“O FIM DO CONFLITO PASSA PELA REVOLUÇÃO CIVIL”

Sonia Racy

11 de setembro de 2011 | 23h00

Cineasta radicada nos EUA, Julia Bacha fala sobre Israel e Palestina.

Registrar e divulgar manifestações de resistência pacífica na Palestina é o foco de Julia Bacha. Filha do economista Edmar Bacha, um dos responsáveis pela criação do Plano Real, a cineasta vive há mais de dez anos em NY, onde desenvolve trabalho de pesquisa na organização Just Vision. Seu documentário Budrus rodou os principais festivais do mundo e ganhou importantes premiações – foi o preferido do público em Berlim e Tribeca. O longa acaba de ser lançado no Brasil, em DVD, pela Copacabana Filmes.

A experiência de Julia no Oriente Médio também a levou a participar do TED, ciclo de conferências globais que aconteceu, este ano, em Edimburgo, na Escócia. Ao lado de personalidades, como Alain de Botton, a diretora dividiu com a plateia relatos de seus filmes e movimentos de resistência sem o uso de armas ou violência.

Na semana pré-votação do Estado palestino na Assembleia Geral da ONU, Julia conversou com a coluna por telefone. Revelou estar finalizando uma série de curtas-metragens sobre manifestações pacíficas em Jerusalém Oriental e dividiu sua opinião sobre a resolução do conflito na região: “Temos de prestar atenção nos indivíduos focados em realmente transformar o conflito”.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Seu trabalho critica a cobertura midiática do conflito entre Israel e os palestinos. Por quê?

A cobertura do conflito normalmente fica concentrada nas últimas jogadas políticas e militares. E o foco do meu trabalho, há oito anos, é tentar ampliar essa visão. Passo muito tempo na região e já vivi momentos que pareciam ser os mais importantes. Como o assassinato de líderes do Hamas, ou o coma do Ariel Sharon, a morte do Yasser Arafat. Mas, na verdade, só permanecem sendo “os mais importantes” até o próximo acontecimento.

E o que, na sua opinião, fará diferença nos próximos anos?

Temos de prestar atenção nos indivíduos que estão focados em realmente transformar o conflito, usando métodos que já deram certo em outros lugares, como a resistência pacífica.

Você acredita que divulgando, por meio dos filmes, movimentos de sociedades civis, eles ganham mais força e visibilidade?

Sim, com certeza. Para que esses movimentos possam se expandir, a atenção internacional e a mídia têm de estar voltadas a eles. Se permanecem invisíveis, não conseguem força local. Temos israelenses e palestinos trabalhando juntos pela paz, mas que não recebem a atenção merecida.

O que muda na população quando você liga a câmera?

Só de ligar a câmera para um israelense que trabalha sem violência, isso já amplia a credibilidade dele perante os olhos de seus colegas. Além de aumentar sua autoestima. Amós Oz, escritor israelense, afirmou que as duas populações estão cansadas do conflito. Sem dúvida. Ambas estão cansadas. Mas a consequência desse cansaço é diferente para cada uma. Porque eles estão em situações de poder muito diferentes.

Por quê?

Ainda acontecem episódios de violência contra israelenses. Mas o auge, que foi a segunda intifada, não existe mais. O conflito não é mais tão presente na vida dos israelenses. O que se assiste hoje, em Israel, é uma sociedade inteira se manifestando contra o governo, sem nada relacionado com o conflito. O que preocupa os israelenses, neste momento, não são os palestinos. E, sim, que os universitários querem sair de casa e não têm dinheiro para pagar o aluguel. Já com os palestinos é diferente. Eles vivem numa situação de ocupação militar. Além de ter dificuldade de manifestar qualquer oposição a essa ocupação. O cansaço pode levar à falta de ação do lado israelense. Isso não é a realidade do lado palestino. Eles não têm o privilégio de esquecer o conflito.

Tem algum palpite sobre a votação do Estado palestino na ONU, semana que vem?

Acho que a decisão de ir até a ONU faz todo sentido, politicamente, para o governo palestino. Mas não será aprovado. Não existe o apoio político necessário, por conta da pressão dos EUA. Entretanto, vejo como uma oportunidade para os movimentos locais de resistência pacífica se fortalecerem e aparecerem.

O foco central do seu filme Budrus é a resistência sem o uso da violência. Como estão esses movimentos hoje em dia?

A resistência violenta na Cisjordânia atualmente é muito pequena. A Autoridade Palestina, em parceria com os EUA (que deram dinheiro e armamentos para a reorganização da polícia local), praticamente acabou com eles. Então, hoje vemos três estratégias principais de resistência na Cisjordânia: a diplomática e política, do Salam Fayyad; a do comportamento mais tradicional palestino, chamado “Sumud” (palavra árabe que quer dizer “ficar no seu lugar”); e a resistência pacífica.

Como esses movimentos se organizam?

A resistência pacífica não tem como objetivo matar ou machucar seu oponente. Trata-se de tentar transformar a visão de seu opressor, deixando claro que, naquela situação, você está sendo brutalizado por ele. Essa transformação só é possível se não fizer uso de força. A resistência pacífica é a grande forma de ação na Cisjordânia. Acredito que o caminho para a resolução do conflito passa por uma revolução civil.

Você não é chamada de ingênua ou utópica? Como reage a essas críticas?

O tempo todo. Acho o contrário. Nosso trabalho é o mais realista a longo prazo. Essa ideia de que os políticos vão sentar à mesa e assinar um acordo é ilusão. Acho que os governos só agirão de forma corajosa quando houver pressão popular. Não há nada de utópico nisso. O exemplo está aí: é só observar os efeitos da Primavera Árabe.

Roberto Carlos acaba de fazer um show em Jerusalém, considerado o futuro barril de pólvora do conflito. Como você vê o poder midiático dessa visita?

A visita do Roberto Carlos poderia ser uma oportunidade para chamar a atenção do público brasileiro aos israelenses e palestinos que lutam pela paz. Se, por exemplo, ele visitasse o bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, onde um movimento israelense chamado “Solidariedade” luta contra o despejo de famílias palestinas, ele estaria fazendo uma contribuição para a paz na região. Porém, ele claramente mostrou estar mais interessado em revelar sua paixão por Cristo do que sua compaixão ao próximo.

Os ataques de 11 de setembro completaram dez anos. Como moradora de NY, como foi passar por este marco?

Eu estudava na Columbia University quando ocorreu o 11 de Setembro. Foi um momento de união entre os moradores da cidade. Achei que, talvez, o trauma pudesse ser uma oportunidade para a população americana reinventar seu papel no mundo.

O que aconteceu nos dez anos que se seguiram ao atentado?

Infelizmente, a liderança do país usou o momento para realizar ambições militares de longa data. Dez anos depois, temos a realidade de um país em guerra contra cinco nações de maioria muçulmana – Iraque, Afeganistão, Paquistão, Somália e Líbia. Talvez haja mais segurança a curto prazo, mas o ódio que essa estratégia gera, internacionalmente, cria, a longo prazo, perigos muito maiores para a população americana.

MARILIA NEUSTEIN

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