“O EMPRESÁRIO DO PASSADO NÃO SOBREVIVERIA”

Sonia Racy

12 de dezembro de 2011 | 10h17

José Roberto Ermírio de Moraes explica 95 anos de sucesso da Votorantim

O Grupo Votorantim está fazendo 95 anos. E continua sendo familiar, dos poucos que conseguiram fazer a transição de uma geração para outra incorporando instrumentos de administração moderna e eficiente. “Investimos bastante em formar talentos com a nossa cultura, com os nossos valores. A família realmente não abre mão disso, é a nossa essência”, explica José Roberto Ermírio de Moraes, presidente do conselho de administração do Grupo. Low-profile, Beto, como é chamado pelos amigos, relutou em dar entrevista. Mas cedeu aos apelos da coluna, que recebeu em seu escritório da Rua Amauri, semana passada.

Acredita, como outros integrantes da família, que a empresa familiar, se conseguir resolver essas complexidades da passagem de geração para geração, adaptando o modelo conforme as necessidades, pode ser um plus, um fator de diferenciação. Existem estatísticas, feitas pelo mundo, mostrando que empresas familiares bem geridas tiveram retorno acima das empresas públicas, sem donos, nos mercados onde competem.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como é tocar um grupo do tamanho da Votorantim?

O Grupo é bastante complexo. Atuamos em seis grandes áreas de negócios: cimento, metais, mineração, energia, celulose, laranja e no setor financeiro. É um portfólio atípico. Grupos do mesmo porte e com a mesma diversificação são raros. Isto aumenta muito a complexidade da gestão, devido à necessidade de entender profundamente a dinâmica de todos os negócios, tentar prever como será o futuro de cada um deles e seus fatores de sucesso, além de um esforço operacional, da mesma proporção, para operar as empresas dentro das melhores práticas mundiais. A questão de ser mais ou menos diversificado é uma reflexão bastante desafiadora. Desde que eu trabalho no Grupo, já presenciei vários modismos acadêmicos, defendendo maior ou menor diversificação. Mas posso afirmar que, nestes 95 anos de história, a diversificação tem sido boa por vários motivos. Mas, durante todo este período, estamos sempre procurando focar nos negócios que consideramos mais atraentes.

A profissionalização está funcionando?

Boa pergunta. Uma das principais atribuições da nossa geração é estar sempre questionando a governança a o modelo de gestão. Estes vêm sendo aprimorados de geração para geração. Cada geração, desde o fundador, exigiu um perfil de pessoas e uma estrutura organizacional adequados para aquele determinado momento da empresa. Por exemplo: no caso do fundador, ele era o visionário, o estrategista e o empreendedor. Fazia tudo sozinho, com uma capacidade e uma velocidade de decisão sem iguais, não precisando se preocupar em prestar muitas informações justamente por ser o único dono do negócio. À medida que a sociedade se torna mais complexa, com a vinda das gerações seguintes, temos a necessidade de compartilhar decisões, assim como uma maior transparência nas informações. A complexidade aumenta, a estrutura organizacional tem de se ajustar à nova realidade, e o perfil das pessoas exige novas habilidades – como saber conviver em um ambiente de trabalho mais compartilhado, com transparência e processos mais estruturados.

Uma somatória de papéis?

Em parte sim. Tivemos a sorte de contar sempre com acionistas que contribuíram de maneira significativa nos diferentes ciclos de desenvolvimento dos negócios. Diria que é uma somatória de contribuições feitas ao longo destes anos. Na verdade, o Grupo vem investindo bastante na formação de talentos alinhados com nossa cultura e nossos valores. A família realmente não abre mão disso, é a nossa essência. As pessoas devem trabalhar aqui porque gostam e acreditam no Grupo. É uma questão de admiração e inspiração. Sem isso, nada dará certo. Manter o controle familiar é outro componente muito importante para nós, pois acreditamos que, se a empresa familiar planejar e se preparar de forma antecipada aos desafios dos processos de sucessão de gerações e procurar estar sempre se renovando e estar em negócios atraentes de forma competitiva, estudos mostram que a performance é superior ao das empresas de capital aberto sem sócio majoritário.

Uma coisa estranha: a geração de vocês está no conselho, mas sempre que os procuro, vocês estão trabalhando no escritório…

É verdade. Somos conselheiros de dedicação em tempo integral. Diferentemente dos conselhos que se reúnem a cada trimestre. Além das nossas atribuições mencionadas anteriormente (de estar constantemente aperfeiçoando o modelo de gestão), também acompanhamos as operações, apoiamos os diretores das unidades de negócio, facilitando os processos de decisão, discutimos a estratégia de longo prazo e, sem contar a dedicação permanente em formar pessoas de talento (que serão um fator importante de diferenciação), visitamos as indústrias em outros países. Em suma, isso já nos mantém bastante ocupados.

Se não fosse empresário, o que seria?

Estou com 54 anos e, neste momento da minha vida, talvez não conseguisse substituir uma atividade tão nobre quanto esta que eu, meu irmão e meus primos desempenhamos por outra que desse tanta satisfação.

Quais são as características fundamentais para ser um bom empresário?

Inicialmente é importante ter uma aspiração, um sonho. A partir daí, desenvolver um bom projeto de longo prazo. Segundo, montar uma equipe de profissionais competentes e com experiência no setor escolhido. Sendo este um aspecto muito importante, pois o empresário voluntarioso do passado, que queria fazer tudo sozinho, dificilmente conseguiria sobreviver em uma economia aberta e competitiva como a de hoje. Fatalmente, dificuldades não previstas irão surgir, no campo macroeconômico ou operacional. E com tantas variáveis a serem equacionadas para o empreendimento dar certo, com certeza a perseverança terá de ser uma virtude fundamental para o sucesso do seu projeto.

Mudando de assunto, como você vê a crise atual? Existe algum perigo de a Comunidade Europeia se desfazer?

A complexidade e a extensão da atual crise são muito grandes. Principalmente pelo desequilíbrio macroeconômico dos países desenvolvidos, que vão demorar anos para arrumar a casa. Acredito que alguns países menores da Comunidade Europeia terão de refletir se convém permanecer no bloco – já que a perda da autonomia da política monetária é, em parte, uma desvantagem.

Para quem é vantagem?

Para França e Alemanha. A criação do euro foi muito conveniente. De certa forma, crou-se um guarda-chuva que mantém suas economias competitivas em relação aos outros membros. Acredito que muitas mudanças de regras terão de ser feitas no campo fiscal e na governança. Mas principalmente na gestão de consequências para aqueles que não seguirem as regras.

Como o Grupo Votorantim está se preparando para este momento da economia mundial? É muito difícil fazer planejamento de longo prazo?

É uma situação que se assemelha a um cassino. Você tem de apostar suas fichas em um determinado cenário e torcer para que esteja certo. São decisões muito difíceis, pois a volatilidade dos mercados tem sido grande. O Grupo procura ser financeiramente conservador no seu patamar de alavancagem, apostando em setores nos quais a competitividade é mais visível e investindo constantemente nas melhorias operacionais. Procurando sempre estar em uma posição diferenciada em relação à concorrência.

Ser mais eficiente, não é?

Na verdade, ser mais competitivo é o que importa. Você pode operar um negócio de forma eficiente e não ser competitivo, por talvez não possuir condições estruturais adequadas. Veja o caso da elevada competitividade que a Vale tem com relação ao minério de ferro de Carajás.

Ser o maior é mais importante?

Nem sempre. Você pode ser líder mundial de um determinado negócio e ter resultados inferiores ao dos concorrentes. Veja o nosso exemplo no setor de cimento. Estamos atualmente na oitava posição no ranking mundial entre os principais produtores, mas conseguimos ter melhores resultados em relação a alguns de nossos maiores concorrentes.

O Brasil é a bola da vez? Você teme a concorrência?

Concorrência faz bem para todos, faz parte do jogo. Exige estar sempre se reinventando e buscando a excelência de forma contínua. Estamos preparados para a concorrência, buscamos de forma obcecada estar sempre entre os melhores. Mas, na última década, o crescimento do “custo Brasil” traz preocupação. Ou seja, o aumento da carga tributária, juros altos, real muito valorizado, infraestrutura ineficiente, serviços públicos (como educação, saúde e transporte) de baixa qualidade e muitos outros fatores que vêm onerando a competitividade local. O lado positivo é que o Brasil, neste cenário de crise mundial, tem se destacado, principalmente, pelo crescimento no mercado interno – e isso vem atraindo muitos investimentos. Serão U$ 60 bilhões de investimento estrangeiro em 2012.

Vocês têm feito investimentos externos?

Bastante, nos últimos anos, em setores como o de cimento, estando presente em toda a América Latina, América do Norte, Europa, Extremo Oriente e Ásia. No caso dos metais, estamos com operações importantes no Peru e na Colômbia.

E hobby, você tem algum?

Eu acho que o hobby é uma atividade importante, que ajuda a dar equilíbrio à pessoa. Sempre gostei muito de esporte, de leitura do mundo dos negócios e de história. Quando sobra um tempo, gosto de música – e toco bateria. Por fim, estar com a família é prazeroso, um ato que devemos sempre cultivar.

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