‘2010 vai ser uma campanha verde’

‘2010 vai ser uma campanha verde’

Redação

31 de agosto de 2009 | 09h33

Para João Paulo Capobianco, Marina Silva e o PV levarão a causa ambiental ao centro do debate na corrida presidencial

Aos 52 anos, pai de cinco filhos, o biólogo, fotógrafo e ambientalista João Paulo Capobianco vem lutando, há muito, para que a causa ambiental seja vista como aliada do desenvolvimento, e não sua inimiga. Coisa que começou a aprender ainda menino com o avô, lá no Sul de Minas. Que, na contramão de todos, durante a crise da Bolsa, nos anos 30 do século passado,recusou-se a derrubar as matas para vender a madeira e sobreviver. “Foi o único a fazer isso e defender as árvores”, lembra ele.

Depois de longa militância na SOS Mata Atlântica e no Instituto Socioambiental (ISA), e até maio de 2008 braço direito de Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente ( saíram juntos de lá), Capobianco dedica-se agora à candidatura presidencial da senadora pelo PV. Animado com a ideia de que o meio ambiente será um tema de destaque na próxima campanha eleitoral, afiram: “Teremos uma campanha verde”. E não esconde a razão pela qual Marina e ele deixaram o governo: “Fomos embora ao perceber estava começando um retrocesso na questão ambiental.”

Até onde você acha que pode chegar a candidatura de Marina Silva?
Ela já chegou, é uma realidade. Não a vejo como futuro, mas como um fenômeno presente.

Mas que impacto ela pode causar na campanha presidencial?
Vai entrar com uma agenda séria, responsável, urgente. Não há mais como tirar de cena o debate sobre a economia de baixo carbono como uma questão vital para o País. Teremos uma campanha verde. Isso mexeu com a paisagem política.

Mexeu como?
Há candidatos que não dominam o tema e mostraram até uma certa aversão a ele. Agora vai ficar artificial eles falarem a favor.

Como seria, a seu ver, uma “agenda ambiental” do PV na campanha?
Basicamente, lutar pela mudança do modelo de desenvolvimento, de forma a garantir que nosso patrimônio socioambiental faça parte desse processo. Não é um modelo “apesar dele” ou “contra ele”, desenvolvimento. Num segundo ponto, parar de tratar esse patrimônio como matéria-prima. Pois ele é visto, em nosso mundo econômico e político, como um obstáculo ou como insumo primário. A floresta amazônica, para muitos, é “uma coisa que pode dar dinheiro”. Foi assim que quase acabaram com a mata atlântica. Ainda agora tentam repetir os ciclos do açúcar, do café…

Como se executaria tal agenda?
Temos hoje gente capaz, talentos, ONGs competentes, empresas sérias dispostas a participar. Mas é preciso que o governo crie políticas de crédito, de desenvolvimento tecnológico, de extensão rural. É preciso pensar no macro. Como se fez com o álcool. Ele não nasceu sozinho. Houve um conjunto de políticas, investimento, e o resultado está aí.

O movimento ambientalista está pronto para isso?
A dinâmica do assunto fez muitas ONGs amadurecerem. Mas houve uma fragmentação da luta, que afastou a militância. É urgente recriar uma agenda comum.

O PV é pequeno, tem problemas internos, não tem tempo de TV. Qual a estratégia?
É uma fase inteiramente nova. Quero esclarecer que a Marina saiu do PT porque percebeu que ali não havia mais espaço para avançar com o desenvolvimento sustentável. E o PV não a procurou para ser sua candidata a presidente. Ele a convidou para participar de uma revisão programática, que vai mexer em sua democracia interna. E como o partido decidiu que terá um candidato presidencial próprio, sugeriu que ela poderia ser esse nome.

O que é essa revisão programática?
Quando veio a cláusula de barreira, o PV, para sobreviver, deixou que se filiasse muita gente não comprometida com suas causas. Agora ele vai buscar uma repactuação, uma volta às origens de modo integral.

Por que Marina e você deixaram o governo?
Foi uma decisão longamente conversada. Saímos ao constatar que não haveria chance de grandes avanços e começava até a haver retrocessos.

Quais retrocessos?
Tivemos mudanças na legislação. Foi inaugurado um processo de enfiar nas medidas provisórias coisas que flexibilizavam a legislação – e que nada tinham a ver com o objeto original da MP. Mudaram a classificação das PCHs, pequenas centrais hidrelétricas. Depois voltou a flexibilização do licenciamento para estradas e rodovias, que tinha caído. E tivemos ainda o adiamento da lei sobre diesel limpo, com menos enxofre.

A que atribui essas mudanças?
Existe uma área dentro do governo, eu a chamaria de núcleo denso, onde sempre houve uma dificuldade na questão ambiental. O governo se fechou em uma forma de operar em que a questão ambiental ficou complicada, não víamos possibilidade de avançar. Sei que não é simples, o tema tem um potencial de atrito infindável. É transversal, lida com muitas áreas. E o presidente Lula não é um ambientalista, isso não está no DNA dele.

Formou-se uma imagem de que os ambientalistas atravancam tudo, os licenciamentos demoram, as obras não andam. Por que é assim?
Como defende a Marina, é melhor gastar mais tempo no começo, para conceber e licenciar, do que liberar rápido e depois parar tudo na Justiça. Quando chegamos ao governo havia uma quantidade gigantesca de processos judicializados, Ministério Público, ONGs, Justiça, empresas e governo se cruzando, um conjunto de atores. Chegou-se a um ponto de tamanha desconfiança que no Ministério Público havia uma espécie de ação civil pública preventiva! Aparecia um pedido de licenciamento e eles já entravam com a ação…

Vamos a um caso prático, a usina de Jirau. O que aconteceu lá?
A proposta inicial era inviável ambientalmente. Acusam o pessoal do Meio Ambiente de ter inviabilizado a obra. Não é verdade. A análise ambiental modificou a obra completamente.

No caso da BR-319, entre Porto Velho e Manaus, os ambientalistas se chocam com as construtoras. O que acontece?
Dizem que a estrada já existe, que é só duplicação ou asfaltamento. Não dizem que os novos projetos, quase sempre, mudam brutalmente e interferem na paisagem. Abrem túneis, cortam morros, aumenta muito a circulação de carros e caminhões. E para que? É uma estrada de 800 km sem absolutamente nada no meio. Já existiu ali a tal estrada de terra, foi abandonada.

O governo mudou de ideia e decidiu levar à reunião climática de Copenhague, em dezembro, uma meta a cumprir na redução do carbono. Não é um avanço?
A grande questão é que o Brasil poderia estar liderando esse processo, que é mundial. Ele agora está prometendo uma meta, como quem se livra de uma cobrança. Perceberam, pelo visto, que num futuro breve ninguém terá mais outra escolha…

Gabriel Manzano Filho

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