‘É muito bom falar sobre relações humanas neste momento difícil’

‘É muito bom falar sobre relações humanas neste momento difícil’

Sonia Racy

25 Julho 2016 | 00h30

 FOTO DENISE ANDRADE/ESTADÃO

FOTO DENISE ANDRADE/ESTADÃO

 

O ar de orgulho e satisfação de Fábio Assunção ao olhar para o filho João – na rodada de divulgação do filme Entre Idas e Vindas – é de se reparar. Esse é o primeiro trabalho dos dois juntos. No longa, dirigido por José Eduardo Belmonte, eles interpretam pai e filho que saem em busca da mãe do garoto. A ideia de João fazer o papel veio do próprio Fábio, há cerca de dois anos. Inspirado por outros pais atores que trabalharam com os filhos, como Will Smith, Assunção acreditou que sua relação com João poderia somar muito à história. “Não só porque ele não viria com os vícios de outros filmes – afinal, esse é seu primeiro trabalho –, mas porque seria algo único. Achei que a nossa intimidade transpareceria naturalmente”, contou o ator à repórter Marilia Neustein.

E não foi apenas a troca com João que deixou o ator entusiasmado com todo o processo  do filme – que entrou em cartaz nos cinemas na semana passada. A possibilidade de participar de uma história que tratasse de relações de afeto, como a amizade, o amor e a família, o conquistou logo de primeira. “É muito bom poder falar de relações humanas neste momento difícil.”

Ativo nas redes sociais, o ator se assusta com as reações dos leitores e com a banalização da violência. “Esse ‘quase ódio’ fica evidente na rede social, que também é bipolarizada. Existem figuras muito carinhosas, que manifestam suas coisas positivas. Mas, de repente, vem uma pessoa muito agressiva e você fala: ‘gente, que ódio é esse?’”, observa.

O desânimo, no entanto, não contamina o ator, que prefere pensar em como pode contribuir para um debate mais construtivo sobre o País. “Em vez de ficar falando que todos os políticos são um bando de ladrões, tenho vontade, hoje, de começar a me preparar para uma nova sociedade”, ressalta. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

O filme trata de relações humanas e é a primeira vez que você trabalha com seu filho, João. Como foi esse processo?

Estávamos na casa do Otávio Müller e, conversando com o direto José Eduardo Belmonte sobre o filme, fiquei pensando quem poderia fazer o papel do meu filho. O João, na época, tinha nove anos. Tive a ideia e propus para os dois. O João adorou, mas até fazer o filme de fato passaram-se dois anos. O que na verdade foi perfeito porque o personagem tinha 11 anos. Foi mais ou menos o tempo de ele chegar na idade do personagem. Nós achamos que a presença do João poderia trazer um ganho para a história. Não só por ser o primeiro filme dele – e, por isso, não vir com vícios que qualquer ator traz de outros filmes em que trabalhou –, mas porque seria uma coisa única.

Como foi trabalhar com ele?

Eu estava curioso para saber o que ia trazer. Acho que, devido a essa intimidade que a gente já tem na vida, a afetividade transpareceu no filme. Quando vi Will Smith com o filho interpretando percebi que, além do trabalho dos atores e da qualidade do filme, existia essa intimidade dos dois e quis viver isso também.

A preparação foi diferente por estarem juntos?

Foi legal né, filho? (olha para João) Durou cerca de duas, três semanas. E as meninas (atrizes do elenco) foram fundamentais para que o João se sentisse em casa. Eu já fiz muitos trabalhos com crianças e nem sempre “encaixa”. O João, de cara, deu certo com as meninas. Ele estava em um ambiente muito familiar, o que o deixou muito à vontade. (João, que ficou ao lado do pai durante a entrevista, fala: “Eu adorei ter participado. Fiz um teste e gostei. Só que eu não sei ainda se eu vou ser ator”.) E não tem pressa nenhuma para decidir.

O filme aborda relações de afeto, amizades entre as mulheres, cumplicidade entre pai e filho. Como é poder falar desses temas em meio a maneira violenta como as pessoas se comunicam atualmente?

Estamos vivendo uma crise de valores. Concordo que o filme fala sobre amizade, cumplicidade entre filhos e pais. E acho muito importante isso. É muito bom poder falar de relações humanas neste momento difícil. Apesar de eu sempre ter feito trabalhos muito dramáticos, venho de cinco anos de Tapas e Beijos, uma série na qual não tínhamos nenhum compromisso com o drama. Pelo contrário, quanto mais a gente se divertia, melhor ficava o programa. E agora vejo como é prazeroso estar em um trabalho que fala sobre relações humanas em uma outra forma de narrativa. Para mim, o filme resgata esses valores e é um respiro para toda essa agressividade que vemos no mundo hoje, que é quase um ódio.

Você é ativo nas redes sociais. Consegue ver essa crise de valores nas manifestações que acontecem pela internet?

Eu estou usando mais o Instagram agora. Até por causa da novela que eu estava fazendo, o Instagram é mais rápido e um pouco diferente. Esse “quase ódio” que eu falei fica evidente na rede social, que também é bipolarizada. Existem figuras muito carinhosas, que manifestam suas coisas positivas. Mas, de repente, vem uma pessoa muito agressiva e você fala: “gente, que ódio é esse?”. Realmente, a internet nos faz ter muito acesso a cenas e situações de violência. Antigamente, só assistíamos cenas assim em filmes ou na vida real, se acontecesse conosco. Hoje, você vê um filme de terror e nem se assusta muito porque tem coisas muito parecidas na internet.

Como vê o momento político que vivemos atualmente? Muitos artistas têm se posicionado. Você acha essa atitude importante?

Quando penso sobre política, penso como cidadão. Talvez a única coisa boa de ser artista, nesse sentido, seja ter acesso a pessoas que também estão inquietas com isso. Que não estão conformadas. Posso dar um exemplo? Na última peça que dirigi, Dias de Vinho e Rosas, tivemos a oportunidade de fazer três debates. E pude ter nessas discussões a presença do Drauzio Varella, da Barbara Gancia… ser artista é bom porque propicia esses momentos.

E como cidadão?

É preciso se informar e realmente entender o que está acontecendo. O que me incomoda são pessoas dando opinião sem terem informação. Brasília é um mundo próprio, que tem o seu código. Estou com 44 anos e, como cidadão, nunca vivi em um país sem violência ou com uma organização política que favorecesse o povo brasileiro. Sempre foi assim. Quando eu era criança eram problemas da pós-ditadura. Depois, quando comecei a fazer televisão, ao 19 anos, era uma inflação absurda, tudo dolarizado. Tivemos impeachment, dinheiro confiscado. Nunca existiu esse Brasil dos sonhos. O que eu não consigo entender de verdade são os privilégios para os políticos, pessoas que estão servindo o País. Agora, ser partidário não é a questão. O que eu tenho vontade de fazer hoje, politicamente, é, no lugar de ficar falando que todos os políticos são um bando de ladrões, começar a me preparar para uma nova sociedade.

De que maneira?

Tem a questão de gênero, por exemplo, que é super importante e que vai mudar todo o formato da sociedade. Não só das famílias brasileiras, mas também sobre o que vai ser consumido, em termos de produto para entender esse novo público. Ou sobre a reforma política, que é extremamente necessária. Que reforma vai ser essa? Que Brasil eu quero para esse moleque (aponta para João) ou para minha filha, que tem 5 anos?

Você citou a importância do elenco feminino no filme e também a questão de gênero. Como vê essa discussão que ganha cada vez mais espaço, não apenas na imprensa, mas também na televisão?

Realmente eu gosto muito da ideia de você poder se autodefinir, dessa liberdade. Isso está na Constituição. As pessoas não podem ser discriminadas em hipótese alguma, por nenhuma questão. Nem pela raça, pela religião, pelo sexo. A Constituição defende igualdade, justiça… E é exatamente o que a gente não vive. Sou a favor de que as pessoas se posicionem livremente, porque acho que é a única forma de elas serem felizes e de nós termos uma sociedade saudável.

Como esse debate acontece no seu trabalho?

Eu vou fazer uma novela da Glória Perez que vai discutir o mundo trans. E a Glória sempre aborda os temas de forma profunda e bem preparada. Ela já está estudando isso há algum tempo. Acho que a novela também vai mexer muito com o brasileiro no sentido da consciência. Não tratará do tema de forma cômica ou risível. Não pode lidar com o assunto como se fossem uma bobagem. A questão da violência, por exemplo, é muito séria.