para realizar uma sequência de fotos. Não é tão fácil fazer fotografia. Então, conforme o tipo de trabalho, sempre o fotógrafo precisa ter um auxiliar. Porque a fotografia é um momento decisivo. É aquilo e acabou.

O senhor tem fotografias preferidas suas?
Ah, é muito difícil. Todas elas são… não todas, mas tem algumas que são preferidas. Entretanto, enumerar é difícil. Mas tem fotografias das quais eu gosto mais do que de outras. Algumas marcaram a minha vida.

E fotografou momentos importantes do Brasil…
Ah sim. Cartier Bresson dizia que era o momento decisivo, que ele fazia milhares de fotografias, e sempre tinha uma que era especial…