“Lá fora, nos reconheceram primeiro”

“Lá fora, nos reconheceram primeiro”

Sonia Racy

18 Julho 2010 | 23h00

campanasok

Sucesso internacional, os irmãos Campana contam sua história

Nove anos separam um irmão Campana do outro. Humberto, o mais velho, 57, quando pequeno queria mesmo ser índio. “Eu adorava objetos, arco e flecha, construía cabanas em árvores e quando tive que escolher uma profissão, errei”, confessou o quase-advogado, em conversa com a coluna, na loja Firma Casa. Largou a faculdade de direito e, sem qualquer intenção ou foco, resolveu montar peças com conchas e vendê-las. No fim de 1983, com viagem marcada para Marrakesh – ufa, férias – descobriu, em pânico, que não iria conseguir entregá-las no Natal.

É aí que entra Fernando, o arquiteto. Recém-formado, em meio a um trabalho para a Bienal de SP, recebeu telefonema de Humberto. “Acabei aceitando colar as conchas e montar as peças em troca de um convite para o show da Rita Lee. Eu sou seu fã incondicional”, explica Fernando, rindo de quão barato se vendeu. E assim foi dado o pontapé inicial para a criação da marca Irmãos Campana.

Fernando é mais pragmático. Humberto, sonhador. Curiosamente, a parte prática dos trabalhos da dupla – expostos nos acervos do MoMA e do Pompidou – ficou mesmo para o arquiteto. O advogado só queria criar. “Estressei, não podia ver na frente fila de banco, fórum civil ou qualquer outra coisa desse tipo. Entrei em depressão, pensei até em me matar”, exagera.

Ainda bem que não deu certo. Humberto e Fernando hoje têm alcance internacional na sua busca pelo reaproveitamento de materiais em usos inesperados. Criam peças utilitárias, a maioria cadeiras, fruto de olhar particular que inclui, não só material usado, mas também a busca de formas improváveis. Natureza, lojas de ferragens, tecidos, farmácias, supermercados. Tudo é válido. A dupla não tem showroom ou loja. Recebem pedidos, em um pequeno escritórios, onde 12 pessoas fazem de tudo: vendem e licenciam peças protótipos.

No início, somaram anos de produção e nenhuma venda. “Quem nos descobriu no aqui no Brasil foi a Adriana Adam e a Marilena Estrada. Mesmo assim, levou tempo para que alguém comprasse uma peça nossa. O primeiro foi o Reinaldo Lourenço“, conta Humberto. Foi somente depois da aposta da italiana Edra Mazzei no trabalho dos irmãos que eles “explodiram”. De cara, produziram e venderam 200 cadeiras feitas de um emaranhado de cordas vermelhas. Em sete anos de Brasil, a dupla persuadiu 20 pessoas a comprar a cadeira. Entre a criação e a venda de outra obra, a cadeira Favela, de madeira clara, passaram-se 13 anos.

Os brasileiros, no entanto, não têm acesso fácil ao que os irmãos produzem. Para chegar às lojas de São Paulo, do Rio ou de Salvador, as peças dos Campana cumprem trajetória nonsense: os protótipos vão para a Itália, são confeccionados e voltam para o Brasil. Pagando impostos altíssimos. Suas cadeiras e objetos custam entre R$ 1,7 mil e R$ 30 mil.

O fato é que a dupla só foi reconhecida aqui depois de fazer sucesso lá fora. O consumidor brasileiro ainda não tem um olhar atento para o design? “O empresário brasileiro toma menos risco, prefere se inspirar no que já está estabelecido e consagrado”, diz Fernando. Não será por que as peças são caras? Não pensam em fazer algo mais acessível? “Toda vez que a gente tenta isso, o púbico espera um produto mais elaborado e não consome. Fizemos algumas coisas para a Habitat e não foi adiante”, emenda Humberto. A seguir, nuances dos irmãos Campana.

SP, Nova York ou Milão?

Humberto – Gosto de me dividir. Mas o fim de semana é sempre em Brotas e durante a semana, SP ou outra cidade.

Fernando – Para mim, São Paulo. Pelo caos e pela modernidade.

 

Ar puro ou poluição?

F- Poluição. Eu adoro poluição.

H- Ar puro, verde. Não consigo passar o final de semana em nenhuma cidade grande.

 

Mata ou concreto?

F- Replantio consciente. Fizemos isso em nosso sítio. Cedemos uma área para 15 mil árvores. Nosso pai era agrônomo e não deixava ninguém cortar árvores. Isso nos deu bagagem ecológica.

H- Mata. Esse código florestal promove o desmatamento, principalmente nas margens do rios. Vai faltar água no futuro e esses políticos não conseguem enxergar isso. Adoro plantar, colocar a mão na terra. Fizemos o jardim de casa a quatro mãos.

 

Estética ou conforto?

H- Estética ligada a conforto e emoção. O design atual conta uma história. Vai além da forma, da função… É poesia. Pode até passar mensagem política. O design é como um filme com começo, meio e final na casa do consumidor.

F- É um equilíbrio muito frágil. Não pode ser só matemática, pois a poesia vai embora.

 

Talento vem do DNA?

H- Acredito que já nasci artista e não sabia. Demorei quase 30 anos para eu me descobri criador.

F- Eu acho que vem de uma composição forte de inconformismo. Querer ver algo a mais.

 

Inverno ou Verão?

F- Verão, 200 graus.

H- Inverno. O frio me fornece energia mental, o calor me dá depressão.

 

Noite ou dia?

F- Dia

H- Eu também adoro as manhãs. Acordo cedo e tenho muita insônia.

 

Carboidrato ou proteína?

F- Adoro o natural mas não dispenso um Mc Donald’s. A gente tem que se intoxicar de um pouco de tudo para poder viver um futuro melhor. Li no Times que se deve comer um fruto sem lavar. Mas se você é tão higiênico assim, se fragiliza e fica sem defesa. Então, o equilíbrio é a melhor coisa.

H- Também concordo, mas eu tomo um pouco mais de cuidado porque estou ficando velho e começo a sentir a saúde. Não posso mais beber uma noite inteira porque fico de ressaca até dois dias depois. Então estou prestando atenção nisso, o que inclui uma alimentação mais orgânica.

 

Ioga ou musculação?

H- Nenhum dos dois. Eu gosto de correr, andar na natureza, fazer trilhas.

F- O importante é fazer as coisas com prazer. Seja ioga ou musculação.

 

Forma ou conteúdo?

F- Em relação aos seres humanos? Conteúdo com certeza. Trinta anos tentando tirar poesia e beleza do que é banal. Adoro descobrir na feiura o que existe de mais essencial.

H- Conteúdo. Pessoas muito bonitas não me atraem, eu gosto da feiura, é mais humano. Pessoas normais me deixam mais relaxado para eu conseguir me relacionar.

 

O que fariam se não fossem designers?

H- Eu seria jardineiro, gosto de plantar.

F- Queria ser ator. Adoraria interpretar.

 

E o futuro?

H- Está na humildade, simplicidade, nos valores da terra e no respeito ao próximo, ao velho. Acontecerá uma tragédia que mudará tudo. Sinto isso por tudo que está acontecendo no planeta.

F- Acho que as coisas podem até continuar assim, desde que não exista vulgaridade. Sei que cada um é louco de sua forma, mas quando a coisa é feita só pelo capital e não pelo prazer, acaba vulgar. Estética plástica, mas sem valor interno.