“QUERO SER A SEGUNDA A ATINGIR OS 5 METROS”

“QUERO SER A SEGUNDA A ATINGIR OS 5 METROS”

Sonia Racy

26 de março de 2012 | 10h51

Será em Londres? Fabiana Murer se diz preparada, mas teme Isinbayeva

Ela tem boas chances de fazer história mais uma vez. Atual campeã do mundo no salto com vara (em pista coberta e também indoor), a longilínea Fabiana Murer chega às Olimpíadas de Londres com a responsabilidade de uma medalha sobre os largos ombros. Mas, apesar dos ótimos resultados em 2011, esta campineira de 31 anos, 15 deles dedicados ao esporte, prefere a cautela: “Tem muita gente boa no páreo”, avisa, relembrando a decepção de outro mito brasileiro, Daiane dos Santos, em 2004. A ginasta era também campeã mundial, mas falhou e não foi além do quinto lugar nos Jogos de Atenas.

Para complicar a situação, Yelena Isinbayeva está de volta: depois de dois anos capengando, a russa cravou novo recorde mundial, com 5m01.

“Tudo isso faz parte do desafio”, diz. Ela só torce (e trabalha) para que o imbróglio de Pequim, quando uma de suas varas desapareceu momentos antes da final, não se repita na Inglaterra: “Foi tão decepcionante. Acho mesmo que poderia ter subido no pódio”.

Sem tanta velocidade ou força quanto as principais adversárias de pista, Fabiana vem investindo na técnica – que melhorou muito desde que Vitaly Petrov, o ucraniano responsável pelas marcas de Isinbayeva e Sergei Bubka, passou a lhe acompanhar. Decidida a chegar forte nos Jogos, ela e o técnico Elcio Miranda (também seu marido) resolveram não defender a medalha de ouro do mundial indoor: “Vale tudo para voltar feliz de Londres!”.

Fabiana recebeu a coluna no intervalo dos treinos em São Paulo. A seguir, os melhores momentos da conversa.

O que você espera das Olimpíadas de Londres?

Eu quero medalha (risos).

De ouro?

Não. Estou pensando, primeiro, em pódio.

Mas você é a atual campeã do mundo!

Mas o salto com vara nas Olimpíadas é sempre uma competição difícil. Vai ser muito competitivo este ano. Por exemplo: a Yelena Isinbayeva acaba de bater o recorde mundial… de novo! (risos) Saltou 5m01 em fevereiro.

Quem mais te preocupa?

Tem outra russa, a Svetlana Feofanova, que é um problema também (risos). Ela foi recordista mundial e está sempre no pódio. É uma máquina de medalhas. Também preciso ficar de olho na Jennifer Suhr, norte-americana segunda colocada no ranking mundial, e na Holly Bleasdale. É inglesa, tem feito bons torneios e vai competir em casa. Outra competidora importante é a Anna Rogowska, polonesa, campeã do mundo em 2009. Sem falar na Yarisley Silva, a cubana campeã pan-americana. Tem bastante gente para se preocupar, viu?

O teu recorde pessoal (4m85) é suficiente para garantir medalha em Londres?

Talvez.

Talvez?

(risos) No ano passado, eu e o Elcio achávamos que garantiria o bronze. Mas, com os resultados das rivais neste começo de 2012… não temos certeza. Vamos ver a temporada em pista aberta para ter mais ideia do que esperar em Londres.

Você tem 31 anos. É uma idade boa para a sua especialidade?

Eu me sinto no meu melhor momento. Geneticamente, não sou muito forte nem muito veloz. Por isso, invisto na técnica – para compensar essas deficiências. Acho que estarei no auge durante os Jogos.

O Vitaly Petrov te acompanha desde 2001. Foi técnico da Isinbayeva e do Bubka. É uma responsabilidade a mais para você brilhar nesta Olimpíada?

(risos) Contar com a consultoria dele é muito importante. Até porque vou sofrer pressão. Sempre se espera que a campeã mundial se saia bem.

O Vitaly é muito bravo? Te dá bronca em russo?

(risos) Esse é o estereótipo do russo, né? Embora ele seja ucraniano… Mas o Vitaly é de uma paciência incrível? Ele até diz que é mais mole com as mulheres (risos). Com os homens, pega mais pesado. Claro que cobra, porque sem cobrança não se consegue nada. Já vi ele bastante bravo… mas não comigo. E quando ele fica bravo, é muito engraçado, porque é inesperado… ele é muito doce no dia a dia. Ele foi contratado como consultor pela Confederação Brasileira de Atletismo e acompanha a gente nos torneios. É um fenômeno. Competiu pouco, passou a ser técnico ainda garoto, antes dos 18 anos. E criou um programa de treinamento baseado nos animais. Corrida com o quadril pra frente (risos), tem uma técnica do lagarto também… (risos)

Existe um momento crítico na hora do salto?

A decolagem. É o momento que o Vitaly treina muito, pega no meu pé. Se isso dá certo, o resto é fácil. Um erro na decolagem e você pode voltar para a pista.

O que você usa nas mãos?

Antigamente, usava um esparadrapo preto, com adesivo dos dois lados. Mas achava que não tinha cola suficiente (risos). Aí, passei a usar esparadrapo normal. Começo com ele voltado pra baixo, depois dou uma torcidinha e termino com ele virado pra cima. Aí… passo cola (risos)!

E se ficar presa?

(risos) Já aconteceu… Apesar disso, prefiro a segurança da cola. Em 2010, em Mônaco, estava muito quente. Eu achei que a cola estava boa depois do primeiro salto e resolvi fazer o segundo com o mesmo esparadrapo. Na hora do encaixe da vara no chão, ela escorregou e pegou no meu dedão! (risos) Doeu muito! Nem tirei a sapatilha para ver, porque não teria coragem de colocar de volta (risos). Continuei, saltei e ganhei a competição.

Quando começou a saltar?

Aos 16 anos.

Não é muito?

Se tivesse começado antes teria sido melhor. Mas eu fazia ginástica artística desde os 7 anos e, um dia, comecei a me sentir alta… (risos) Um dia, meu pai viu um anúncio no jornal, em Campinas, sobre uma escolinha de atletismo. “Por que você não vai lá?”, ele perguntou. Um dos treinadores era o Elcio. Ele me viu, achou que meu biotipo era para salto com vara. E gostou de saber que eu fazia ginástica artística. Disse que o fato de eu estar acostumada a ficar de ponta-cabeça era positivo (risos). Além disso, era uma prova nova para as mulheres. O salto com vara feminino estreou em Olimpíadas em 2000, em Sydney. O primeiro mundial aconteceu em 1999.

Ser casada com o treinador é um fator complicador?

(risos) A gente separa as coisas. Até porque ele é treinador de outros sete atletas. E eu sei que, na pista, tenho de obedecer. Claro que reclamo um pouco mais do que os outros (risos). A gente fala muito sobre o assunto em casa. Faz parte das nossas vidas.

Pensa em filhos?

Só depois de me aposentar.

Como é o seu treino?

Três horas pela manhã, outras três à tarde. Salto duas vezes por semana e dedico dois dias à musculação. Também faço atletismo, salto em distância, ginástica artística – não consegui me livrar… (risos). É bem intenso. E tenho dois dias de folga. Ufa! (risos)

E o que você come?

Posso comer de tudo.

Que inveja!

(risos) Eu preciso de calorias. Mas evito frituras, não tomo refrigerantes, bebida alcoólica só nas férias. Eu me considero um bom garfo, e as viagens me ajudaram a desenvolver o paladar. Dependendo do lugar da competição, varia o cardápio. Na Itália, por exemplo, é massa todo dia… (risos). Só muda o molho. Agora, na Coreia do Sul, ano passado durante o mundial, eu sofri… (risos).

Você vive do esporte?

Tive sorte. Comecei em uma grande equipe, a Funilense, que depois se tornou BM&F Bovespa. Mas é a única equipe grande no Brasil. Falta investimento no esporte, né? A gente deveria ter mais clubes, mais atletas de ponta.

Isso é particularmente preocupante porque, depois de Londres, os Jogos são aqui.

Em relação a infraestrutura, não acho que teremos problemas. O Engenhão, por exemplo, é um dos melhores lugares para se saltar. E será usado nos Jogos. Como sempre, as coisas vão ficar prontas em cima da hora (risos). Mas acredito que dará tudo certo. Quanto a chances de medalha, aí é mais difícil. Nossos atletas não estarão no auge em 2016, só em 2020. Um atleta de ponta se faz em oito, dez anos.

Pretende disputar 2016?

Seria meu último ano. Talvez tire 2014 para descansar. Continuaria treinando, mas sem a pressão das competições. E retomaria em 2015. Uma Olimpíada em casa… seria a aposentadoria perfeita.

Existe uma nova Fabiana Murer vindo aí?

Tem uma menina de 21 anos que eu acho muito promissora, tem técnica, treina direito. Chama-se Sara Santos. É uma modalidade muito nova para as mulheres, ninguém sabe dizer quais os limites, né? Só uma atleta conseguiu quebrar a barreira dos 5m de altura… e eu quero ser a segunda a fazer isso (risos). Então, existe muito a ser feito.

Você é vaidosa?

(risos) Um pouco. Gosto de me cuidar, mas sem exageros. Quando volto de uma competição, a primeira coisa que faço são as unhas (risos).
A Yelena Isinbayeva salta de unhas feitas…
(risos) É verdade. Em competição, eu uso protetor solar com base, para cobrir as imperfeições (risos). Ah, e gloss, porque passo muito tempo na pista, suo. E gel no cabelo.

O que faz no tempo livre?

Dou entrevistas… (risos) Não, sério, sou muito caseira. Gosto de visitar os meus pais, em Campinas. Assisto a filmes, leio… É que tenho pouco tempo livre! (risos) /DANIEL JAPIASSU

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