Incentivos ajudaram a garantir o audiovisual contra a crise, diz cineasta

Incentivos ajudaram a garantir o audiovisual contra a crise, diz cineasta

Sonia Racy

23 Janeiro 2017 | 01h00

andrucha

 

Para o Andrucha Waddington, que está lançando a sequência
de Os Penetras, os mecanismos de apoio ajudaram
e o momento é bom: “Em tempos difíceis,
as pessoas tendem a ir mais ao cinema”

Andrucha Waddington acaba de estrear a primeira sequência de sua carreira. A comédia Os Penetras, que levou mais de 2,5 milhões de brasileiros aos cinemas em 2012, ganhou continuação, o que deixou o diretor com certo “frio na barriga”, confessou em conversa com a repórter Sofia Patsch, por telefone, enquanto embarcava para viagem de férias com a mulher, Fernanda Torres e os quatro filhos.

Para o diretor, esse é um bom momento para o cinema brasileiro, já que, segundo ele “em tempos de crise as pessoas tendem a ir mais ao cinema”. E o cenário otimista não para aí. Andrucha também contou que a crise não afetou tanto o mercado audiovisual. “As empresas estão lucrando menos e investindo menos, mas os mecanismos de incentivo continuam ativos dentro da própria indústria. Eles não deixaram a crise atingir tanto o cinema e o audiovisual”.

Waddington lembra que a comédia ainda é o gênero que mais agrada ao público brasileiro. Outros, como terror e suspense, estão “começando a pipocar” por aqui, mas “ainda falta um grande sucesso para o gênero se consolidar de vez”. E aposta no que chama de “suspense sobrenatural espírita”, O Juízo, gravado em Minas Gerais, com Fernanda Montenegro – sua sogra – e o cantor Criolo no elenco. Mas ainda vai demorar para o público conhecer a história, que estreia só no Dia de Finados. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Quais os desafios ao produzir a sequência de Os Penetras, já que o primeiro foi um grande sucesso de bilheteria?
Fazer uma sequência tem sempre uma armadilha, que é o risco de se repetir a história. Com certeza esse foi o grande desafio e acho que conseguimos superá-lo. Continuamos fiéis aos personagens mas em um contexto diferente.

Espera que tenha a mesma repercussão do primeiro, que levou mais de 2,6 milhões de espectadores aos cinemas? 
O importante é fazer um filme que conte uma boa história. A bilheteria, claro que a gente torce para que aconteça, mas não dá para ficar pensando só nisso, se não você fica louco. Como o primeiro foi um sucesso, o segundo acaba gerando muita expectativa. Dá um frio na barriga.

Como foi o reencontro com os atores?
O mais legal de tudo foi reencontrar essa família. É isso, nas filmagens do primeiro longa nos tornamos uma família. Como eu nunca tinha feito uma sequência, não estava acostumado a chegar ao set no primeiro dia de filmagens e os atores já terem incorporado os personagens. E dessa vez foi assim, os personagens já estavam totalmente prontos. Foi muito legal.

O tema central continua sendo o malandro carioca que usa e abusa do ‘jeitinho brasileiro’?
Sim, totalmente. Acho que resgata, inclusive, os personagens clássicos das chanchadas, muito presentes também nas comédias italianas dos anos 1960, os pequenos golpistas adoráveis com quem o público se identifica e que no fim acabam se dando meio mal.

O momento que o Brasil está passando com a Lava Jato e todos os escândalos lhe deu mais elementos para montar a história?
Não, no filme vamos encontrar outro tipo de golpe. A Lava Jato e tudo mais já está tão massacrado nas páginas dos jornais que, de certa forma, esses personagens são café com leite perto do que acontece no País. Há uma coisa curiosa, em tempos de crise as pessoas tendem a ir mais para o cinema.

Por quê?
Porque é um programa relativamente barato, de experiência coletiva. Acho que as comédias fazem bem nessas horas. O cinema era relativamente mais barato em outros tempos.

Hoje, um ingresso sai até por R$ 40, muita gente não considera mais um programa ‘barato’…
Acaba sendo barato comparado a um programa de férias. O preço médio do ingresso sai R$ 12 para quem tem carteirinha.

Ainda considera a comédia o gênero mais fácil para se agradar ao público brasileiro?
Acho que é um gênero que se estabeleceu no nosso cinema, assim como as cinebiografias e os filmes espíritas. Aliás, acabei de fazer um filme de suspense sobrenatural, chamado O Juízo.

O gênero suspense/terror ainda é um tema muito pouco explorado no Brasil…
Mas vejo que tem uma safra de filmes de terror e suspense sendo lançados, o que falta é um sucesso para o gênero se consolidar de vez. Uma hora isso vai acontecer.

Acha que o sucesso pode vir com esse novo filme, O Juízo? Como será a história?
Não posso contar ainda a história, mas é um suspense sobrenatural espírita que se passa em Minas Gerais, com Fernanda Montenegro, Carol Castro, Felipe Camargo, Criolo e Fernando Eiras no elenco. Será lançado dia 2 de novembro, no Dia de Finados.

O quanto a crise econômica que o Brasil está passado afetou o mercado audiovisual?
As empresas estão lucrando menos e investindo menos, mas temos o fundo setorial e os mecanismos de incentivo, que funcionam a partir da própria indústria. Esses mecanismos continuam muito ativos, então isso fez com que a crise fosse mais branda para a indústria do audiovisual como um todo.

O que você acha do atual cenário das leis de incentivo, com a CPI da Lei Rouanet e todas as lacunas e irregularidades que existem?
Acho que as leis sempre têm que ser revistas e aprimoradas para se ter um controle bastante rígido, até porque a gente está falando de dinheiro público. Acho que todo o tipo de apuração e aprimoramento de lei é valido.

O deputado Alberto Fraga, que está presidindo a CPI da Lei Rouanet, afirmou, em uma entrevista, que o MinC está sendo utilizado por meia dúzia de pessoas que são simpatizantes do PT e que só esses conseguem recursos. Concorda com essa afirmação?
Não, não concordo com isso. Acho que tem muita gente séria trabalhando. Acho um absurdo isso, não é uma meia dúzia de pessoas. Eu conheço pouco da estrutura de teatro, mas eu sei que tem muita gente produzindo seriamente e na parte do audiovisual também. É um setor que emprega milhões de pessoas, não são poucos milhões e é óbvio que se há quem usa a lei para fins que sejam ganhar dinheiro e não produzir, isso tem que ser apurado e punido. Não dá para dizer que o setor inteiro é trambiqueiro. Sendo que a grande maioria é muito séria. É leviano dizer que uma meia dúzia está se dando bem em cima das leis, mesmo porque a lei só patrocina o que o MinC autoriza. Então, o produtor cultural tem todo o direito de inscrever o projeto na lei e cabe ao ministério validar esse texto, ou não, como beneficiário da lei.