“QUERO FAZER UM FILME SOBRE O BRASIL”

Sonia Racy

19 de março de 2012 | 10h28

Julian Schnabel fala de arte, cinema e vida: “Não existe ‘eles’ e sim ‘nós’”

Em sua rápida passagem pelo Brasil, onde acertou uma exposição no Masp em 2014, Julian Schnabel teve uma segunda ideia. Fazer um filme sobre a história do Brasil para mostrar, por dentro, a alma do brasileiro. “Ao longo da história, vocês não derramaram sangue como outros povos. Até a independência do Brasil de Portugal foi feita sem uma gota”, destacou Schnabel em conversa com a coluna no Hotel Copacabana Palace. Para tanto, estuda parceria com Hector Babenco, que o hospedou em São Paulo.

Visivelmente, o misto de artista e diretor não gosta de entrevistas. Sentado à beira da piscina do hotel, o diretor do filme Basquiat mostra desconforto com a presença do fotógrafo. “Quando ele vai embora?”. E, ao ser apresentado para a relações públicas do hotel, Claudia Fialho, desfiou um rosário de reclamações tão grande que esta lhe entregou seu cartão, sugerindo listá-las por e-mail.

Considerado gênio por uns, arrogante por outros, Schnabel transita entre arte, cinema e fotografia com invejável facilidade. Com obras vendidas por preços médios de US$ 700 mil, diretor indicado para quatro Oscars, vencedor do Globo de Ouro por O Escafandro e a Borboleta, o moço polivalente mora (veja a foto) em prédio por ele pintado no West Village. “Home, sweet home”, filosofa.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

O que mudou ao longo dos anos em arte e no cinema? Você acha que, hoje, quem tem talento, mas não sabe fazer marketing e não tem acesso a recursos, tem chance de sucesso?

Olha, vivemos uma época em que as pessoas conseguem fazer filmes com pouco dinheiro, porque podem fazê-los digitalmente. Portanto, podem ser mais pessoais, autorais. É o que eu faço. Tenho sorte, porque vivo dos meus quadros. Nunca fiz filmes para ganhar dinheiro, mas porque queria contar uma história que carregava na minha cabeça. O fato de viver das minhas pinturas e esculturas, de não precisar de ninguém, me permitiu dizer ‘não’ – porque não preciso me sacrificar para me expressar. Nesse sentido, sou muito privilegiado.

Mas outros não são. Qual a saída?

Existe um senso de comunidade. Aqui mesmo, no Brasil, existem galerias que mostram os jovens artistas. O que estou querendo dizer é que, por uma visão humanista, as pessoas estão buscando outro tipo de verdade. Sempre parece que nosso mundo é muito mecânico e que as pessoas, de algum modo, estão trancadas do lado de fora. As histórias que conto são sobre coisas que eu sei. Não entendo de muita coisa, mas sei sobre estar preso, a ideia de claustrofobia, o impedimento de ser livre. A liberdade é meu grande tópico. Mas, sendo artista, vivendo em NY e vendo as pessoas nos bairros… elas estão sempre olhando para o passado, indo aos bares. Não precisam de marketing. A internet é liberdade. Essa coisa da Primavera Árabe, as pessoas querem ser livres.

Tem artista aqui reclamando que as galerias de arte agendam tantas mostras, entrevistas, que não estão tendo tempo de criar. E que se você não entrar no esquema ditatorial do sucesso, não se destaca. Concorda?

Não. Não há generalidades na arte. Vou dar um exemplo. Você vive numa cidade de cimento e, embaixo, tem uma floresta. Mesmo que você não queira, a floresta vai arrebentar o cimento, a grama vai sair pelas rachaduras. A arte é desse jeito. Você não pode impedi-la. As pessoas precisam fazer arte. Tem gente que cresce em situações totalmente impossíveis e consegue fazer arte a partir disso. Outras são devastadas por isso. Há poucos artistas geniais a cada século.

Mas, e a divulgação?

Tem a ver com marketing, com ser hype, mas o que importa é o trabalho em si. Se ele sobrevive. O trabalho é o juiz. O motivo pelo qual Andy Warhol se tornou um grande artista é que existe muita gente que cria em cima de sua realizações. O que eu quero dizer é que já houve artistas populares dos quais hoje ninguém ouve mais falar. E por quê? Simplesmente, porque os jovens artistas não precisavam do que eles fizeram. A única coisa que pode matar a arte é a arte. Não adianta ficar pensando na injustiça desse meio. A vida é injusta. O que está acontecendo na Síria, por exemplo. Meu último filme, Miral ( fez pouco sucesso nos EUA e não chegou ao Brasil), é polêmico. Ninguém quer que os palestinos tenham uma narrativa. A ideia de eles terem uma narrativa, ainda mais por meio de um judeu como eu, está perturbando as pessoas. Por outro lado, estou muito orgulhoso. Achei que era a história certa a fazer.

Você fez o filme para contribuir, para unir as raças?

Ele admite que os palestinos tenham uma terra. Pela primeira vez num filme americano do mainstream, foi admitido que os palestinos tenham uma terra, que são pessoas de verdade. E que a tese de que não havia gente na terra quando decidimos fundar o Estado de Israel não é verdadeira. É mais difícil odiar crianças com uniforme de orfanato, porque elas se parecem com as suas crianças. E a ideia do que aconteceu com as mulheres, que enfrentam a violência dos homens.

O que te trouxe ao Brasil?

Estive aqui pela primeira vez há 12 anos, para exibir Antes do Anoitecer em festivais no Rio e em São Paulo. No Rio, eu só conhecia o Caetano Veloso – uma boa pessoa de se conhecer (risos). Ele e Paula Lavigne foram mais do que gentis, me mostraram a cidade e me contaram toda a história do Brasil. Sobre o domínio de Portugal, sobre a independência sem sangue. Uma colonização bonita. Vi Caetano novamente, na Espanha, com (Pedro) Almodóvar. Também nos vimos em Nova York. Há seis anos, voltei, fui a Salvador e Trancoso, com amigos, Babenco, onde ficamos na casa de Raquel Arnaud.

Você viu o Caetano dessa vez?

Não. Ele não está aqui.

Você está montando um filme com o Babenco?

Estou sempre fazendo algo com o Hector. Desde que assisti ao filme Pixote, fiquei extremamente tocado, amei a trilha sonora dele. Quando fiz meu primeiro filme, sobre a vida do meu amigo (Jean-Michel) Basquiat, perguntei ao Hector se podia usá-la. A gente não se conhecia muito bem. Nós nos aproximamos e ele acabou vendendo os direitos para mim por… um dólar. Desde então, ficamos amigos. E quando estava filmando Antes do Anoitecer, pedi a ele que fizesse o papel de Virgilio Piñera. Acho que o Hector descobriu, na ocasião, que não é tão fácil atuar. Mas ele se divertiu.

Além do Masp, você pensa em fazer algo aqui no Rio?

Tem algo sobre o Rio que me lembra Havana. Preciso ficar mais tempo por aqui. As pessoas têm uma sensibilidade incrível. Acho a história do Brasil muito interessante. Tão interessante que quero fazer um filme histórico. Imagine: começa com o rei de Portugal vindo, e a ideia de seu filho o sucedendo e tornando-se imperador do Brasil. Sua filha libertando os escravos e, em um segundo momento, o presidente se mata com um tiro no coração e a Ava Gardner estava aqui, no Copacabana Palace. O Brasil tem uma característica muito incomum: não há derramamento de sangue em seus principais momentos históricos – tanto no império quanto na ditadura ou durante a República. Os portugueses se misturaram com os índios e, assim, toda a população acabou com algum tipo de parentesco com os locais. O único modo de se mudar um país é de dentro para fora. E com sentido de “nós” – não “eles”.

Quando você pinta, faz arte abstrata. Mas, quando dirige filmes, escolhe histórias de verdade, concretas? Como é isso?

Se as histórias são verdadeiras ou não, o que acontece é que há uma vida paralela correndo ao longo do que estou fazendo. Minha sensação é totalmente abstrata. O que quero dizer é que existe um jeito de contar histórias – que tem a ver com fatos que não são tão literais, envolvem vazios, sons, definem a história e as pessoas. Meus filmes são abstratos.
Mas são baseados em histórias verdadeiras, diferentemente da sua arte. Minha arte é verdadeira também, baseada em fatos reais. O movimento concretista, por exemplo, apresenta um fato físico – seja numa pintura ou num filme. É uma outra maneira de mostrar a realidade, mas é a realidade absoluta.

Quando você pinta, depara somente com você mesmo. Como foi fazer a transição para cineasta, profissão na qual a dependência das pessoas é imensa?

Olha, eu desenho o figurino, dirijo os atores, aprovo as locações, faço todo tipo de trabalho dentro do filme…

Entendi. Você controla tudo democraticamente.

Aprecio todo tipo de ajuda. A verdade é que, quando fiz Antes do Anoitecer, com Javier Bardem, foi muito o Javier e eu fazendo o filme. Mas… aceito: não sou muito democrático quando se trata de decidir o processo do filme.

O que é mais importante para você: seus filmes ou suas obras de arte?

Meus filmes são arte, são pinturas. Se não pudesse fazer filmes, não faria. Mas, se não pudesse pintar, não sei o que seria de mim. Vejo pintura em todo lugar. Por exemplo, minha fantasia quando estou aqui: eu vejo amor, eu me vejo fazendo arte aqui.

Você se lembra da primeira obra de arte que comprou?

Max Pechstein, por US$ 90. A moça fez por US$ 80 e me deixou pagar em parcelas. Ela embrulhou em um papel marrom. Não tenho mais. (Um quadro de Pechstein foi vendido, no ano passado, por 3,5 milhões de euros).

E sua primeira venda?

Por US$ 25, em 1966, para a família Stielmam, do Texas. Era um quadro com figuras de pessoas, cada uma delas com uma chave saindo das costas – como se virassem a chave e elas se mexessem.

Que quadro você gostaria de ter e não tem?

Gostaria de ter A Decapitação de São João Batista, de Caravaggio. E amo, amo Picasso. Sou um privilegiado por ter alguns trabalhos dele.

O que é Deus para você?

Ai, meu Deus! Deus é respiração, é isso que é Deus. É o que está vivo. Tem um livro lindo que você deveria ler, chamado In the Hand of Dante, do Nick Tosches. Eu vou fazer o filme com o Johnny Depp. Ele já comprou os direitos.

Você acredita em vida após a morte?

Esta aqui é a vida após a morte. Você pode fazer o céu ou um inferno bem aqui, pra você mesmo.

O que é a natureza?

É Deus também. É ser parte, independentemente de você enxergar. Você precisa se abrir.

O Planeta chegou ao seu limite?

Precisamos ser responsáveis. Como indivíduo, cada um. Repito: não existe “eles”, mas “nós”.

Deixe uma mensagem para os brasileiros.

Adoro a anarquia e o senso de comunidade que existe aqui no Brasil. E a ideia de tudo “mesclado”. É assim que o mundo vai sobreviver, com ampla integração.

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