“SE TRATAR DO CARGO FICA MAIS DIFÍCIL”

Sonia Racy

04 de setembro de 2011 | 23h00

O médico Roberto Kalil Filho fala do coração e de sua relação com o poder

Roberto Kalil Filho venceu concurso para professor-titular de cardiologia da Faculdade de Medicina da USP. Não sem antes driblar pedras colocadas no caminho por opositores, que, sob a condição de anonimato, atacaram suas credenciais. Na aula que deu, última etapa do processo, arrancou elogios. O oncologista Paulo Hoff assistiu à apresentação e achou que ele deu mesmo um show.

Foi depois dessa maratona que o médico recebeu a coluna no Hospital Sírio-Libanês, em uma sexta-feira pela manhã. Coincidentemente, no mesmo dia em que o resultado do concurso era submetido à homologação da Congregação da FMUSP e aos órgãos centrais da Universidade. “Este é o dia mais tenso da minha vida”, soltou o médico, grudado em seu celular, ansioso pelo término do processo. Mas você já não ganhou? Não é só um procedimento de praxe? “Só sossego quando terminar”.

Em tempos de discussão sobre a emenda 29 (que prevê aumento de recursos para a saúde no âmbito do Orçamento) e sobre a volta da CPMF, o cardiologista expressa uma certeza: faltam recursos, sim. E em volume grande.

Aqui vão os principais trechos de sua entrevista.

Como é ser conhecido como “médico do poder”? Você trata do Lula, da Dilma, do Serra…

Eu sou médico! Se quem tem poder vem ao meu consultório, paciência… Eu estou à disposição de todo mundo. (toca o celular, assunto USP). O que acontece é que eu trabalhei muito tempo com o dr. Pileggi (Fulvio Pileggi, ex-professor de Kalil) no Incor. Era uma época em que todos os poderosos procuravam o Incor, lembra? E eu era responsável por muitos check-ups, muitas avaliações de políticos importantes. Como médico, sempre tive contato direto com o poder.

O que é diferente entre essas pessoas e as ditas comuns? O poder afeta a saúde?

Não afeta, não! O estresse do presidente da República é o mesmo que acomete o CEO de uma empresa, por exemplo. Doença coronária é doença de país desenvolvido. Onde chega o desenvolvimento e a tecnologia há aumento no índice de doenças do coração e de infartos. Ou seja, o estresse do dia-a-dia afeta, com certeza. Mas eu não consigo diferenciar as pessoas que exercem cargo político de pessoas com cargas de estresse parecidas. Porque as responsabilidades dessas pessoas são próximas. Elas não costumam comer direito, não têm tempo para se exercitar… independe de ser político.

Mas é mais difícil tratar os poderosos?

Depende da postura do médico. Se resolver tratar do cargo fica mais difícil… e você se complica. Isso eu aprendi há muito tempo. Paciente é paciente.

Esse paciente não tende a ser mais voluntarioso?

Aí cabe ao médico enquadrar o paciente. Porque a responsabilidade é dele. Vamos dar como exemplo um presidente da República. Se ele é meu paciente, a responsabilidade médica é minha em relação ao ser humano que hoje, por acaso, é presidente da República. Eu é que tenho de manter a postura de médico. E convencê-lo de que ele precisa seguir as recomendações. Não pode haver diferença entre esse paciente e qualquer outro.

Esses nomes citados já se tratavam com você antes de se tornarem governantes…

Todos eles. E só confirmo porque é público. Se você é um bom profissional – de qualquer área –, você é procurado. Não saberia te responder por que o Lula é meu paciente há 20 anos. Ou a Dilma… eu os acompanho desde muito antes de serem presidentes. O Serra também. É meu paciente há mais de 20 anos.

O que não se sabe ainda sobre o coração?

Sabe-se muito sobre como evitar a progressão das placas de gordura nas artérias. Esse campo já foi muito explorado, conhece-se o mecanismo, como acontece. Mas não se sabe como evitar. Algumas substâncias, como as estatinas e o ácido acetilsalicílico, protegem de um possível infarto em até 80%. O que não se conseguiu ainda, nem houve desenvolvimento, é uma droga que limpe artérias. Uma espécie de detergente das artérias.

Com todos os avanços da medicina, por que ainda morre tanta gente do coração?

A tecnologia chegou a um ponto em que pode evitar a morte de alguém que infarta. Esse índice de mortalidade caiu bastante nos últimos anos. Ou seja: há, hoje, mais condições de tratamento para infartados. UTIs modernas, alta tecnologia. Mas, mesmo assim, projeção da Organização Mundial da Saúde informa que, nas próximas duas décadas, a doença cardiovascular é a que mais vai matar gente no mundo. A ciência corre atrás, desenvolve novas técnicas, identifica pacientes de risco, gente com propensão a infartar. E nada de prevenção. Fala-se muito sobre prevenção, mas ela é mal feita.

Por quê? Não há consciência?

As pessoas, a cada dia, têm mais consciência, mas não como deveriam. O elixir da vida é o exercício. É preciso caminhar uma hora por dia sete dias na semana…

Você faz isso?

Não (risos). Mas tento fazer. É preciso também controlar os níveis de colesterol…

Você controla?

Não (risos). Casa de ferreiro… Olha, também não pode fumar, e eu não fumo! Não posso ver cigarro na minha frente, nem de chocolate. Outra coisa: o diabético tem de controlar melhor a glicemia. Tudo isso é sabido e reduz muito a chance de infarto. O problema é seguir essa receita. O dia-a-dia é difícil. Tem gente que “fuma um cigarrinho por dia”… só que faz mal! Repito, a prevenção é a chave. E a evolução técnica do tratamento, a rapidez com que o paciente é atendido. (Kalil é interrompido. O assunto? A USP.) Este é o dia mais tenso da minha vida!

Algum dia haverá conscientização maior quanto à prevenção de doenças do coração?

Existem vários programas dedicados a isso. A Sociedade Brasileira de Cardiologia, por exemplo, dedica “dias” especiais para diversas ações. Tem o Dia de Controle da Hipertensão, o Dia de Controle do Colesterol, o Dia de Controle do Diabetes. No mundo inteiro funciona assim. E veja que coisa interessante: o índice de mortalidade das doenças cerebrais vem diminuindo, mas o índice das doenças cardíacas não. Isso é uma coisa muito séria, porque a mortalidade é imensa!

No caso do infarto, fala-se muito em fatores emocionais…

O infarto é hereditário. O emocional ajuda, claro, mas só se houver predisposição genética.

Quais as características essenciais que alguém deve ter para ser médico?

Além da vocação, que é fundamental em qualquer profissão, também a disponibilidade para o paciente – principalmente as especialidades que lidam com emergências.

Qual o momento mais difícil da carreira? E o que deu mais prazer?

Prazer é cuidar dos pacientes. Momento difícil é quando eu perco paciente. Quando paciente meu morre eu morro junto por alguns dias. O que acontece é que a gente vai amadurecendo. Não que eu aceite a morte, porque eu não aceito! Pelo menos não de paciente meu. (risos) Quando eu trabalhava com o dr. Pileggi, sempre que a gente perdia um paciente e eu ficava mal, ele me dizia: “Olha, você devia ter feito balé. Porque, em medicina, as pessoas morrem. Medicina é profissão de risco”. Com todo o respeito aos bailarinos… (mais um torpedo do pessoal da USP, Kalil lê e não fala nada). Eu descobri três coisas fundamentais para exercer bem a medicina: a relação médico-paciente é uma arte; a relação médico-família é uma arte; e a relação médico-morte é uma arte. Eu não tenho dificuldade com as duas primeiras… lidar com a morte, ainda hoje, pra mim, é difícil.

Você acredita em vida depois da morte?

Sou espiritualista. Acho que existe algo, sim, depois da morte… porque não é possível… Só não sei se é melhor ou pior (risos). Não sou cético. Acho que existe, sim, uma energia superior. Acredito em reencarnação. Alguns chamam de espírito. Eu acho que é energia.

Como vê a saúde no Brasil?

Nós temos um sistema, o SUS, que é extremamente moderno. Um sistema que funciona. O Brasil é o único país do mundo com mais de cem milhões de habitantes a ter um sistema unificado. E ele é muito bem elaborado. O problema é que falta dinheiro. Saúde é um negócio caro. Nos dias de hoje, saúde é sinônimo de alta tecnologia, e isso custa muito dinheiro. Claro que é necessário, sempre, aprimorar a gestão, mas o que falta é dinheiro.

O fim da CPMF impactou?

Claro. Não sei se sou a favor de mais impostos para subsidiar a saúde, mas se vier uma fada madrinha e, “plin”, trouxer dinheiro para a saúde, está valendo! Tem que ter dinheiro. Muito mais do que temos hoje.

A Constituição reserva um “x”…

É pouco! (o celular insiste, ele volta a falar com e, depois, do pessoal da USP) Como eu dizia, falta dinheiro. E o país é pobre. Fala com qualquer ministro da Saúde ou secretário de estado. O país tem de enriquecer, tem de crescer. Sem isso não há jeito. Mas a maioria absoluta dos responsáveis pela saúde brasileira já chegou a essa conclusão. O que é sempre positivo!

E os hospitais privados, o que podem fazer para mudar esse cenário?

Filantropia. E eles fazem muito atendimento não pago. Também administram cursos de gestão. No ano passado foram mais de 4 mil profissionais treinados.

Como é o seu dia-a-dia?

Acordo às 7h e vou para o Incor. Não faço exercício antes, infelizmente. Vou direto pra lá realizar atividades acadêmicas. Depois, venho para o Sírio, onde tenho pacientes internados. À tarde, desembarco no meu consultório. O dia só acaba à meia-noite.

Mas assim vai enfartar!

Eu sei disso. Você vai me visitar? (risos) Mas olha, eu procuro caminhar pelo menos duas vezes por semana. Também faço três refeições diárias. O almoço é no hospital. E também faço, dentro do possível, o acompanhamento do meu colesterol – que é alto. Faço check-up anual. E não bebo nada… quer dizer, só café e Coca-Cola normal.

Se você infartasse, que médico gostaria que te tratasse?

O que estiver mais perto. (risos) Temos muitos ótimos médicos na área.

Cada vez mais, a medicina se torna especializada…

É importante. Não tem como ser diferente. E as especialidades estão se subespecializando. É a evolução da medicina. Mas veja que o médico continua tendo de ver o paciente como um todo. Eu, por exemplo: sou cardiologista, que é uma especialidade, mas vejo meus pacientes como um todo. Normalmente, os especialistas clínicos (endocrinologista, pneumologista, dermatologista, cardiologista etc.) funcionam como clínicos gerais. Na maioria dos meus pacientes sou eu que faço o check-up, a avaliação clínica. Se encontro alguma coisa relacionada a outra especialidade, eu encaminho. Por mais que eu seja especializado, também sou clínico geral.

O que acha da eutanásia?

Depende de cada caso, mas, a princípio, sou contra.

E o uso de células-tronco?

Fundamental. A medicina tem de evoluir sempre.

Como você se vê daqui a 10 anos?

Do mesmo jeito. Espero estar com boa saúde para continuar do mesmo jeito. Igualzinho!

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